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Homo Homini Lupus est! / Roma;

Ricardo Dalla Vecchia

Havia perdido os seus. Um predador – o tempo – os levara. Ironia. A vida derramava leite. A saudade, consumia. Era manhã. Primavera. Não para ela, que tudo via cinza. Estava triste. Só. Em sua obstinação diária procurava aqueles que perdera. Refazia os passos. Rodeava. Mas só encontrava cacos de si. Firmava a vista. Insistia. Inútil. O vermelho não mais lhe aprazia. O castanho, tampouco. Só restara o azul... do rio desta vida em sua marcha inexorável. Havia algo errado. As águas do Tibre estavam calmas demais. Mal pressentimento. Agouro. Cisma. Aquela tarde reservar-lhe-ia algo. A correnteza se arrastava preguiçosa. Com ela, uma cesta. Cesta?

Pesada demais para só uma cesta. Lenta demais para uma correnteza. Cinza demais para tanto azul. Surpresa! Duas pequenas criaturas. As suas? Não. As suas?! Definitivamente não. As suas!! Sim, as suas. Queria. Muito. Precisava. Mais do que muito. Rômulo e Remo. Remo e Rômulo. O leite era forte. A matilha grande. Dava-lhes pouco. Recebia. Muito. Por comida, afeto. Por coragem, orgulho. Por vida, amor – impredicável. Cresceram ali, juntos. Aprenderam ali, juntos. Amaram ali, juntos. Viveram ali, juntos. Morria ali, só. A cesta novamente ganhava o Tibre. Leve demais para só cesta.

Rápida demais para uma correnteza. Azul demais para tanto cinza: Alea Jacta est! Seu destino tingia longe, aquarela de uma nova civilização: Vermelho de Augusto, Tibério, Calígula, Nero, César. Verde de Rafael, Donatello, Michelangelo, Leonardo. Branco de Horácio, Dante:

“Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura, ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura esta selva selvaggia e aspra e forte che nel pensier rinova la paura!”

O Coliseu – dos dias.
A Basílica – das horas.
O Fórum– dos minutos.
O Panteão – dos segundos
O Gladiador – da saudade.
Itália – Roma!

Para Wander, Márcia, Edmilson, Aline e Daiane. Por ocasião de saudade e despedida.

Ricardo Dalla Vecchia

Roma – Itália (verão de 2011).

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Ilustração de Helton Souto

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Ricardo Dalla Vecchia é torcedor fiel do time do Parque São Jorge e doutorando em filosofia pelo IFCH-UNICAMP. Em 2010/2011, realizou estágio de pesquisa na Ernst-Moritz-Arndt Universität, Alemanha.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

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17/03/2012