)Música(

Funk & psicodelia = Maggot brain / Funkadelic; Maggot brain;

Alexandre Dantas

Antes do Funkadelic, o que eu conhecia de funk resumia-se a James Brown, ao grupo War (principalmente por conta dos álbuns gravados com Eric Burdon) e a uma ou outra trilha bacanuda dos anos 60 e 70, como Shaft, do Isaac Hayes. Afora isso, ouvia alguma coisa, mas sem muita atenção. No dia em que ouvi o álbum Maggot brain, passei a respeitar e a querer entender muito mais de funk e soul, tal a pancada brutal que levei na minha área de associação sensorial a partir da audição do álbum. Porém, antes das impressões acerca dele, faz-se necessário entender um pouco mais sobre a figura central envolvida no Funkadelic: George Clinton (tão genial quanto os já citados James Brown e Isaac Hayes).

Tudo começa quando ele deixa a vida de cabeleireiro em Nova Jersey para tentar a carreira musical. O início foi com um grupo chamado Parliament (originalmente chamado de The Parliaments), que durou 10 anos, de 1970 a 1980, e rendeu 11 álbuns da melhor qualidade, com destaque para Osmium e Mothership connection. Contudo, o Parliament executava um funk no sentido mais tradicional, mais dançante. Querendo experimentar, o multi-meios George Clinton resolveu pegar a turma do Parliament (até mesmo pelo processo que a empresa de cigarros Parliament moveu contra George, por não querer estar associada a um grupo de soul music) e formar um outro grupo, com o nome de Funkadelic, no qual eles teriam uma possibilidade muito maior de experimentação (leia-se introduzir em suas músicas elementos psicodélicos).

Após dois discos gravados em 1970, Free your mind... and your ass will follow e Funkadelic, em 1972 veio a obra-prima Maggot brain, com apenas sete faixas (ouça abaixo), mas que se constitui em uma aula de black music, mas não só. Ali se misturam soul, funk, gospel, hard rock e psicodelia, demonstrando uma sucessão vertiginosa de ritmos que somente atestaram a primorosa categoria do grupo. Isso sem contar a capa: uma pessoa de penteado black power com a boca escancarada, como que saindo do meio da terra, conceito que se explica na narração contida na faixa título: “A mãe Terra está grávida pela terceira vez, vocês todos acabam de acertá-la (...) Vou ter que me levantar ou me afogar na própria merda”.

O álbum abre com uma das minhas canções preferidas não apenas do Funkadelic, do soul, do r&b, mas da Música em geral. A faixa que leva o nome do álbum (que se inicia com uma breve narração sobre a Terra) é uma viagem lisérgico-melancólica do guitarrista Eddie Hazel, de 10 minutos e 19 segundos, gravado em um único take, bom que se diga, que abduz quem o ouve sem pena (de acordo com a lenda, Eddie foi trancafiado num estúdio e George Clinton sentenciou: toque como se sua mãe tivesse morrido nesse instante!). Um conselho: coloque-a para tocar várias vezes, e várias vezes ela atingirá seu peito e espírito, o que deixará você à mercê daquelas fascinantes notas. Na sequência vem “Can you get to that”, que começa acústica para se transformar em um funkaço de primeira, daqueles que tem de estar em qualquer coletânea funk que você cismar em fazer. Atente-se para os vocais e backing vocais. De arrepiar! Com “Hit it and quit”, o grupo escancara: “Sim, Jimi Hendrix, nós te veneramos!”. Toda conduzida por uma levada “hendrixiana”, destaca-se o órgão tocado por Bernie Worrell, lembrando, em alguns momentos, Jon Lord, do Deep Purple. Outra canção primorosa. "You and your folks, me and my folks", se submete ao R&B e ao gospel, com um batidão todo pontuado por um “yeah yeah yeah” de fundo. Canção para ouvir e sacudir os ossos. A quinta canção do álbum, “Super stupid”, caso você a ouvisse no estilo cabra-cega, tenha quase certeza que o primeiro nome a ser verbalizado será o do Red Hot Chilli Peppers. Sim, os caras eram “fodaços”, antecipando o que 20 anos mais tarde ficaria conhecido como funk metal, tão bem executado e divulgado pelos “californianos” dos Chilli Peppers. Não à toa, a banda de Flea e Cia. chamou George Clinton para produzir o álbum Freak styley, de 1985. A faixa seguinte é “Back in our minds”, com um baixo latejante e uma percussão tresloucada que martela, martela, martela... e martela e, nem por isso, cansa, muito ao contrário. Tudo se encerra com “Wars of armagedon”, talvez a faixa mais conceitual-lisérgico-viajante, mas nem por isso menos funk, ou melhor, um funk de respeito, com seus quase 10 minutos.

Enfim, o fato do álbum ser composto por sete canções extremamente singulares entre si somado à capacidade de George Clinton e seus comparsas de colocarem para caminhar em uma mesma corda o funk e o rock psicodélico, em equilíbrio perfeito, fazem de Maggot Brain um álbum de referência não apenas para os amantes do funk, mas do rock, do soul, do blues, do jazz, enfim, da música em geral.

<>_<>

Ilustrações de Helton Souto.

<>_<>

Alexandre Dantas é pai do João e do Pedro, apaixonado por música (especialmente rock), palmeirense, sociólogo e professor universitário.

<>_<>

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

  • 252_01_maggot_brain.play

  • 252_02_can_you_get_to_that.play

  • 252_03_hit_it_and_quit_it.play

  • 252_04_you_and_your_folks_me_and_my_folks.play

  • 252_05_super_stupid.play

  • 252_06_back_in_our_minds.play

  • 252_07_wars_of_armageddon.play

07/04/2012