)Contos(

Domingo, sempre domingo /

Renato Alessandro dos Santos

“Quando erro, erro pra valer!”
Isabelle Huppert em Amateur, de Hal Hartley

Ele levantou os olhos para o céu, mil coisas acontecendo, mas não prestou atenção em coisa alguma. Nada fazia sentido. Por um instante esqueceu-se até de seu nome. Tinha família, mas era domingo, e ela o tinha abandonado em seu jardim, sozinho, olhando para o céu. Foi ao banheiro. Nada. Voltou ao jardim e olhou novamente para o céu. Desta vez, Deus lhe disse algo. Porém, ele não se lembrou. As flores ficaram distorcidas e a grama estava mais verde do que nunca, mas nunca havia tomado LSD na vida. Ahnn? “Você deveria ter se tornado bombeiro”, ouviu em sua cabeça. “O que aconteceu?”. Lembrou-se do dia em que tinha dois caminhos pela frente. Estava no cursinho e a mãe o queria na faculdade de computação. Era a melhor profissão para o momento. No entanto, ele estava a fim de viajar, de ler, de ouvir o coração de sua namorada, madrugada adentro. Escolheu o caminho mais percorrido e foi morrer mais cedo do que esperava.

Era domingo, sempre domingo, e ele continuava no jardim. Olhou para sua barriga e praguejou. Estava enorme. Era isto que queria pra sua vida? Não tinha nome, mas tinha um admirável iglu acima do zíper. O que mais poderia ter? Todos os sonhos liquidados água abaixo. Na rua alguém passou devagar, na calma hospitaleira da terceira idade. “Olá!”, ouviu. “Você sabe que dia é hoje?” Como não houve resposta, o velho assentiu e, como uma lesma, continuou seu percurso.

O sol estava querendo desaparecer no horizonte. Ele, o homem-iglu, olhou o céu, suspirou, morreu por dentro. Domingo, sempre domingo. Entrou em casa. Antes de ir pra sala, passou pela cozinha e preparou um lanche de presunto e queijo. Agora, está lendo On the road, de Jack Kerouac; agora, não está mais. Tudo termina aqui; mais três ou quatro linhas e o homem enfarta, lendo Kerouac e comendo um sanduíche de presunto e queijo, na violenta salvação de um fulminante ataque cardíaco.

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Ilustrações de Helton Souto

 

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

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18/09/2011