)Música(

Blues & psicodelia = Electric Mud /

Alexandre Dantas

Muddy Waters, cujo nome verdadeiro era McKinely Morganfield, nasceu em 1915, no Mississipi e começou na música aos 13, tocando gaita; ao ouvir os álbuns do mito Robert Johnson, voltou sua atenção ao violão slide e, aos 17, iniciou sua carreira. Em 1944, “descobriu” a guitarra elétrica e não a abandonou mais, assumindo-a como instrumento definitivo; com isso, eletrificou o blues. Muddy Waters (algo como Águas Lamacentas), antes de qualquer artista de renome, foi quem tocou de forma brilhante uma guitarra elétrica, o que acabou inspirando artistas que surgiram depois dele, como Jimi Hendrix, Santana, Keith Richards e outros. E sua influência no trabalho de outros artistas não para por aí: Rolling Stones homenagearam seu ídolo, ao adotarem como nome da banda o título de uma de suas canções (o single “Rollin 'Stone”, gravado em 1950); um dos maiores sucessos do Led Zeppelin, “Whole lotta love”, foi baseado na canção “You need love”; além disso, muitos artistas e bandas regravaram uma porção de canções suas, bem como foram extremamente influenciados pelo “Buda Negro”, como o chamava outro rei do blues, B.B. King.

Electric Mud, gravado em 1968, é o oitavo álbum de uma extensa discografia. E o que faz desse disco tão especial e único? De cara, como o próprio título indica, há a expectativa de muita guitarra elétrica. O que se confirma. Mas o “muita guitarra”, nesse caso, não tem a ver com quantidade, mas com qualidade. E a guitarrada toda contida no álbum é tocada de forma suja, agressiva, exaltada, violenta. Para construir o álbum, Muddy Waters toma canções já gravadas em outros momentos (seja por ele, seja por outros) e as reconstrói, imprimindo um teor psicodélico que transforma as canções em algo superior em relação às gravações originais.

De cara, Waters oferece duas canções de outro mestre do blues, Willie Dixon (que já haviam sido gravadas no seu álbum de estréia, The Best of Muddy Waters, de 1958). Ou seja, um álbum que se inicia com duas canções "re"-regravadas de Willie Dixon sugere que muita coisa boa está por vir. “I just want to make love to you” nos arremessa para uma dimensão “hendrixiana”, desde a introdução, com o acorde inicial e o primeiro verso. É Jimi Hendrix em estado puro servindo de base para uma baita letra de Dixon, na qual um homem busca justificar o porquê de uma mulher especial ir deitar-se com ele. "Eu não quero que você seja escrava / Eu não quero que você trabalhe o dia todo / Eu não quero que você seja sincera / Eu só quero fazer amor com você / Eu não quero que você lave minhas roupas / Eu não quero que você cuide da casa / Eu não quero seu dinheiro também / Eu só quero fazer amor com você".

“I'm your Hoochie Coochie Man” (que ganhou inúmeras regravações, inclusive com Jimi Hendrix) vem na sequência, percorrendo o mesmo caminho da anterior, e tão intensa quanto... Uma aula de blues elétrico. Ouçam e deliciem-se com os solos. Até aqui duas pauladas em nossa cabeça em pouco mais de nove minutos. A terceira faixa é uma gratíssima surpresa. Quando você lê “Let´s spend the night together” nos créditos do álbum, fica a sensação de que se trata de uma canção homônima, uma vez que é meio impensável imaginar tratar-se de uma cover “daquela” canção dos Stones, basicamente por duas razões: primeiramente, pelo fato de que a lógica seria que Rolling Stones fizessem covers de Waters e, não, vice-versa; em segundo lugar, a canção havia sido gravada em 1967, por Jagger, Richards e as outras pedras rolantes no álbumBetween the buttons, ou seja, além de ser recente, já estava devidamente registrada com a marca dos Stones (essa moda de “coverizar” tudo quanto é música é algo mais recente). Mesmo assim, Waters mete a mão na guitarra e reescreve a canção de forma bem peculiar, tocando-a, cantando-a e levando-a em um ritmo um pouco mais lento do que a original. Genial!

“She´s Alright” (composição do próprio Waters, gravada originalmente no álbum More real folk blues, de 1967) é uma porrada sonora de mais de seis minutos e meio (muito mais do que seus 2:27 originais). Blues em sentido pleno, construído por uma guitarra avassaladora, que preenche toda e qualquer lacuna existente naquele espaço de tempo. E os solos? Pelamordedeus! O álbum poderia terminar aqui e já estaria de bom tamanho. Afinal, após a audição dessas canções, uma intensa sensação de deleite irá tomar conta de você. Porém há mais: uma regravação para uma das canções de blues mais legais, mais marcantes e mais regravadas de todos os tempos: "Mannish boy" (que mereceu até uma versão feita pela banda Made In Brazil, “Mexa-se boy”). O famoso “Oh, Yeah” original de abertura é mantido. Porém, a bateria que seguia o riff de guitarra na versão original é substituída por outra, mais intensa, mais pesada, mais rocker, o que oferece à canção vigor muito maior. Versão definitiva! Depois que você a ouvir, a original (que ainda é sensacional) parecerá fraca, franzina, insossa até. Essa é daquelas canções para se ter em qualquer coletânea de bom gosto. A canção seguinte é um clássico do R&B, composto por Sidney Barnes e Robert Thurston; com uma introdução matadora, "Herbert Harper´s free press news" transforma-se em um explosivo rock and roll, que mantém sua pegada do começo ao fim, contribuindo para a qualidade de exceção que o álbum Electric Mud contém. O disco chega ao fim com mais duas “covers”: “Tom Cat”, de Charles Williams, e “The same thing”, também de Willie Dixon, duas excelentes canções que encerram um álbum perfeito, construído de forma concisa, sem arestas e sem excessos.

Eletric Mud é blues-psicodélico que conduz a um éden sonoro, do qual, uma vez alcançado, não se pode voltar. O Ministério da Saúde deveria recomendar uma dose de Electric Mud diariamente. Sua longevidade não aumentaria por causa disso, mas certamente você viverá muito mais feliz desse dia em diante.
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Ilustrações de Helton Souto.

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Alexandre Dantas é pai do João e do Pedro, apaixonado por música (especialmente rock), palmeirense, sociólogo e professor universitário.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

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31/03/2012