)Literatura(

A festa nunca termina / 6o. arrondissement; geração perdida;

André Carretoni

Acorde cedo. Caminhe pelas ruas de Paris e procure uma mesa para escrever no Les Deux Magots ou no Café de Flore. Almoce no Brasserie Lipp, mas antes dê um pulinho no Closerie des Lilas. Passe a tarde no jardim de Luxembourg e leve o livro The Sun Also Rises para ler; depois, visite Stein, Fitzgerald e Papa Hemingway. Procure a placa que indica o lugar onde a livraria Shakespeare and Company se encontrava, na altura em que Sylvia Beach aceitou publicar a primeira edição do Ulysses, de James Joyce. Tome um aperitivo no La Rotonde, outro no Le Select e jante uma belle entrecôte saignant na cantina Le Polidor. Pronto. Você agora faz parte da geração perdida e poderia até ter participado do último filme do Woody Allen.

Outras sugestões para a sua jornada: caçar com o seu filho, no jardim de Luxembourg, os pombos que vocês irão comer no jantar; jantar no Brasserie Lipp e comer um jarret de porc com choucroute; passar a manhã ou a tarde escrevendo no Closerie des Lilas, perto do Marechal Ney; ou aprender a escrever com Cézanne no museu do Luxembourg. Se eu não estivesse satisfeito com o meu arrondissement e se os preços do sexto não fossem tão mais caros do que aquele que eu pago, seria lá onde eu gostaria de estar morando, perto do Odeon e da Igreja Saint-Sulpice, perto da Rose Line e entre os cafés onde eu poderia estar tentando escrever um livro menos comercial do que o código de Dan Brown.

Se bem que Paris mudou muito desde o período pós-guerra (primeira). Lá se foi o tempo em que era possível viver aqui com dois dólares por dia e passar a tarde inteira no Closerie quase sem consumir e escrevendo. Hoje, se você quiser fazer uma refeição no La Rotonde, prepare a carteira. Vários restaurantes de Paris abusam nos preços apenas porque um desses escritores, que viveram aqui com dificuldades financeiras, fora um de seus clientes ao menos uma vez.

A cantina Le Polidor somente aceita pagamento em ca$h, e o banheiro do restaurante é turco.

Tenho uma prima que não levou a sério essa informação. Estávamos caminhando pelo Boulevard St-Germain e ela me disse que precisava ir ao banheiro. Eu lhe dei duas opções: procuraríamos uma das cabines públicas e gratuitas de Paris ou esperaríamos até que chegássemos ao restaurante, se ela não se importasse de utilizar um banheiro turco. Ela riu de mim e escolheu a segunda opção. Gostaria de ter feito uma foto da cara dela, quando voltou para a mesa.

"If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life it stays with you, for Paris is a moveable feast." (Ernest Hemingway)

"Se você é sortudo o suficiente para ter vivido em Paris quando jovem; então, aonde quer que vá, para o resto de sua vida Paris permanecerá com você, porque Paris é uma festa móvel."

Não tenho a pretensão de criar um movimento literário e cheguei a Paris com 37 anos, mas todos os arrondissements de Paris também partirão comigo, principalmente o sexto.

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Ilustração de Helton Souto.

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971. Formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

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26/02/2012