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Introdução à literatura norte-americana / Na natureza selvagem, Jack Kerouac, Jack London, Christopher Johnson McCandless

Renato Alessandro dos Santos

A literatura norte-americana sempre traz como uma de suas marcas a liberdade que a vastidão territorial dos EUA oferece aos desbravadores. Foi assim no início da colonização, quando o oeste era uma região a ser conquistada, e ainda hoje, com muitos aventureiros a percorrer regiões cuja beleza, além de desoladora, ainda faz os olhos se perderem na vastidão de pradarias, florestas, deserto etc.

No filme Na natureza selvagem (Into the wild, EUA, 2007), dirigido por Sean Penn,  acompanhamos a viagem que Christopher Johnson McCandless (Emile Hirsch) empreende rumo ao Alasca. Muitas vezes, quem se aventura a viajar, na verdade, está em busca de si mesmo. Viagens como essas não têm nada de turísticas. Basta ler On the Road, de Kerouac. Elas oferecem um jogo de cintura para a vida, um jogo de cintura que, em nenhum outro lugar, será encontrado. A viagem é necessária. McCandless sabe disso e, logo que se forma na universidade, resolve pôr em prática um estilo de vida que desejava há tempos. Com uma tesoura, ele destrói cartões de crédito, identidade e outros documentos; doa quase 25 mil dólares que economizara durante anos; abandona o carro no deserto e queima as últimas cédulas de dinheiro que tem. Deixa tudo para trás. Diante dele, apenas um sonho: conhecer e viver na natureza selvagem por um tempo. Quando parte, uma das primeiras coisas que faz é arranjar um novo nome: Alexander Supertramp, cujo significado pode ser algo como Alexander Superandarilho.

Quem conhece também os livros de Jack London sabe o que é a natureza selvagem. Em O chamado da selva, por exemplo, um cão — depois de ser sequestrado e de muito sofrer — vai ao encontro dessa mesma natureza, obedecendo aos instintos ancestrais de sua espécie. A natureza selvagem é o lugar em que a floresta virgem e animais nada domésticos vivem. Não é para qualquer um. Christopher, submerso em leituras de London, Thoreau, Tolstói, sabia que poderia não voltar dessa viagem, mas nem por isso deixou de realizá-la. Era seu desejo. Então, após abandonar a vida que levava, o que importava mesmo era rumar para o Alasca selvagem, o mesmo Alasca de London.

Como você ainda não viu esse filme?

O que o filme Na natureza selvagem conta é não apenas a viagem em si, mas o passado de Christopher, que viu os pais brigar constantemente por futilidades, que abraçou um idealismo feérico para o século 20, em um país como os EUA, e que não se encaixa no modelo norte-americano de viver. Então, sozinho, McCandless parte ao Alasca levando uma espingarda calibre 22, 4,5 kg de arroz e demais artigos que, erroneamente, não eram os mais apropriados para tal empreitada. Nada de bússola, nada de alimentos enlatados, nada de remédios. Nesse período, ele quer viver apenas de frutas silvestres, do que conseguir caçar e do que mais a natureza oferecer a ele — algo que consegue por um tempo, mas, infelizmente, acaba cometendo um ou outro erro. Em um desses erros fatais, após não conseguir caçar nada para comer, alimenta-se de umas frutinhas que encontra. Ele havia levado um livro que apresenta as plantas da região e, sem nada mais para comer, come dessa frutinha. Proibida. Intoxica-se. Sozinho, sem forças para se movimentar, acaba não resistindo e, lamentavelmente, morre. Mas, antes, havia ficado um bom tempo em meio à natureza, algo que o faz morrer com um sorriso nos lábios. Hirsch interpreta com desolação os momentos finais de Christopher. É emocionante. Ao mesmo tempo em que sabe que irá morrer, também parece agradecer aos céus pela iluminação que atravessou seu corpo e sua cabeça desde que resolvera partir em sua aventura. É o que mostra o filme. 

Na cena final, há uma foto do verdadeiro Christopher, tirada no mesmo magical bus onde viveu seus últimos dias — ônibus que ilustra a belíssima capa da edição brasileira do livro de Jon Krakauer. A alegria que emana do rosto de Christopher Johnson McCandless serve para mostrar que ele não estava errado e que, mais do que isso, ao atender ao chamado da natureza profunda, descobriu que o instinto não deve ser subjugado pela razão, porque, entre a dor e o nada, Christopher escolheu a dor, como inocentemente tem de ser.

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Ilustração de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco). Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

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15/01/2012