)Literatura(

Galinha dos ovos de ouro /

Paulino Júnior

Enquadro-me nas estatísticas que ressaltam a independência das mulheres. O café já está pronto quando ela acorda e confessa que se ficasse em casa dormiria um pouco mais. Costuma elogiar minha disciplina. Trocamos palavras sobre o noticiário do dia anterior e presto atenção em alguma recomendação sobre nosso filho.

Abro o portão e espero o carro dobrar a esquina. Ela vai e eu fico.

Aproveito que nosso filho ainda dorme para entrar na internet e conferir se saiu algum concurso que compense prestar. O que sempre acontece é eu me inteirar das notícias do dia que irei rever na TV. Quando à noite minha mulher senta no sofá para assistir ao telejornal, eu me adianto aos apresentadores. Às vezes dá tempo até de formar uma opinião.

Na internet também pesquiso problemas de saúde que suspeito acometerem a mim ou a nosso filho. Ela me dá broncas sempre que repasso o que li.

Sou Advogado, para todos os efeitos. Fiz estágios em escritórios de advocacia durante e após o curso de Direito. Mas tão logo percebi que “pagava para trabalhar” – palavras da minha mulher –, aceitei a proposta de ficar em casa para cuidar de nosso filho e me preparar para concursos públicos.

O salário da minha mulher possibilita passarmos com certo conforto. E ainda há bons benefícios, como o clube da associação e o plano de saúde. Levamos nosso filho em clínicas limpas, com jovens atendentes simpáticas, brinquedos pedagógicos e pouca gente. Pego uma revista enquanto esperamos a nossa vez, mas só para disfarçar que não observo os outros pais. Eu sou jovem, estou na casa dos trinta, quase quarenta, diferente de uma boa parte que parece avôs de seus próprios filhos. Concluo que é gente do tipo “primeiro vou estabilizar minha vida”; e estarão usando fralda geriátrica antes de o filho prestar vestibular.

Sinto-me aliviado por não ter que passar por isso. Imagino as amigas e namoradas do meu filho comentando o quanto “seu pai é conservado”.

Mas esses de que estou falando ainda acompanham a esposa. Vejo muitas mulheres sozinhas – só elas e o filho. Com certeza o cara está enfurnado em um escritório, evoluindo uma doença cardíaca. Ou então lavou as mãos.

Nem sempre estou de bom humor. Às vezes, fico louco da vida quando minha mulher comenta um caso de marido que depende da esposa: a velha intenção de contar sofrimentos alheios para aplacar o padecimento do enfermo.

Aguardo o fim do seu expediente com uma cuba libre em mãos, do jeito que ela gosta: coca diet, gotas de rum, suco de meio limão e quatro pedras de gelo. Seu prato preferido é macarrão à bolonhesa, mas só faço de vez em quando. Ela me pediu para manter o cardápio baseado no equilíbrio da balança.

Vou estender a roupa que coloquei pra lavar ontem à noite. Daqui a pouco nosso filho acorda e vai querer atenção só para si. Já me vejo imitando vozes de bichos de pelúcia e uma série de personagens. Faz tempo que não converso de verdade com um adulto que não seja minha esposa. Depois da terceira dose, solto mais a voz.

<>_<>

Ilustração de Helton Souto.

<>_<>

Paulino Júnior nasceu no inverno de 1979, em Presidente Prudente – Oeste Paulista. É graduado em Letras e mestre em Teoria Literária pela UNESP, campus de Assis. Desistiu de muitos empregos para continuar vivendo. Atualmente dedica-se ao ofício de afiar faca e tesoura. Mora em Florianópolis com a mulher e o filho.
Galinha dos ovos de ouro foi um dos contos selecionados para compor a antologia do 7º Concurso Literário Conto e Poesia, promovido pelo Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis.

<>_<>

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

  • 254_10_-_preludio_em_forma_de_oracao.play

22/04/2012