)Cinema(

Vita brevis /

Renato Alessandro dos Santos

É uma velha história que é contada pelo roteiro de Karim Aïnouz e pela direção de Walter Salles. Você já sabe: se quer ser universal, fale dos problemas de sua aldeia. A aldeia em Abril despedaçado localiza-se no nordeste brasileiro, mas encontra-se também na Albânia, país de origem de Ismail Kadaré, cujo romance originou o filme. Nem sempre a união entre literatura e cinema culmina em grande coisa, mas aqui o resultado é promissor.

A história se passa em Riacho das almas, no sertão brasileiro, em 1910. Os Breves brigam há várias gerações com a família Ferreira. Os fracos e os fortes, no roteiro, já estão delimitados pelo sobrenome. Mas ninguém é forte ou fraco nessa história e, sim, ignorante, por causa da vingança. Olho por olho. A vendeta coloca as duas famílias à iminência da extinção. Se em Vidas secas, de Graciliano Ramos, a geografia inóspita do sertão desenha a alma das personagens, em Abril despedaçado a aridez do lugar contorna a silhueta de todos. O espectador está ao lado dos Breves, uma vez que a narrativa acompanha a trajetória de dois irmãos: Pacu, o menino mais novo, e Tonho, o mais velho. Dois irmãos que têm de perpetuar o ódio ou botar um ponto final nessa história. E vale lembrar: os atores Ravi Ramos Lacerda e Rodrigo Santoro estão excelentes no papel dos irmãos.

A roda gira ao contrário. Mas nem tudo anda para trás. O tempo caminha adiante, mas é como se não andasse: um segundo a mais significa um segundo a menos na vida de Tonho, o próximo dos Breves a ser morto. Brás Cubas utilizou imagem semelhante em suas memórias póstumas: sentada sobre dois sacos, segundo a segundo, a Morte tira uma moeda da vida e a joga no saco da morte. “A gente é que nem os bois: roda, roda e não sai do lugar”, diz o menino no filme, e os bois giram a moenda ao contrário, porque não há esperança, não há futuro; só há honra, que tem de ser paga com morte. Por que as famílias brigam? Importa? A brutalidade dos gestos diz muito a respeito de gente que mede a vida por baixo e de forma tão ignóbil.

Mas eis que a chuva cai e, debaixo dela, Tonho descobre o amor, e o sexo com Clara ajuda a esclarecer as coisas: após a redenção, duas estradas levam a caminhos diferentes. Tonho pega a estrada que leva ao mar, que seu irmão mais novo nunca viu ou verá. O espaço aberto, ao final, faz brotar algo e diz muito a respeito de um filme que caminha devagar, mas que leva o espectador com ele, sempre desperto e matutando a cada segundo.

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 


 

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23/10/2011