)Futebol(

Futebol Futebol clube / A coisa menos (mais) importante dentre as mais (menos) importantes

Beto Canales

Notaram a letra  efe maiúscula ali no título? Pois é de propósito. Este esporte merece uma reverência toda especial, sem dúvida alguma.

Já foi dito tempos atrás, e com muita propriedade, que o futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes e, atualmente, eu chego a questionar isso. Não contestar, mas questionar mesmo, numa tentativa livre de engrandecer o que já é imenso.

Evidente que tal frase classifica o futebol entre coisas menos importantes, porque não podemos colocar esporte algum na frente de, por exemplo, saúde, ou a falta dela, miséria, guerras, economia, enfim, coisas que definem os rumos da nossa civilização ou, um tanto pessimista, o fim dela. Claro, essas são as coisas mais importantes.

Mas, convenhamos, algo que leva a um mesmo lugar, no mínimo uma vez por semana, multidões ordeiras e ávidas por um mesmo querer, sem nenhuma traição nisso, não merece uma consideração? Ou, que num mundo pré-caótico ou em lugares (países) notoriamente desorganizados, e mesmo envolvendo as ditas multidões, os eventos comecem sem atrasos? E, quando acontecem, são de alguns poucos minutos, enquanto em um consultório médico “com hora marcada” espera-se por horas, ou em um show musical, onde se espera mais ainda? Um fato que faz estranhos abraçarem-se e tocarem-se, sem nenhuma conotação sexual, mostrando o quão felizes estão? Ou, contraditoriamente e tão singelo, o quão triste? Abraçam-se por felicidade, abraçam-se por tristeza. Isso não é curioso? Elegante? Necessário? Não é algo que anda faltando entre nós? (Nós no sentido de humanidade, claro). Ou, por outra ótica menos platônica e mais aristotélica, um esporte que emprega milhares de pessoas diretamente, sustenta milhões indiretamente e tem o poder de movimentar a enonomia de nações não mereceria uma atenção especial? Algo que é conhecido no mundo inteiro, entre todos os credos, todas as raças, em todos os continentes? E praticado por crianças de todas as classes sociais, já que não requer recursos para divertir, socializar e ensinar tais crianças? Ou ainda aquela simples corrida para casa depois de um jogo, para ver os golos na televisão, não merecem uma atenção especial? Esse ato tão natural e insólito, tão comum e inusitado, tudo ao mesmo tempo, não requer uma atenção especial?

Poderia dissertar por intermináveis páginas sobre isso, mas, creio que basta para afirmar que eu mesmo me convenci e, portanto, discordo da sentença do segundo parágrafo.

Promovo, assim, o futebol para a coisa menos importante dentre as mais importantes.

Pelo menos no meu mundo.

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Ilustrações de Helton Souto

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Beto Canales é assíduo colaborador deste sítio, Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

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03/03/2012