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E vivemos felizes para sempre... /

Beto Canales

O importante é ser feliz.

Sempre digo isso quando estou feliz. Quando estou bem de saúde, afirmo que o importante mesmo é ter saúde. Ou quando estou com amigos, comemorando algo, não tenho dúvidas que importante mesmo são os amigos. O mais incrível disso tudo é que não são mentiras, mesmo variando significativamente sobre o mesmo tema. São, basicamente, formas oportunas para facilitar a vida, o viver, enfim, a sobrevivência. O fato de termos algo importante a nosso favor facilita tudo. E muito. Simples artimanha.

Com o passar do tempo vamos adquirindo rugas e gorduras, mas também técnicas que, se não compensam, ficam ali-ali com o que de ruim vem junto com a idade.

A forma peculiar que as mulheres têm, por exemplo, de se comunicar. É fantástica, curiosa e até possui alguma graça, mas, isso não nos isenta de tomarmos alguns cuidados sob o risco de nos transformarmos em imensas orelhas. Foi assim:

- Sabe que o sódio retêm líquidos e que a organização mundial da saúde - neste instante, antes de qualquer vírgula, olhei para aquele ponto obtuso entre os olhos verdes e lindos e fiquei calculando as chances do meu time chegar ao título. Fiz dezenas de simulações, coloquei zagueiros em campo (eles não existem no elenco) e concluí que não teria jeito. Refiz todos os cálculos para chegarmos no G4, que nada mais é do que garantir a classificação para a Copa Libertadores da América do ano que vem, e concluí que, com apenas um zagueiro, isso já seria possível. Minha alma deve ter sorrido, mas eu continuava com o mesmo olhar do começo, com a expressão impassível, cordata. Lembrei que estavam passando dois filmes argentinos nos cinemas que eu precisava ver de qualquer maneira, relembrei algumas das melhores películas dos "hermanos" , reformulei algumas resenhas e imaginei outras tantas e, por fim, fiz mentalmente uma lista de coisas que precisava comprar até o final do ano, primeiro em ordem de importância e depois de preço. Quando comecei a lembrar algumas cenas da Bruna Surfistinha o sinal de "perigo" soou e, prudentemente, voltei a ouvir - ... pode aumentar substancialmente a pressão arterial.

Imediatamente reagi, com a expressão dividida entre interessado e preocupado, e falei:

- Resumindo?

- Me passa o sal - disse ela com ar de quem sabe o que faz e um sorriso vitorioso no rosto - as batatinhas merecem isso!

E vivemos felizes para sempre.

Viram? Poderia terminar aqui, mas não serei egoísta e revelarei o segredo. Faço tudo por um mundo melhor. A técnica para isso dar certo depende somente de um detalhe fundamental que, na maioria das vezes, requer treinamento, sangue frio e uma aptidão nata para o sucesso da empreitada. Chega, porém, a surpreender pela simplicidade: durante o discurso, a cada um minuto e meio, insisto, a cada exatos noventa segundos, movimente levemente a cabeça no sentido vertical, o de concordância, e, sem mudar a expressão e nem o foco do olhar, diga de maneira bem clara:

- Ãrrrrã!

Pronto. Use toda sua capacidade para não atrasar o momento da fala, o treinamento para não rir, caso fique pensando em algo engraçado, e todo o sangue frio para não babar no caso da Bruna Surfistinha e, bingo, prepare-se para um casamento eterno.

Afinal, importante mesmo é um casamento feliz!

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Ilustração de Helton Souto

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Beto Canales é assíduo colaborador deste sítio, Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

 

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25/09/2011