)Livros(

2 rios / Dois rios; Tatiana Salem Levy;

Haron Jacob Gamal

Nas mãos de autores que já antecipavam a modernidade, o personagem-narrador tornou-se componente eficaz, produzindo na maioria das vezes artifícios que acabaram por se tornar uma das questões fundamentais dos romances. A literatura brasileira apresenta numerosos exemplos nesse sentido, que podem ser constatados ainda no Romantismo e, mais adiante, no nosso principal clássico, Machado de Assis, sobretudo em Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Memorial de Aires. Na contemporaneidade, temos dois exemplos de autores que souberam tirar o máximo proveito desse personagem: Milton Hatoum, em Relatos de um certo oriente, e Bernardo Carvalho, em Nove noites. Tatiana Salem Levy entra pelo mesmo atalho, tentando dar aos narradores de Dois Rios o fôlego necessário para levar sua história até o fim.

Mas a empreitada, aqui, torna-se arriscada. Construir um romance em primeira pessoa com dois narradores implica dois problemas. O primeiro é o sacrifício de um arrojo poético maior em prol da objetividade do que cada um tem a dizer. O segundo exigiria muito do escritor, porque as palavras desses narradores teriam de insinuar a psicologia e as idiossincrasias de cada um deles, logicamente elas não poderiam ser as mesmas. Numa leitura mais apurada, o que se pode constatar é que os dois personagens-narradores são muito semelhantes, senão os mesmos.

O romance, dividido em duas partes, apresenta na primeira uma mulher chamada Joana. Ela relata sua vida e o passado da família. Na segunda, um homem, mais precisamente seu irmão gêmeo, Antônio, se põe a narrar parte dos mesmos fatos, acrescidos de outros que viveu longe da irmã. Apenas um acontecimento os diferencia: o homem parte, enquanto a mulher fica (ao menos temporariamente) e acaba tendo de cuidar da mãe, que pouco a pouco vai enlouquecendo. Um segmento da narrativa ambientado à época da ditadura militar colore o romance com tintas fortes, não deixando de lado o cinzento período da história do Brasil.

Dois rios, segundo romance de Salem Levy, segue, em parte, o mesmo gênero do primeiro, A chave de casa, que é a memória. Claro que, quando se trata de romance, o que predomina é a ficção. Mas o retorno constante ao passado, o trágico e inesperado término da infância, a saudade pelo que se foi, o amor e a promessa de eterna união entre os dois irmãos permeiam muitos momentos do texto. Mais à frente, no entanto, com a adolescência e a idade adulta, haverá a separação e o amor por outra pessoa. A descrição de paisagens marítimas e imagens noturnas revelam momentos de intensa beleza da narrativa.

Uma terceira personagem, a francesa Marie-Ange, mesmo sem querer, acaba por unir as duas pontas do que se havia rompido, a ligação entre os dois irmãos. Joana e Antônio, após a morte do pai, tornaram-se inimigos. Ambos se apaixonam pela mulher, só que vivem os momentos dessa paixão em geografias e tempos diferentes.

Dois rios, além do nome do livro e do lugarejo onde acontece boa parte da história, serve também como referência aos dois irmãos, porque, na verdade, eles deságuam na mesma foz: Marie-Ange.
O leitor de romances, mesmo ao negar sua face conservadora, normalmente gosta de, no fim da leitura, ver equacionadas algumas das tensões que lhe desfilaram durante a narrativa. O livro de Tatiana nos revela um ponto certeiro. Ambos, irmão e irmã, concluem que, ficando ou partindo, estarão sempre na mais completa solidão. O surgimento da francesa ajudou cada um a superar o nó que os impedia de viver com mais plenitude. Joana deixa de lado a culpa e a mãe, e começa a viver a própria vida; Antônio, que sempre fugiu dos problemas da pequena família, retorna para encará-los de frente.

Um episódio, no entanto, mostra-se incoerente. A segunda parte do livro ocorre num período de tempo quase simultâneo à primeira, mas há um momento em que se situa à sua frente. Nela, Batistine, avó de Marie-Ange, morre, fato que é narrado por Antônio. Quando Joana viaja com a francesa, num momento posterior à volta do irmão, ambas encontram a personagem ainda viva. Talvez a transgressão temporal sirva para mostrar que descobertas prescindem de cronologia.

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Ilustração de Rodrigo SaluMau.

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Haron Jacob Gamal publicou em 2012 o livro Magalhães de Azeredo, edições da ABL (Academia Brasileira de Letras), série essencial. Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro. Leciona português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online e no Globo. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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Rodrigo SaluMau é ilustrador e comanda o Estúdio D, "ateliê de arte de rua / urbana / underground / alternativa ou seja lá qual for a definição da vez, que fica em São Paulo e conta com uma área expositiva onde outros artistas têm a oportunidade de mostrar seus trabalhos".

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27/05/2012