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A internet pode ajudar a modificar um povo mau? / China;

Beto Canales

Eu sempre defendi que a humanidade é boa. Claro que tem muito maluco por aí que mata a própria mãe por causa do controle da TV e outros que assassinam uma multidão inteira para roubar petróleo grosso embaixo da areia fina, mas, felizmente, esses são as exceções. Em geral, somos bons. Ou, pelo menos, tentamos ser.

Permitam-me, porém, lembrar de três casos: o primeiro de uma menina se afogando diante de dezenas de chineses que, ao invés de ajudá-la, fotografavam a cena trágica. A criança foi salva por um estrangeiro. O segundo, de outra menina de dois anos, que foi atropelada duas vezes e ficou estirada no asfalto, enquanto 17 indivíduos passaram ao seu lado sem socorrê-la. A décima oitava pessoa recolheu a menina e a entregou para sua mãe. Ela morreu dias depois. O terceiro caso é o de um brasileiro que interveio em um assalto, também na China, evitando que uma senhora fosse roubada. Ele foi surrado pelos bandidos na frente de 50 pessoas que nada fizeram. Transformou-se numa espécie de herói nacional, patrocinado pelo governo comunista, que aproveitou o episódio e lançou uma campanha para popularizar a solidariedade no país, inclusive usando a internet para a divulgação.

Esses fatos tenebrosos - ainda mais se juntarmos com as pílulas com carne humana, de bebês, que são produzidas na China e vendidas na Coreia, para melhorar o desempenho sexual e para retardar o envelhecimento (dá para acreditar nisso?) - me alertaram para um senão: a humanidade, em geral, é boa, exceto os chineses.

As novas tecnologias têm sido acusadas de distanciar as pessoas, de afastar o que nunca foi muito próximo, de tornar o "indivíduo individualista" (teria algo mais óbvio?), mas, expliquem, e esses chineses? Eles são ruins por causa do Facebook? Do Twitter? (que, por sinal, nem existe por lá, pois é considerado uma ameaça ao Partido Comunista). Se levarmos em consideração que a internet na China não é livre como aqui, com centenas de páginas censuradas, se considerarmos que, na imensa China rural, distante das grandes cidades, não existe acesso à tecnologia alguma, podemos concluir com tranquilidade que a culpa dessa maldade toda não é dos smartphones. Mas, então, é de quem? Como passar ao lado de uma criança de dois anos atropelada e não socorrê-la? Não ficar "tocado" com o drama? Não chorar?

No meu caso específico, a tecnologia me aproximou das pessoas em geral. Os amigos, os leitores, todos ficaram mais próximos, num contato mais aberto, frequente e, por que não dizer, mais íntimo. Ela trouxe também novos contatos, mostrou-me o que eu não conhecia, o diferente, enfim, ajudou-me a ser mais sociável.

Então, já que o governo chinês percebeu o quão absurdo é o comportamento do seu povo e tenta mudar isso, inclusive premiando o "heroi" brasileiro do caso da velhinha assaltada, por que não investir em redes sociais, por exemplo, para aproximar as pessoas? Para torná-las mais solidárias? Melhores, ou, que seja, menos piores?

Claro que o que escrevi no parágrafo anterior não terá nenhum efeito na máquina chinesa de governar (se bem que, quando escrevi no meu humilde blog, Cinema e bobagens, um texto dando boas vindas ao Obama, recebi um agradecimento da Casa Branca...), mas, a intenção de tê-lo escrito é trazer o assado para nossa brasa: se seria possível acontecer alguma mudança com um povo tão mesquinho como os chineses têm se mostrado, que frutos poderíamos colher aqui se as redes sociais fossem usadas com um propósito mais, digamos, altruísta? Com algum marketing incentivando a educação e a solidariedade, por exemplo? Ou se, sem esperar por ninguém além de nós mesmos, começássemos uma cruzada em favor do bem estar geral?

Não se muda um povo com uma campanha, mas é possível mudar algumas cabeças.

E uma única cabeça pode mudar um povo.

Então, tenha um bom-dia, uma boa-semana, um bom-ano!

Desejo isso de verdade, sem demagogia!

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Ilustração de Helton Souto.

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Beto Canales é assíduo colaborador deste sítio, Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

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01/07/2012