)Work In Progress(

Feliz ano por vir /

Renato Alessandro dos Santos

Na minha infância querida, olhava para uma folha de grama, uma pedrinha qualquer, alguma coisa que irradiasse um pouco mais de vida e que chamasse minha atenção numa linguagem inconsciente, silenciosa, inóspita e, então, me suspendia com aquilo. Ao olhar para essas pequenas manifestações da natureza, sentia-me privilegiado, imaginando que seria talvez a única pessoa no mundo a notar essa pedrinha perdida bem diante de mim, sem ninguém mais no mundo a notar a presença dela. Só eu. E você, onde estava?

Já não sou mais assim. Uma vez presenteado com a casca dura que o tempo vai deixando pelo caminho, você cresce e não mais se deixa olhar minuciosamente para essas coisas pequeninas cheias de vida. Mas o encanto não se perde totalmente. Sempre que há pássaros em flecha no céu, a sumir pelo mundo em debandada, o coração segue com eles. Fico a olhá-los até o fim, até dissolverem-se em câ-me-ra len-ta no ho-ri-zon-te, como se repentinamente descobrissem o segredo da invisibilidade, viajando transparentes, rumo a uma nova dimensão paralela à nossa, talvez.

Enfim, coisas como essas falam alto aos ouvidos. Certa vez, eu e uns amigos vimos um disco-voador. Vai dizer que você nunca viu um disco-voador? Era noite e, mesmo tendo amarrado um foguete, cachaça em ordem alfabética, aquilo só podia ser um disco-voador. Meu amigo Clodoaldo morava numa usina hidrelétrica. Legal, né? Eu e Tom fomos passar o reveillon lá. À noite, fomos ao clube da cidade, tão pequeno como Gavião Peixoto, a cidade em si, que nem cidade era naquela época. Eu devia ter meus 16 anos. Ninguém sabia beber ou fumar direito, mas não havia outra coisa a fazer. Forasteiros, e com as moças suspirando por nós, tiramos a barba do molho e, eretos, fomos até elas. Mulheres... Sempre nos desapontam. Depois que o último navio naufragou, tirei meu time de campo e fui até o bar. Encontrei os dois tomando uma bebida esquisita & verde. Achei que fosse um licor. Blergh. Licor!

— Que isso?
— Rapaz, isto é um antídoto contra essas barangas locais! — disse Tom, sobrancelhas em pé, copo nas esferas.
— Hmmm...

E fui prontamente atendido. Fadas? Verdes? Com a camisa do Palmeiras? Foi o que mencionou Clodoaldo. Que experiência! Naquele balcão ficamos a esvaziar aquela garrafa. Lá pelas tantas, com o clube às moscas, com os garçons colocando cadeiras sobre as mesas e a nos olhar casmurros, fomos enxotados aos solavancos pelo dono, um bigodão mau-encarado com cara de vilão da Disney.

Fomos para a casa de Forró, alcunha que nosso professor deu ao Clodô, relembrando o Santos dos anos 1960, para desgosto de meu amigo. Nosso professor confundiu Corró com Forró, o Google nos ensina. No caminho, nos deparamos com a escuridão, o silêncio — quebrado apenas por nossa euforia etílica — e o mundo a girar. Caleidoscópio. Mas o revertério não veio. E, então, com ninguém pra mandar a gente relaxar, voltamos pra casa, chutando pedrinhas, tampinhas e flocos de lã que caíam do céu. Um hip-hip-hurra para Paul, Arthur e Charles, os botes bêbados que prosseguiram contra a corrente e de quem nos lembramos aos berros. Caía a noite, deslumbrante: estrelas tentavam sussurrar segredos em nossos ouvidos, mas o barulho... Não. Deixava. A. Gente. Ouvir. Nada.

Ah, a vida!

Na casa do meu amigo, ninguém quis dormir e fomos mirar a noite que fugia. Perto da piscina, esborrachados, nos acoplamos a essas cadeiras feitas para se espreguiçar à beira de piscinas e nos esbaldamos com o espetáculo que o céu dava de bandeja para nós: estrelas e mistério, enquanto falávamos sobre nossas vidas repletas de sonhos e saudações a mais um feliz ano por vir. Naquela noite, vimos um disco-voador. Vimos mesmo! Pode até parecer que não estávamos em condição de jurar de pés juntos e tal, mas vimos um disco-voador! Não sei quem o viu primeiro. Sei que de repente estávamos todos com a cara tenebrosa do Michael Ironside, em Scanners, sua mente pode destruir. Era um acontecimento inacredincrível e, como tal, também nos sentimos inacredincríveis naquele momento.

Um pontinho no céu, ágil e célere, partia em uma direção e em outra e outra. Upa! Tomava um rumo e outro e outro e continuava desviando das estrelas que, arriscadamente, não passavam de títeres suspensos por hastes invisíveis. Saudamos aquele evento e ainda tentamos arranjar uma desculpa razoável, citando balões meteorológicos, satélites desnorteados e outros estranhos equipamentos astronômicos. Mas não encontramos nada. Fechamos com o disco-voador. E ficamos a nos perder em redemoinhos, a olhar para o céu como se fosse a coisa mais importante a fazer naquele instante, além de torcer por aquele objeto-mistério-obscuro que apenas para nós parecia empreender uma dança hipnótica e flamejante. Feliz ano por vir a você também.

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Ilustrações de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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31/12/2011