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«Cortem a cabeça!» / 7° e 16° arrondissement; Auguste Rodin; Camille Claudel; Paris;

André Carretoni

Como já falei da Torre Eiffel quando escrevi sobre o 16° Arrondissement, aproveitando uma deixa do filme A origem, hoje darei espaço a outros três pontos turísticos de Paris: o museu Rodin (Sexus), a capela da Medalha Milagrosa (Nexus) e Les Invalides (Plexus).

A primeira vez que fui tocado pela musa foi graças à estátua do Pensador, de Auguste Rodin. Estava folheando a Enciclopédia Larousse de uma amiga, ainda no Brasil, quando, virando uma página, dei de cara com o homem de bronze. Todos sabem onde se encontra o chakra da criatividade. Até hoje, nenhuma outra obra artística me disse tanto quanto essa. Está tudo ali, não esculpido, mas em significado. Chapado e imaculado ("stoned and immaculate" – Jim Morrison). O corpo limitado do ser humano em contraste com o universo infinito, o qual pode ser explorado por alguns, sem que tenhamos de sair do lugar.

«The silence tell me in secret everything, everything
«O silêncio me conta em secredo tudo, tudo.»
(
"Let the sun shine" - Hair)

Naquele dia, comecei a ser um apaixonado por esculturas. Passei por Dali, Camille Claudel, Canova e parei em Michelangelo, o Divino, consciente de que, pra lá, não existe mais nada. E foi graças a Camille Claudel, a louca desvairada, que pudemos conhecer uma das histórias de amor mais trágicas da história da arte.

Ela, jovem, solteira, bonita, apaixonada por um artista reconhecido, velho, casado. Dizem que ela foi capaz de esculpir a face de Rodin depois de tê-lo visto apenas uma vez. Quando Rodin resolveu cortar as ligações que mantinham e permanecer ao lado de sua esposa, Camille quebrou as obras que tinha feito, começou a viver com trinta gatos e morreu num hospício. Felizmente, alguns de seus trabalhos sobreviveram e, hoje, também se encontram no museu Rodin, no 7° arrondissement.

Outra obra do escultor que me estimula a refletir é a Porta do Inferno, localizada nos jardins do museu, sendo que, desta vez, o contraste fica por conta da Porta do Paraíso, localizada no Batistério de São João, Florença, Itália.

Existem duas opções para visitar o museu: apenas os jardins e os jardins o museu. Aconselho veementemente ao visitante a entrar no ateliê onde Auguste trabalhou e viveu. Para quem gosta de escultura, é um prato cheio, mesmo que esteja cheio da cabeça do São João Batista.

Subindo a estátua do corpo humano, encontramos a capela da Medalha Milagrosa, na rua do Bac, lugar de repouso da irmã Catherine Labouré e um dos pontos turísticos mais visitados de Paris, sendo você religioso ou não. Conta a história que Nossa Senhora apareceu para a freira e lhe pediu para fazer uma medalha que levaria suas graças a quem lhe portasse, e apenas no ano passado reconheci a medalhinha que minha avó tem usado desde jovem perto do coração.

O sexo ficou para baixo, o amor ficou para baixo, chegamos à lógica.

Se você estivesse vivo daqui a duzentos anos, você construiria um templo para homenagear Hitler, Mussolini, Mao Tsé-Tung ou Estaline, um dos maiores estrategistas de guerra da história da humanidade? Pois é. Eles o fizeram. Apenas para recordar-nos o período em que a França fora a senhora do mundo, mesmo que essa posição tenha sido alcançada graças à opressão e pilhagem. Mais valia terem feito um templo para homenagear Beethoven, que havia intitulado a terceira sinfonia de Buonaparte e que mudara o seu nome para Eroica após saber o que o autoproclamado imperador andava fazendo em nome da liberdade.

Enfim, se você entrar no Hotel dos Inválidos para ver o túmulo de Napoleão, você terá de se curvar diante de seus restos mortais, já que a urna de mármore onde eles se encontram foi estrategicamente colocada para nos levar a realizar tal vênia.

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Ilustração de Helton Souto.

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André Carretoni
nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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Se quiser saber como foi a tempestade criativa do ilustrador, clique aqui.

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  • 241_the_flesh_failures_let_the_sunshine_in.play

05/02/2012