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Will.I.Am / William Blake

Alex Rios

Poeta, pintor e gravurista inglês, William Blake (1757-1827) foi, sobretudo, um poeta visionário que transpôs em arte a capacidade imaginativa do homem em se autoquestionar diante daquilo que é imposto tanto em relação ao que era considerado certo, aceitável pelos padrões sociais da época, quanto ao errado, abominável, de comportamento inaceitável pelos retentores do poder, a Igreja e o Estado. Sua poesia foi extemporânea – apesar de ser colocada no âmago da poesia romântica –, feita com uma grande influência do classicismo inglês de John Milton, e do misticismo de Emanuel Swedenborg.

William Wordsworth (1770-1850) e Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), considerados os poetas precursores do movimento romântico inglês – autores do prefácio de Lyrical Ballads, em 1798, marco considerado inicial do romantismo –, colocaram a poesia elevando o uso de novas concepções e ideias, sendo a arte da palavra a completa expressão ou transbordar de sentimentos, um veículo do estado emocional da mente; a poesia com origens em expressões primitivas de paixão; era essencial para a linguagem poética ser espontânea e única, expressando o estado emocional do poeta.

Por outro lado, Blake iniciou a publicação de seus poemas a partir de 1783, com Poetical sketches (Esboços poéticos) e, logo, em 1788, com “All religions are one” ("Todas as religiões são uma") e “There is no natural religion” ("Não há religião natural"), esses últimos poemas publicados com ilustrações e em prosa e poesia. Essas publicações de Blake são anteriores ao prefácio do livro de Wordsworth e Coleridge, considerando então as diferentes concepções de poesia entre os poetas. Nota-se que a poesia de Blake não se caracteriza amplamente pelos aspectos delineados por Wordsworth, uma vez que a construção de sua arte poética sofreu grande influência de poetas predecessores ao romantismo, pertencentes a diferentes períodos clássicos da literatura e, dessa forma, não guiadas totalmente pelas novas concepções de poesia. Contudo, designar a terminologia de poeta romântico a Blake é desconsiderar aspectos de sua poesia que o fez paradoxal em seu tempo.

Nos poemas “All religions are one” e “There is no Natural Religion” já é estabelecido por Blake alguns princípios de sua poesia que serão então seguidos ao longo de toda a sua carreira artística, tais como o pensamento filosófico e religioso de que o homem é guiado, ou criado, por uma força maior, que não se limita ao corpo ou à alma. Essa energia não pode ser medida pelos cinco sentidos naturais – pensamento oposto àquele que era disseminado na época, o iluminista –, pois ela transcende a razão e estabelece tanto o corpo e a alma quanto as formas exteriores do homem como derivados de uma energia comum, o chamado Gênio Poético. A imaginação é o meio da energia mental do indivíduo unificar-se com seu interior e com seu exterior; quando a imaginação cessa significa que a humanidade está em perigo, parando com a evolução do pensamento humano. Todas as religiões possuem como base esse aspecto mostrado por Blake, porém o nome dado a essa energia, que se entrelaça ao corpo e à mente, é conhecido pelo ortodoxo termo “alma”.

Man cannot naturally Perceive, but through his natural or bodily organs – There is no natural religion".
“O homem não pode naturalmente Compreender, apenas por meio de seus órgãos naturais e do corpo”.

Pensando no desfecho deste texto sobre William Blake, e sem os usos de “Em linhas gerais...”, “Portanto...”, “Para concluir...”, vale terminar o texto lembrando que Blake é considerado um dos mais importantes poetas ingleses. Ele influenciou renomados escritores de diversas épocas, tais como: Aldous Huxley – cuja obra As Portas da Percepção ostenta tal título em alusão a um excerto da obra de Blake (“Se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita”), de O Casamento do Céu e do Inferno; Allen Ginsberg – poeta americano da geração beat, que considerava ter herdado a capacidade de poeta visionário de William Blake e de Walt Whitman; Augusto de Campos – poeta, tradutor e ensaísta brasileiro, tradutor do poema "The Tyger", em 1977; dentre outros.

Blake também é celebrado na música – com um CD inteiro (Chemical wedding) do compositor e vocalista Bruce Dickinson dedicado à sua poesia. E no cinema, como no consagrado filme Red Dragon – com a grandiosa participação de Antony Hopkins como o Dr. Hannibal Lecter – e, também, no filme Carruagens de Fogo, drama de 1981 dirigido por Hugh Hudson. 

A seguir, veja o curta-metragem dirigido por Guilherme Marcondes sobre o poema “Tyger” de Blake! Até mais!

 



 

Alex Rios é chato, cabeçudo, gordinho e baixinho, adjetivos incontestáveis. Lê poesia – mas isso não significa que a entende. É formado em Letras pela UNESP Araraquara. É professor de inglês, mas trabalha também. Atualmente é guitarrista, mas um dia já foi baixista, tecladista, flautista, gaitista, ciclista, mas na verdade queria ser surfista, ensaísta, artista, marxista, sofista e jogador de futebol. Contato: alexsrios@gmail.com;

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook; 

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20/05/2012