)Sarau(

Savana / literatura brasileira contemporânea

Ivana Arruda Leite

Um dia ele me ligou convidando para ir ao cinema: eu estranhei. A gente era amigo. Batíamos longos papos na concentração, dormíamos no mesmo quarto, mas fora de lá a gente quase não se encontrava. A parada dele era outra. Outra turma, outras baladas. Pagode, mulheres. Sempre fui mais sossegado.

- Passo na tua casa às sete e meia pra te pegar.

Quando entrei no carro e vi ele na maior estica, uma beca no capricho, um perfume da hora, até brinquei:

- Cê tem certeza que é comigo que você quer sair?

Ele ligou a Mercedes e saiu cantando pneu. Antes de entrar no cinema, metemos um boné na cabeça, pusemos óculos escuros e fomos correndo, olhando pro chão. Se a galera descobre que é a gente é uma aporrinhação, autógrafos, fotografia e adeus cinema. Por isso que eu quase não saio de casa.

Nem lembro o nome direito do filme, só sei que contava a história de dois cowboys que se apaixonaram um pelo outro. De vez em quando eles se encontravam numa montanha e namoravam. Mas na maior parte do tempo, cada um tinha sua vida, eram casados, tinham filhos, sogra, tudo normal.

Quando percebi a temática, fiquei tão nervoso que não deu nem pra entender a história direito. Só sei que no final um deles morre e outro fica sozinho, com a camisa do que morreu.

O tempo todo eu ficava me perguntando: cacete, por que será que ele me trouxe pra ver justo essa porra de filme? Será que ele percebeu alguma coisa? Impossível. Eu nunca dei a menor bandeira, a menor pinta, nunca fiz uma insinuação, uma brincadeira, nada. Machão como ele é, eu sabia que era fazer uma gracinha e levar uma bifa na cara. Eu já vi ele fazendo isso com uma bicha que se engraçou pro lado dele. E o que eu tinha mais medo na vida era de perder a amizade dele. Se nem amigo a gente fosse, aí é que eu tava fodido de verdade. Saí do cinema na minha.

- E aí, gostou do filme? – ele perguntou com um sorrisão na cara.

O filho da puta tá querendo tirar uma – eu pensei.

Aí, em vez de me deixar em casa, ele entrou no maior restaurante chique, desses de ricaço mesmo e pediu champagne. Eu não tava entendendo nada. Se a gente nunca saiu junto, por que isso tudo agora? Que parada mais estranha. E quanto mais ele conversava e ria e ficava à vontade, mais eu me afastava e ficava puto. Esse cara tá gozando da minha cara.
Mal terminamos o café, eu pedi pra ir embora.

- Já? É cedo ainda. Que tal se a gente entrasse aqui? – ele disse parando na porta de um motel na marginal.

Aí meu sangue subiu e eu agarrei ele pelo colarinho.

- Qual é, cara?! Que palhaçada é essa?

Foi então que ele pegou no meu pau e me disse olhando no olho:

- Seu trouxa. Eu também sempre te quis, só que eu não tava preparado. Aliás, acho que a gente já perdeu tempo demais – e entrou no motel de língua e tudo.

Logo depois a gente embarcou pra Alemanha e faturamos o hexa. Nós dois fomos as estrelas da copa. No mundo inteiro, só dava nóis. Nunca se viu dupla tão afinada.

O professor já falou que estamos escalados pra copa da África do Sul. Vamos arrebentar de novo, sete é o meu número de sorte. Depois da Copa, já combinamos de fazer um safári pra comemorar os quatro anos que a gente tá junto.

Na seleção, todo mundo sabe do nosso caso. A gente não tá nem aí. A moçada até respeita. Mas se algum jornalista insinua alguma coisa, a gente mete um processo, senão vira esculhambação.

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Ilustração de Helton Souto

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Ivana Arruda Leite nasceu em Araçatuba. É mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Publicou três livros de contos: Histórias da mulher do fim do século, Falo de mulher e Ao homem que não me quis. Escreveu a novela Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e os romances Hotel Novo Mundo e Alameda Santos. Participou de inúmeras antologias, dentre as quais: Geração 90 – os transgressores, 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, Contos de escritoras brasileiras. Também escreve livros infanto-juvenis: Diomira e o Coronel Carrerão o mais recente.
Tem o blog Doidivana.wordpress.com.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook..

 


 

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19/11/2011