)Literatura(

Uma criatura fascinante a menos no mundo / A gaivota; Tchekhov.

Renato Alessandro dos Santos

Talvez seja melhor a leitora ou o leitor conhecer alguns contos de Anton Tchekhov (1860-1904) antes de se aventurar por A gaivota, peça em quatro atos, cuja estreia em São Peterburgo, em 17 de outubro de 1896, foi um fiasco, mas não um fiasco capaz de dobrar seu autor, deixando-o desistir da dramaturgia, enquanto o pão de cada dia era ganho com a medicina. “A platéia vaiou, gritou, zombou dos atores em cena, alguns espectadores levantaram-se para conversar aos brados”, diz o tradutor Rubens Figueiredo no posfácio de A gaivota, que a Cosac & Naify lançou em 2004. Tchekhov, que estava no teatro, assistiu aos “dois primeiros atos e depois se refugiou nos bastidores”. Ainda bem que não desistiu nem do teatro nem da literatura. 

A gaivota é uma peça em que pouca coisa acontece. Pouca coisa. Vivemos assim e foi essa a justificativa de Tchekhov para este enredo que mostra que a vida continua, a despeito da morte estar sempre de tocaia. Esperando. A peça registra, como que ao acaso, a vida de alguns personagens: um grupo de pessoas reúne-se numa casa de campo para o ensaio de uma peça (dentro da peça, como em Hamlet, que não por acaso é mencionado no primeiro ato de A gaivota). Há a atriz incensada pela crítica e pela vida, com o ego nas esferas, cujo filho deseja ser escritor ou dramaturgo. A atriz é muito próxima de Trigórin, escritor exaltado por todos, e que está ali, em meio a pessoas alheias à própria vida que segue adiante, como rios que também nunca param. O filho da atriz e o escritor não se entendem, muito porque o primeiro não se conforma com o descaso de Trigórin, que pouco se importa com o escritor novato. É a lei do mais forte reunindo suas forças. Para piorar a situação do escritor novato, a moça por quem ele está apaixonado, Nina, apaixona-se pelo escritor famoso e, daí em diante, o jantar está servido. Há um intervalo de dois anos entre o terceiro e o quarto ato e, aos poucos, vamos conhecendo esses personagens com nomes de grafia complicada: Konstantin Gavríelovitch Trepliov, Piotr Nikoláietivtch Sórin, Macha, Siemion Siemiónovitch Miedviediênko etc.

O convite à leitura de A gaivota pode parecer, ambiguamente, um presente de grego. Cabe aos leitores decidir. Quem conhece os contos concisos de Tchekhov sabe que são nessas histórias, em que nada ou pouca coisa acontece, que encontramos um escritor de primeira grandeza. Quem lê contos como “A dama do cachorrinho” ou “O assassinato” pode perceber como pequenos gestos carregam uma conotação gigantesca, enquanto realmente nada parece acontecer. Como em A gaivota. Há passagens e mais passagens que levam os leitores a considerar o fascinante universo que há em Tchekhov. “Se algum dia você precisar de minha vida, venha e tome-a”, diz Nina ao escritor famoso. É uma frase que poderia ser dita pela mocinha do filme Crepúsculo àquele vampiro iridescente por quem se apaixona. Leitores mais afoitos podem escrevê-la no espelho do banheiro, outros podem dá-la de presente a quem amam e muitos podem não fazer nada, dando de ombros; a despeito do que fazer com essa frase, cabe lê-la novamente e deixá-la luminosa no cérebro, enquanto o parágrafo seguinte é lido.

O que é a gaivota do título? A imagem de uma gaivota que foi morta sem qualquer necessidade pelo escritor iniciante retorna muitas vezes, como que ao acaso, à ação. A morte dessa gaivota desencadeia a ideia de que, na vida, tal desfecho acontece a todo instante e, mesmo assim, a vida continua. Trigórin:

“Estou fazendo anotações... É que me veio uma ideia... [Guarda o caderninho] Uma ideia para um conto curto: uma jovem vive na beira de um lago, desde a infância, como a senhorita; ama o lago, como uma gaivota, e é feliz e livre, como uma gaivota. Mas de repente aparece um homem, ele a avista e, por pura falta do que fazer, ele a destrói, assim como aconteceu a essa gaivota.”

A senhorita em questão é Nina, a mocinha apaixonada por Trigórin. Desnecessário não pensar nessa gaivota à medida que o viço de Nina vai desaparecendo. Ela, como um novelo de lã à disposição de um gatinho, fica à mercê do escritor. Mas não fica só nisso e os leitores, ou espectadores, unindo as pontas, percebem que essa “gaivota” existe quando a vida é perigosamente colocada nas mãos de outra pessoa. Cá entre nós: a princípio, é a coisa certa a ser feita, não é? Mas o tempo, indelével, é que vai mostrar se tal atitude foi realmente correta, e, enquanto isso, na Batcaverna, as coisas irão ficando pelo caminho, coisas que fazem falta e que infelizmente só serão notadas quando finalmente perdidas. Para sempre.

Há uma carta de Tchekhov, de 1892, que diz muito sobre a peça:

“O pintor Levitan está passando uns dias no meu sítio. Ontem, ao entardecer, eu e ele fomos à zona de caça às galinholas. Levitan disparou e uma ave, ferida na asa, caiu num charco. Eu a levantei. Tinha um bico comprido, olhos grandes e pretos e uma plumagem bonita. Olhava para nós, espantada. O que podíamos fazer? Levitan franziu a testa, fechou os olhos e me suplicou, com voz trêmula: ‘Por favor, esmague a cabeça dela com a coronha do rifle.’ Respondi que não podia. Ele não parava de sacudir os ombros, nervoso, contraía o rosto e suplicava. A galinhola olhava pra mim, espantada. Tive de obedecer a Levitan e matá-la. E enquanto dois imbecis voltavam para casa e sentavam-se para jantar, havia uma criatura fascinante a menos no mundo”.

E pensar que a vida, enquanto a levamos adiante, segue acontecendo embaixo do nosso nariz e nada realmente acontece.

Será?

TCHEKHOV, A. A gaivota. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

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Ilustração de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e Perspectivas das Ciências Humanas na Atuação e na Formação Docente (Paco editorial). Sou professor, apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

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10/06/2012