)Futebol(

Quando aprendemos o sinônimo de beleza / Itália 3 x 2 Brasil;

Helton Souto

O cineasta Emir Kusturica (Underground, Mentiras da guerra) chegou a dizer certa vez que sua primeira experiência estética foi ver a seleção brasileira em campo pela Copa do Mundo de Futebol, em 1982, na Espanha. Viver uma experiência estética é algo forte e impactante. A fala de Kusturica dá a dimensão do que era aquele time liderado por Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo em campo. Uma experiência estética!

Eu tinha apenas 6 anos em 82. Tudo é sabido pela história, a seleção canarinho trucidou todos os seus adversários até ser eliminada na fatídica tarde de 05 de julho de 1982 pela Itália. 30 anos. Hoje. Eu não me lembro de muitos detalhes dos jogos não – só depois de adulto eu vim a assistir aos jogos e ter ideia do que representou aquele time. O que eu lembro mesmo é da festa, do clima, da movimentação toda em torno da Copa do Mundo. A família reunida para assistir aos jogos, as conversas dos adultos, o deslumbramento, o otimismo, a gritaria, o “voa, canarinho voa”, o “vai, vai bola, meu canarinho vai tocar castanhola”. Lembro-me de brigar na rua para ser o “Zico” durante as peladas no asfalto ou no chão de terra batida.

Há quem diga que a causa da derrota foi um certo salto alto. Mas o que existia era um otimismo. Há 12 anos não ganhávamos uma Copa. 74 e 78 eram episódios para serem esquecidos! A arte de 58, 62 e 70 tinha ficado para trás. Pelé e Tostão já haviam se aposentado. Garrincha caminhava para seus tristes últimos dias. E eis que surge a seleção de 1982 para nos restituir a glória, para nos lembrar que ainda éramos reis. A euforia era incontrolável, inquestionável. Seríamos campeões novamente, com um time magistral!

Mas havia Paolo Rossi pela frente. Não só ele, mas Zoffi, Shirea, Tardelli, Conti. Um timaço, sem dúvida. Mas, afinal, quem se lembra? A Itália acabou campeã. OK. Quem se lembra? Os italianos, claro. Eu até posso imaginar o peso sobre os ombros dos italianos depois de eliminarem a fantástica – e assim chamada – Seleção de 82. Só restava à Itália ser campeã e ainda bem que o foram. Mas me perdoe, caro amigo italiano que está lendo este texto: a Copa de 82 será lembrada mesmo por um time que contava com Zico, Sócrates, Cerezo, Falcão, Éder, Serginho, Oscar, Junior, Leandro, Luisinho e Valdir Peres e que era dirigido por Telê Santana.

Esse time ensinou a mim e a minha geração a amar, enxergar e compreender a beleza depois da era dos titãs, dos deuses do Olimpo, aqueles que não vimos jogar e que habitam um lugar mitológico: Pelé, Garrincha, Didi, Tostão... Aqueles que não vimos, mas que reconhecemos a existência.

A Seleção de 82 era de carne e osso. Nós conhecíamos pela TV. Nós acompanhávamos. Eu era muito pequeno, mas sabia a escalação da seleção brasileira de cor. Tinha o álbum da Copa com as figurinhas que vinham no chiclete. Então, esses semi-deuses, heróis, eram familiares e tínhamos uma empatia muito grande por todos eles. Vê-los na TV, jogando o melhor futebol do mundo, era como torcer por nossos parentes e amigos. E como era bom esse clima de festa e otimismo! Como era gostoso torcer pelo Brasil e para aquele time! E como eles retribuíam em campo nos enchendo os olhos e a alma de beleza e alegria!

A tristeza de 82 não foi só ter perdido para a Itália (Ah, se o Cerezo tivesse tocado com mais força aquela bola; ah, se nossa defesa não tivesse batido cabeça naquele escanteio; ah, se a cabeçada do Oscar entra; ah, se o juiz tivesse dado o pênalti no Zico...). A tristeza de 82 foi o que veio depois.

Triste foi ver os remendos de 82 quase brilhar na Copa de 86. Já com 10 anos, chorei muito mais em 86, quando o Zico perdeu o pênalti que nos custaria a eliminação diante da França.

Triste foi ver Zico (o nosso maior, depois da era Pelé) ser marcado por essas duas derrotas e dizer anos depois que trocaria todos os seus gols pelo gol de empate com a Itália em 82.

Triste foi ver que cada Copa do Mundo começou a ser marcada pela desconfiança em relação à seleção. E que, mesmo quando vencemos em 1994 e em 2002, o que contava era a dor, a superação, vencer a desconfiança, o xingamento do Dunga ao erguer a taça em 94, o esforço, a dureza e a rigidez. Triste foi ver que ficamos mais tristes e que admitimos a derrota ou a vitória quando construída com doação, bravura e raça mesmo que desprovida de beleza e encantamento.

Lembrar 82, é lembrar do que perdemos. Mas é também lembrar que é possível vencer e perder com mais alegria, com mais dança, com mais amor, mais felicidade, como dizia Sócrates, símbolo da seleção de 82. Ele morreu em 2011 e com ele a voz que reivindicava a beleza e a alegria no futebol acima de qualquer coisa. Eu me lembro de Sócrates em 82. Ao fim do jogo contra a Itália, meu irmão mais velho chorava a dor da derrota. Eu e meus irmãos mais novos cantávamos as músicas da Copa, alegres, felizes, motivados. Meu irmão, triste e zangado, pergunta por que cantávamos se havíamos perdido. Eu falei: mas o gol do Sócrates foi lindo!

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Ilustrações de Helton Souto.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook. 

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05/07/2012