)Cinema(

Eternamente Carlitos / Mostra Chaplin e sua imagem, Charles Chaplin

Everton Luís Sanches

A mostra Chaplin e sua imagem, organizada pelo curador Sam Stourdzé e exibida no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, de 20 de outubro a 27 de novembro deste ano, é inspiradora e revela Charles Chaplin em sua intimidade, com brincadeiras teatrais em família e gracejos que também são pequenos trechos de seu trabalho, pequenos esquetes aproveitados para alegrar o seu cotidiano entre amigos. As imagens, ao buscarem abranger o artista e o seu personagem Carlitos, despertaram, como pude verificar ao visitar a exposição, a admiração de fãs e artistas que visitaram a mostra em busca de conhecer um pouco mais sobre uma das mais proeminentes celebridades e um dos mais competentes artistas de Hollywood de todos os tempos.

Chamou minha atenção – o que me estimulou a escrever estas linhas para Tertúlia – o olhar contemplativo sobre sua obra, concebida pelos visitantes como elaboração de um gênio imortalizado. Assim, foi notória a demonstração de alegria e satisfação por Charles Chaplin ter um dia realizado tal obra, com tanto vigor, competência e coragem.
Contudo, também me pareceu recorrente a tristeza implícita nos risos ao considerar que nosso mundo não consegue alimentar os desejos de felicidade almejados pelo personagem Carlitos; que a angústia da fome ainda é ampla, que a intolerância continua visível pelo mundo; que os conflitos armados prevalecem e que a delicadeza do vagabundo Carlitos é de Carlitos e, não, dos vagabundos que vez ou outra encontramos nas ruas. Charles Chaplin parece uma lenda, mas a miséria que ele denunciou permanece pragmática e ressentida, destacando em sua obra a atualidade desalentadora das agruras que ele abordou. Acrescento de minha parte que é ingênuo pensar que não existiriam tais agruras, pois, usando as palavras de Chaplin em Tempos modernos (1936), a “cruzada da humanidade em busca da felicidade” continua presente em nosso olhar atento sobre as trapalhadas de Carlitos. O que não é ingênuo, porém fortuito, é a vontade de que estejamos no caminho certo – ou próximos dele.

Todavia, gostaria de acrescentar a esta apreciação comum sobre o trabalho de Charles Chaplin – e foi nesse sentido que fiz amplos estudos sobre vida e obra dele – que não se trata apenas de Chaplin, de Hollywood, da história do cinema e de Carlitos. O significado social de sua obra alcança temas que ainda não estão presentes de maneira recorrente e efetiva em nossa sociedade, como respeito, afeto, lealdade, verdade, compromisso, honestidade, amor; mas são propostas a serem defendidas, ensejadas, discutidas. Diz respeito a ideias pouco aplicadas sobre a essência delicada do ser humano. Esse pode ser o ponto alto da atualidade de sua obra: as propostas de humanização feitas em seus filmes. Tudo isso redunda na defesa de que, enquanto humanos, devemos ser tratados e viver em condições compatíveis, dignas de seres humanos, valores estes que são hoje tão necessários e discutíveis quanto eram nos tempos de Carlitos. Seus personagens não são bons, também não são maus: são pessoas errando e acertando em uma busca muitas vezes opulenta e sórdida, outras vezes mesquinha e grosseira – e sempre frenética – de conforto emocional ou de sobrevida. A esperança é que em algum lugar do caminho seja encontrada a tão sonhada felicidade, apresentada na forma de uma família bem-alimentada reunida em torno de outra família – aquela de pessoas, esta de cães (Vida de cachorro, 1918). Ou ainda vislumbrada no conforto de um lar campestre, com leite e frutas frescas num café da manhã preenchido de alegria no rosto (Tempos modernos, 1936). Quem entre nós come frutas tão frescas hoje em dia, exceto aquelas que saíram da geladeira? E que bom termos ainda as que estão na geladeira, não é mesmo?

Chama a atenção um fator fundamental a respeito de Chaplin: ele dispunha de suas habilidades artísticas para destacar as possibilidades de humanização de nossa sociedade, relatando a busca de Carlitos, seu personagem, pela decência que todos nós devíamos almejar e defender. Contudo, parece que estamos imersos, isso para citar apenas o Brasil, em CPIs e operações policiais com nome de filmes americanos (não os de Chaplin) destinadas a obter um pouco de verdade e solidez para nossas vidas, quando isso deveria fazer parte de nosso esforço diário e pessoal por humanização. Se os métodos violentos de obtenção de justiça espelham-se no imaginário promovido pelo cinema, é pensável que a busca de dignidade e humanidade realizada por Carlitos figure em nosso cotidiano.

Em seus filmes Chaplin chama a atenção para o alcance das leis, pois Carlitos as infringe o tempo todo, como recurso necessário em sua busca por sobrevivência e felicidade. Assim, podemos refletir sobre até que ponto são as leis equivocadas e em que medida a sociedade ineficiente é que ainda precisa tanto dessas leis – as quais muitas vezes ela própria não consegue sustentar. Uma sociedade desumana, que mantém à custa de cinismo os recursos materiais e institucionais acessíveis para poucos, mas despreza práticas e sentimentos humanizadores. Nas palavras de Charles Chaplin, em O grande ditador (1940): “Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós.” E ele disse ainda: “Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Assim, acredito que  valeu a pena visitar a mostra Chaplin e sua imagem, assim como ver os filmes de Charles Chaplin como convites expressos para alimentarmos sentimentos nobres, para tomarmos atitudes refletidas que sejam voltadas para o benefício pessoal e à humanização da sociedade. Esta humanização, contudo, exige o esforço de cada um de nós. Ao tentarmos, talvez vejamos que não é tão difícil quanto pode parecer em primeira instância.

<>_<>

Ilustração de Helton Souto

<>_<>

Everton Luís Sanches é natural de Franca; é casado, professor, ator e diretor de teatro amador há 20 anos. Fez estágio num canal de TV em Franca, produzindo comerciais e programas (1999-2000); roteirizou e dirigiu o vídeo Sociedade Alternativa (1999). Escreveu o livro A vida é sua, o mundo é nosso, editado pela Martin Claret em 2000; escreveu e dirigiu as peças Uma boa história para todos (2003) e Fuga das mulheres (2008). Possui graduação em História pela UNESP-Franca (1999), mestrado (2003) e doutorado (2008) em História e Cultura Social pela UNESP-Franca, tendo pesquisado a vida e obra de Charles Chaplin, destacando a importância de sua mensagem humanitária no contexto histórico da primeira metade do século 20. Atualmente é professor convidado da pós-graduação em Artes da Universidade de Franca, professor do ensino presencial e a distância do Centro Universitário Claretiano de Batatais, pesquisador da UNESP-Franca e vocalista da banda Livre Docente. Seus trabalhos teatrais podem ser vistos em evertonsanches.wordpress.com e os vídeos de sua banda em bandalivredocente.blogspot.com.

<>_<>

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

 

  • 234_o_bebado_e_o_equilibrista.play

10/12/2011