)Cinema(

Qual sua trilha sonora predileta de um filme brasileiro? / Meu tio matou um cara, 2 filhos de Francisco, Terra estrangeira, Manuel Bandeira, Baile perfumado

Renato Alessandro dos Santos

Alguns filmes sempre terão lugar cativo na memória do espectador. O que dizer de Terra estrangeira, de Walter Salles? No carro veloz estrada afora, chorando, Fernanda Torres é acalentada por “Vapor barato”, de Gal Costa. Tão longe, tão perto, e o cinema – para mostrar qualquer que seja o exílio – resgata uma bela canção. E os meninos caipiras de 2 filhos de Francisco cantando na rodoviária “No dia em que eu saí de casa”? Mesmo sem gostar de música sertaneja, impossível ficar indiferente a uma canção que traduz todo o filme, sensacionalismo a tiracolo e tudo.

A trilha sonora predileta poderia ser a de Meu tio matou um cara, mas só por causa do espírito cômico da música “Soraya Queimada”, que narra o que o tio quer fazer após descobrir que fora traído pela namorada, Soraia (Deborah Secco). Zéu Britto canta:

Eu queria ter somente um fósforo
Eu queria ter uma vela acesa
Pra queimar Soraya
Pra ver torrar seu couro
Pra deixar somente o osso exposto ao Sol

E por aí, vai... Na fusão entre música e imagem, a tragicomédia vivida por esse tio do título fica muito bem armada, e com um clima sorridente como um girassol, bem ao estilo dos filmes inventivos de Furtado.

Mas o que acha de optar pela canção central de Baile perfumado? Tanto o ritmo do cangaceiro, com a terra temente a seus pés, como a câmera que rodopia em torvelinho são cativantes ao espectador. É uma fusão incendiária da imagem do sertão com a muralha sonora de “Sangue de bairro”, de Chico Science e Ortinho. E não é que antes de ir para casa “dormir profundamente”, como no poema de Manuel Bandeira, Chico deixou essa canção agreste ao cinema brasileiro e a todos que até hoje ainda não se conformaram com a morte desse caranguejo genial dos mangues de Recife.

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Qual sua trilha sonora predileta de um filme brasileiro?
Foi a pergunta que fez o Estadão há dois anos, esperando resposta de leitores interessados em ir ao Festival de Cinema de Gramado para fazer parte do Juri Popular. Os parágrafos anteriores foram uma tentativa de ir a Gramado. Tentativa que não deu em nada, mas que ao menos rendeu este texto ao Tertúlia.

Saiba mais

BANDEIRA, M. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 81.
Profundamente. Disponível em: < http://www.releituras.com/mbandeira_profundamente.asp>. Acesso em: 15 ago. 2011.

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Ilustração de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

 


 

 

 

 

 

  • 233_15_sangue_de_bairro.play

  • 233_04_soraya_queimada.play

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26/11/2011