)Futebol(

30 anos esta noite / Itália 3 x 2 Brasil;

Renato Alessandro dos Santos

Eu tinha 10 anos em 1982, uma Caloi 10, um uniforme de goleiro do Santos e queria ser desenhista da Turma do lambe-lambe, que nem o Daniel Azulay, um dos meus heróis (nada ainda de Paulo Francis, Jack Kerouac & Thom Yorke). Aos 10, eu vivia na lua e queria ser astronauta, cientista gira, jogador de futebol e professor. Mentira. Virei professor depois que troquei o espaço sideral, a companhia de Igor em Frankenstein Junior e os campos de várzea pela sala de aula, com giz e tudo. No dia 5 de julho de 1982, eu tinha 10 anos (ainda) e sol na moringa. Sem frustrações. As franjas balançavam ao acaso. Jogava futebol. Eu e meu primo. Éramos de muito talento, ao menos na opinião unânime dos vizinhos. O muro na frente da casa de Rogério era o palco sagrado de nossa imaginação. Ali, defesas milagrosas e chutes de três dedos “inacredincríveis” aconteciam a todo instante. Eu e o primo nos revezávamos no “gol”: um chutava, o outro defendia. Perdi a conta de quantas vezes o dedão do pé direito chutou a rua de asfalto. Nada como dar o sangue pelo futebol de rua. Quando não estava criando curvas cheias de efeito, com chutes descalços arrasadores, estava jogando no gol da quadra de chão de cimento do Jardim Martinez, em Araraquara. Foi a vez de meu antebraço esquerdo ver nascer um calombo que se tornaria mais e mais assustador e gigantesco a cada dia. E eu o mostrava a todos, com orgulho. Era uma deficiência técnica: da mesma forma que não sabia chutar com os dois pés, não sabia fazer pontes elásticas e cinematográficas do lado direito do gol, sem direito à sonoplastia em off da torcida e à narração do locutor famigerado. Estatelar-se no chão só de um lado?! Raios! Triplos! O calombo ficava um pouco abaixo do cotovelo esquerdo, como se meu braço estivesse com priapismo.

Mas ninguém (da minha geração) gosta de se lembrar do jogo em que o Brasil perdeu para a Itália, exatamente, há trinta anos. Naquela Copa do Mundo, a seleção brasileira de futebol era uma obra-prima que se movia ao ritmo veloz de 22 pés. 22 pés de Fred Astaire. Você pode não ser a pessoa mais sábia do mundo, mas se quiser levar a vida adiante com sapiência precisará aprender a dançar. Dizem. E aquela seleção de 82 sabia dançar. Os jogos eram uma celebração de futebol-arte, algo que voltou a surgir em Barcelona, com Messi, Guardiola e Cia.

E nesses lances de dados que miram o futuro, em vez de qualquer outra profissão, muitos poderiam ter sido jogadores de futebol. Mas o sonho rodopiou ralo abaixo. Onde já se viu? Uma seleção antológica como aquela não ser campeã do mundo em 1982 era algo muito injusto, e nós, brasileiros adolescendo nos anos 1980, só podíamos concordar que não haveria de ser de outro jeito e, com isso, deixamos o futebol de lado e fomos em direção a outras plagas: empregos públicos, flanelinhas, donos de fliperamas e locadoras de vídeo e (por que não?) comentaristas de cotovelos ressentidos pela decadência artística do futebol brasileiro, ao menos no que diz respeito à Com Quantos Paus Se Faz Uma Canoa (Mas Com Arte). E o grande responsável pela derrocada do sonho de ser jogador, entre os meninos da minha geração, foi ninguém menos que Paolo Rossi, cujo nome não deve ser pronunciado em voz alta, da mesma forma que não se deve assobiar à noite ou apontar o dedo para a Lua.

Rossi, Paolo Rossi.

Como a mãe de Paolo deve ter se sentido ofendida por brasileiros que assistiram àquele jogo e que, ao final, aos prantos e barrancos, pronunciaram o nome do rapaz com um ataque mofino à senhora que o tinha dado à luz! Ah, Paolo farabutto! Và a fancullo, cazzo! Seu finocchio! Fotarsi! Porca miseria! Farabutto Paolo! Farabutto! Não conhecia o significado dessas palavras de fino trato italianas que o Google me mostrou. Mas, em 1982, sem internet, no imperativo e em baixo calão, Paolo, claro, recebeu as piores notícias de nossos lindos lábios.

Trocando em miúdos, Paolo Rossi fez mais estragos aos meus 10 anos de vida do que o bicho-papão, a loira do banheiro, o Jason e o Freddy Krueger juntos. Ponto(s) de exclamação. Os três a dois da Itália sobre o Brasil foram o prenúncio do que viria pela frente no futebol. 12 anos depois, o Brasil seria campeão em 1994, mas sem jogar nem um décimo do que Valdir Peres, Oscar, Edinho, Luisinho, Toninho Cerezo, Júnior, Renato, Sócrates, Leandro, Juninho, Carlos, Edevaldo, Zico, Paulo Isidoro, Batista, Serginho Chulapa, Paulo Sérgio, Dirceu, Éder, Careca e Pedrinho, Falcão e Roberto Dinamite apresentaram em campo 12 anos antes. E ainda havia Telê Santana, genial, pintando a Capela Sistina.

E estamos aqui, 30 anos depois, relembrando uma seleção que não ganhou nada, mas que mostrou o melhor futebol ao vivo e em cores numa Copa do Mundo, sem que o verde-amarelo, com o passar dos anos, fosse tingindo de tons pretos, como se a falta de títulos da safra 82 enterrasse o legado desses atletas que, com futebol-arte, pintaram o melhor quadro que a arte brasileira de jogar futebol já expôs ao mundo. Aqueles rapazes eram artistas e, não, jogadores apenas. Eles só não esperavam encontrar pela frente as pinceladas derradeiras do sujeito cuja simples menção ao nome, depois da tragédia na Espanha, causaria (e ainda causa) tanta alegria aos italianos e, também, tanta tristeza a nós, brasileiros que, infelizmente, vimos Paolo & Cia. acabarem com a poesia ludopédica verde-amarela que existia nos campos de futebol em 1982.

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Ilustração de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e Perspectivas das Ciências Humanas na Atuação e na Formação Docente (Paco editorial, 2012). Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook..


 

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05/07/2012