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1 brasileiro em Paris /

André Carretoni

Paris é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, ao lado de Londres e de Nova York. Jamais me senti um estrangeiro aqui e, pela primeira vez, desde que cheguei à Europa, deixei de me sentir "o" brasileiro. Claro que as coisas seriam diferentes se eu fosse negro ou se eu usasse um lenço na cabeça, mas, mesmo que o racismo continue existindo até mesmo na França, em Paris, até os homossexuais são visto como apenas mais um povo estrangeiro. Em Paris, você pode sair com uma melancia na cabeça, com o cabelo rosa ou com uma saia escocesa que ninguém vai ficar jogando piadinhas em você. Melancias, direito de expressão, negócios à parte. Eu sou a favor da lei que proibiu o uso da burca em território francês. Se eu fosse assaltar um banco, a primeira coisa que eu faria seria meter uma burca na cara. Mas voltemos ao ponto de convergência.

Mais de 120 nacionalidades habitam no 10° arrondissement de Paris. Se você é africano ou árabe e está prestes a desembarcar em Paris, você provavelmente irá desembarcar no 10° arrondissement. Além disso, duas estações de trem – Gare du Nort e Gare de l’Est – fazem desse bairro um dos corações mais ativos do mundo. Ele bombeia, diariamente, mais de 800 mil pessoas.

Durante seis meses, fui professor de informática voluntário num dos polos de inserção social desse bairro. Ensinei a turcos, iranianas e árabes desde o que é um mouse até o abrir de um endereço eletrônico, e o meu maior desafio foi ensinar um pouco do que sei para pessoas que quase não sabiam falar algumas das línguas que conheço. O que foi uma excelente oportunidade para participar do «Liberdade, Igualdade e Fraternidade», conhecer diferentes culturas e tomar cafés existencialistas com um tocador de saz.

Existem dois Arcos do Triunfo no 10° arrondissement, menores do que o mais conhecido. Louis XIV os erigiu. Ele mandou construí-los em sua glória e em honra de suas vitórias sobre o Rhin e em Franche-Comté, e aposto que Napoleão teve a intenção de superá-los quando mandou construir o seu.

Há um simpático centro de yoga na Rue du Faubourg St. Martin, onde você pode tentar sair deste trem louco da sociedade moderna e aprender a cozinhar pratos vegetarianos. Adoro carne vermelha, mas gostaria de não sentir a necessidade de comê-la. E há uma escola de jazz na Rue Petites Ecuries, cujos professores podem contar com um dos filhos do violonista Baden Powell, Philippe Baden Powell, que, para minha surpresa, ensina piano.

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Ilustração de Helton Souto

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em
carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

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09/10/2011