)Literatura(

As sete maravilhas da literatura /

Renato Alessandro dos Santos

Sérgio Augusto escreveu sobre Charles Dickens no “Sabático” de 11 de fevereiro de 2012, chamando-o de “Colosso do Tâmisa”, título de seu artigo. As referências de Sérgio Augoogle são muitas (& ninguém, NINGUÉM, deve saber mais coisas neste mundo do que o jornalista do Estadão), e se eu tivesse coragem mandaria um e-mail ao Sérgio, com uma pergunta: se Dickens, o “Colosso” de Sérgio, alude ao Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo antigo, seria Charles Dickens uma das sete maravilhas da literatura?

A.C./D.C. 

Bem, se a pergunta fizer algum sentido, o leque pode ser aberto em toda sua extensão, ou seja, do início da literatura (sabe-se lá realmente quando antes de Cristo) até hoje, porque ela, a pergunta, não deveria se restringir só ao mundo antigo (Homero, Ésquilo, Sófocles e outros bustos de mármore), se bem que faria sentido, considerando que as sete beldades da Terra dizem respeito exatamente à Antiguidade clássica. De qualquer forma, aposto que uma das maravilhas da literatura que encabeçaria unanimemente listas hipotéticas seria William Shakespeare. “Depois de Deus, foi Shakespeare quem mais criou”, já disse Alexandre Dumas, pai. Mas, os outros seis, quem seriam eles? Eu tenho cá a minha lista. É o trivial: além de Shakespeare, Sófocles, Dante, Balzac, Dostoievski, Tolstoi e Machado. É uma lista deficitária (falta Dickens?), incoerente (Balzac?) e injusta (Sófocles?) a uns; a outros, incorreta (Tolstoi?); a outros ainda, gira (Machado?). E onde estão Cervantes, Whitman e os ghost writers do Antigo Testamento e das 1001 noites? Enfim, parece que, nunca, ninguém será capaz de dizer: “estas são as sete maravilhas da literatura” e acabou. Porque, a julgar pela tradição, ideologia, costumes, metodologia utilizada, calendário maia etc., é mais fácil acabar com os conflitos no médio Oriente do que chegar a um acordo quanto aos eleitos que devem ou não fazer parte da lista.

Em outras palavras, se não é possível fechar a conta, nunca haverá consenso sobre tais maravilhas literárias de carne & osso, na verdade, todas já sem nada que lembre carne, ossos, olhos, vísceras & gordurinhas localizadas. Chegamos então a um impasse: o que fazer? Bem, nada mais resta fazer senão escrever um texto como este, declarando tal infortúnio ao leitor, e esperar dele, talvez, sua lista. Mas, cá entre nós, não é estranho não existir uma cânone-lista, como a lista de Bloom, que afirme com todas as letras: “eis as sete maravilhas da literatura”? Não é estranho? Mas não há mesmo tal lista. Há? Uai, deixa eu perguntar ao Google. Nada. Resta perguntar ao Sérgio, mas ainda é cedo. Imagino que tal lista nunca haverá de existir oficialmente porque, como Donne lembra, ninguém é um monte de terra cercado de água por todos os lados e, como tal, nesse arquipélago, ninguém pensa igual a ninguém. Ninguém. Há seguidores, claro, pessoas que se deixam levar pelas traquinagens dos outros, mas não há consenso. Talvez seja hora de incomodar Augoogle. Alguém poderia mandar um e-mail ao Sérgio? Enquanto isso, na caverna, que tal redigir nossas listas?

Mirando seus olhos e com a mão em seu ombro, pergunto: na altura de seus gloriosos anos, o que acha de fazer uma lista com as suas sete maravilhas da literatura? Se gostar da experiência, faça também uma lista de seus acepipes prediletos na música, no cinema, nas artes plásticas... Enfim, algo que dirá quem é você e o que pensa a respeito de estar vivo, agora, respirando, enquanto está aqui, nestas linhas. Diga-me qual é sua lista e eu direi quem é você? Não. Em vez disso, você descobrirá que sua lista está... incompleta! E você, em frangalhos: “incompleta?! Como assim?!” Lembre-se: sempre há algo novo para incluir, sentir, ler, ouvir, ver, gostar, apreciar, tocar etc. et cetera, não é? Nessas horas, sempre em transição, mais um apêndice de sua história será escrito, e por ninguém menos que você mesmo, o que é tudo, ao menos por enquanto. 

Em tempo: lembre-se do relógio de ponteiros quebrados na casa de Hilda Hilst (“é mais tarde do que supões”) ou daquele coelhinho apressado (“Não há mais tempo! Não há mais tempo!”).

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Ilustrações de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em estudos literários na Unesp, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial, 2012). Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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11/03/2012