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A delícia de ter sobrinhos /

Maurício de Oliveira

Aquele lance de família e tudo... Sobrinhos, bagunça, vídeo-game, futebol... Ter sobrinhos é realmente uma delícia, ou melhor, é uma chave para “sua” liberdade. Se sua irmã e seu cunhado moram em sua casa, ou então nos fundos (rsrsrsr) você gozará da liberdade, enfim! Livre, livre das coisas cotidianas! Liberté, Égalité, Fraternité! Banzai! Você nunca mais precisará ir à padaria, ao bar da esquina, buscar documentos, ir ao banco, entregar presentes ou mimos chantagistas para seus parentes ou namoradas... Já pensou nisso? É só dizer: “Pedrinho” (sempre no diminutivo porque vai direto ao emocional), pois bem, “Pedrinho, vá à padaria pro titio”, e ele, em troca de uma ou duas balas, vai todo contente no Bar do seu Zé, pra padoca da dona Maria... Isso se você for pobre... Se for rico, então, ele irá à padaria Cinco Estrelas, Rotisserie la Finesse... Mas, enfim, o que importa é que seu lucro e satisfação estão garantidos nos dois casos: enquanto está deitado no sofá assistindo a um filme e tomando uma cervejinha, o mundo trabalha por você! Ou melhor, caminha por você! É incrível, não é?

Se você tem filhos, pode fazer o mesmo. É claro que aí a culpa é bem menor, afinal, ele é seu filho! E, caramba, fizeram o mesmo com você por toda a sua infância e, agora, é a sua vez. A história é cíclica e tem que se repetir. Os poetas sabem muito bem disso. É sempre o mesmo jogo... E se você não o fizer, estará quebrando o ciclo natural do universo...

Mas, de todos os prazeres inconscientes, ou não, o maior é o de ser hipócrita: “você tem que tirar boas notas, comportar-se bem! E esse menino tem de arranjar um emprego!”. Ou: “na minha época...” (sic; risos). (And so on... convenhamos, você foi aquele capeta que não estudava, bagunceiro, que tramava pequenos sofrimentos a seus amiguinhos ou professoras, rindo quando todos eles se estrepavam ou tropeçavam em suas armadilhas e tal... (Como as crianças até hoje não destruíram o mundo, bem, isso é o que eu não sei! Deve ser por Deus!) E se você não foi assim, um moleque mesmo, arrependeu-se, admita.

É claro que há o lado ruim dessa convivência e suas possíveis pequenas explorações e chantagens: eles nunca lavam a louça; é sempre você... Mas... Pense nas outras tarefas que eles realizam: carregam areia pro seu puxadinho, se você é pobre; lavam seu carrão, se você é rico ou mesmo se você é pobre e poupou-se de todos os prazeres da vida para ter um carrinho popular... Ah, esses ridículos símbolos do capitalismo e do “progresso” do país... Os carrinhos ridículos do capitalismo! Viva Zapata! E mais: alegram a casa se você estiver em depressão, pra ricos e pobres; alfinetam aquele parente de quem você não gosta e não tem coragem de falar: “isso aí é peruca?! Seu namorado é um chatão! Ô tia, qual animal você gostaria de ser? Uma cobra?” e todos perdoam-no porque ele é criança e não sabe o que fala, e você: “não faça mais isso! É feio!” Vem cá: nós dois sabemos que é o contrário. Ninguém perdoa coisa nenhuma porque dói aos sentimentos a tal alfinetada, e você se delicia...

Se você tem um carro popular, não se ofenda, mas levanta agora desse sofá e toma uma atitude! Vá caminhar um pouco, ô sedentário! Se você tem um carrão mesmo, não precisa! É justificável. Afinal, vale a pena perder sua saúde por cauda dessa belezinha, não é?!

E na mesa aos domingos, todos se tratam bem, agradecidos uns aos outros e com aquela coisa boa de família no peito e tudo... Mas, de todas essas delícias, a mais absurda é mandar o pobre do moleque ir ao boteco comprar aquele seu cigarro... Depois de alguns anos, lá vem o doidinho também, com aquele cigarrão na boca e camiseta de roqueiro, todo malucão... Por que será? Todo mundo manda, todo moleque vai, todo dono de boteco vende e toda autoridade finge que não vê. Afinal, toda televisão anuncia a fumacinha do capeta – só lembrando que um canal de TV é uma concessão pública; então, o serviço deve ser de utilidade para a comunidade... Agora, a propaganda de um produto cancerígeno pode ajudar à sociedade em relação a quê? Enfim... E é sempre com o sobrinho, nunca com a sobrinha; afinal, mulher é sempre mais esperta do que homem... Mulher é gato e homem é cachorro... Mas isso é assunto para outro dia... Les femmes... O importante é que agora o mundo pode até pesar sobre você, mas há alguém para ajudá-lo...

E apesar disso tudo eu ainda sinto saudades daquela época: do bar do Derim, da sorveteria do seu Zé Gabrié, que vendia apenas quatro sabores (limão, abacaxi, ameixa e coco). E, quanto mais ranheta fosse o dono do bar, todo doidão, despenteado... Ah, aí é que eu tenho mais saudades... Eu não disse? Homem é bobo mesmo... Eu lá, feliz com uma paçoquinha ou sorvetinho nas mãos... Pauvre petit garçon enquanto as meninas fantasiavam dominar o mundo quando fossem modelos famosas ou então brincavam de casinha, treinando para manipular seus filhos e chantagear seus maridos... E, enquanto isso, na Batcaverna... Tudo rolava na cabeça delas. Repito: eu estava todo contente e feliz com uma paçoquinha e com meus inocentes dedinhos lambuzados de açúcar... Mas, enfim: gozamos de todos esses privilégios quando nos tornamos adultos, merecidíssimos por nosso imenso esforço e trabalho! Liberdade! Ainda que tardia!

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Ilustração de Helton Souto, com a participação dos sobrinhos Bruna, Carolina, Guilherme, Letícia e Rafael e seus amigos Amanda e João.

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Meu nome é Maurício de Oliveira. Nasci em 16 de novembro de 1973 na cidade de Batatais. É claro que meu sonho era ser jogador de futebol. Por ser bastante crítico, fui para o lugar mais crítico que consegui: a faculdade de História, na Unesp de Franca, onde me formei em 1996. Sempre gostei de música. Então, me tornei baterista. Nunca tive um trabalho que fosse maior do que minha inquietação ou vontade de liberdade; então, peregrinei por muitas profissões. Fui professor do ensino médio, do ensino superior, técnico de áudio, funcionário público em vários órgãos... Continuo inquieto... e-mail: mxoliveira73@hotmail.com;

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.



 

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29/04/2012