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XXX / Pornografia pessoal de um ilusionista fracassado; Nilo Oliveira;

Paulino Júnior

Lançado pela primeira vez em 2004 pela extinta Editora Baleia, Pornografia pessoal de um ilusionista fracassado, de Nilo Oliveira, foi relançado recentemente pela KBR Editora Digital e merece ser lido. A primeira questão que coloco é: há pornografia em Pornografia pessoal de um ilusionista fracassado? Independente da discussão que queira se estabelecer entre pornografia e erotismo, a resposta é sim. Porém, Nilo Oliveira não é um desses precipitados que, encantados com Henry Miller e Bukowski, correm a arremedar a superfície dos textos para enxergar a si mesmos como transgressores. Mesmo porque a pornografia é a temática mais fácil para se fazer escritos ruins e a mais difícil para se criar boas narrativas, em que pese a substância para além da obviedade.

Aliás, sob certos aspectos estilísticos, entrevejo a influência de Juan Carlos Onetti, principalmente no que diz respeito ao tom, na escala rítmica que conduz os personagens e que concede atmosfera à narrativa. Chego a ter a impressão de que Nilo Oliveira pinçou o protagonista de "A longa história” – presente em Tão triste como ela e outros contos – e o introduziu cuidadosamente no contexto do conto que serve de título à sua obra. Transplante que faz experienciar como Capurro agiria com uma prostituta na flor da idade em um quarto de hotel.

Mas isso é coisa da minha cabeça e não é tudo. Na verdade, flagramos o ilusionista usando a garota em um número que revela mais do que esconde.

Ao lidar com o sexo, seja sob o signo da perversão ou prática convencional, Nilo Oliveira acaba desnudando o que se oculta na aparência. É daí que o obsceno amplia seu horizonte de significados e faz com que os ilusionistas (lê-se narradores) fracassem. Se o ilusionismo é a habilidade de provocar miragens, fracassar nessa tarefa seria revelar por distração o truque pretendido, se ludibriar com o próprio truque ou ser um ilusionista desiludido?

Sem dúvida que os narradores de Pornografia pessoal de um ilusionista fracassado são cínicos em relação às fantasias que inventam para si mesmos, sustentando um gosto pelo paradoxo, que faz ecoar a máxima de Cioran: “Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo.” Ou ainda outra do filósofo romeno: “A fim de provar que não sou um iludido, sou capaz de odiar aquilo que amo.”

O relançamento do livro também resguarda algo de inédito, já que traz um conto novo e foi adulterado em algumas passagens. Sobre isso, em seu blog, Nilo escreveu que a obra “talvez tenha ficado ainda mais contundente”, uma vez que seus alvos foram revisitados depois que “a metralhadora giratória foi trocada por um rifle de precisão.” Conquista que credita à maturidade.

Se o autor assim coloca as coisas é provável que a pornografia tenha ficado ainda mais pessoal. Ou, ligeiramente distorcendo a notável frase de Beckett, depois de fracassar pode-se voltar e fracassar ainda melhor.

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Ilustrações de Helton Souto.

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Paulino Júnior nasceu no inverno de 1979, em Presidente Prudente – Oeste Paulista. É graduado em Letras e mestre em Teoria Literária pela UNESP, campus de Assis. Desistiu de muitos empregos para continuar vivendo. Atualmente dedica-se ao ofício de afiar faca e tesoura. Mora em Florianópolis com a mulher e o filho. Um de seus contos, "Galinha dos ovos de ouro", foi selecionado para compor a antologia do 7º Concurso Literário Conto e Poesia, promovido pelo Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

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17/06/2012