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Hell's Kitchen /

Beto Canales

Eu tenho várias ideias que poderia vender. São geniais e práticas, mesmo que de gênio e de prático eu não tenha absolutamente nada. Em alguns temas sou especialista, e minhas teorias são imbatíveis. Por exemplo, na área de relacionamento-interssexual-oficializado-sito-em-um-mesmo-endereço, ou seja, casamento, eu estaria concorrendo a um Nobel, caso existisse essa premiação. (Deveria encaminhar uma solicitação à Fundação na Suécia - imaginem que legal: Nobel de Relacionamento Humano.) Neste quesito, além de muitas iniciativas que servem para manter uma relação, há uma que acredito ser ainda mais valiosa que serve para não destruir. São coisas diferentes. Por um lado, atitudes que nutrem, alimentam o relacionamento; por outro, o que deve ser evitado a todo custo para não aniquilar - e apagar tudo que foi feito de bom - em segundos. Vocês entenderão do que falo.

Reforma.

Vítima do capitalismo, que me obriga a consumir; da propaganda em massa, que insinua sem muita cautela que se eu não comprar sou um babaca; da minha personalidade solidária, que precisa ajudar a Europa em crise movimentando a economia; dos meus dotes culinários e de uma visita que fiz a uma grande amiga que tem uma cozinha linda e, depois de três meses de negociação, foi deliberado com o primeiro escalão lá de casa que faríamos uma pequena reforma, que ainda não começou, pelo menos na prática, porque nas tratativas já está em um estado avançado para os parâmetros brasileiros de evolução de obras, ou seja, não há nada definido. 
Depois de firmado o acordo (eu deveria ter registrado em cartório), começamos a discutir os detalhes ponto a ponto.

O primeiro item foi o piso. Vocês conhecem aqueles pisos brilhantes o suficiente para refletir os fundilhos das pessoas? Brancos como a neve e lisos como a pele dos seios da Maitê? Usados normalmente em UTIs? Não. É pouco. Imaginem o interior de uma nave espacial, branca, insípida, toda de aço... É mais ou menos por aí. Essa foi a escolha da olhos verdes. Tentei dizer que a intenção era um lugar para se fazer comida e não para manipular remédios, mas não adiantou. Argumentei ainda que eu tinha bom gosto, tanto que casei com ela, e que ela não tinha, tanto que casou comigo, mas, qual o quê.

Esse valoroso diálogo, ou tentativa, aconteceu há mais de um mês. Por enquanto, continuamos no item um, mas, estou confiante de que chegaremos a um consenso até meados do ano que vem. Um prazo razoável, uma vez que não existem pedreiros.

Precisa de um arquiteto? Engenheiro? Psicólogo? Garanto que encontrará em minutos. Advogados, então... (Andei pensando em contratar um para me manter afastado dos outros, assédio, sei lá). Mas, pedreiro? Quando eles atendem o telefone, o que já é uma deferência incalculável, sinta-se feliz. Quando eles combinarem de ir na tua casa e não aparecerem, continue feliz, pois mesmo assim será um privilegiado, porque com todos os outros pobres mortais, eles nem mentem que irão.

Enfim, não quer destruir o casamento? Não reforme. Não coloque um prego. Não comente sobre isso. Não pense sobre isso. Sua casa é perfeita, sua cozinha também, e aquele quadro torto tem lá seu charme.
Ou case-se com um pedreiro. Que não tenha gosto algum.

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Ilustração de
Helton Souto

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Beto Canales é assíduo colaborador deste sítio, Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.



 

  • 235_soul_kitchen.play

16/12/2011