)Livros(

A terra tremeu / 102 minutos: a história inédita da luta pela vida nas torres gêmeas, de Jim Dwyer e Kevin Flynn

Renato Alessandro dos Santos

Em dezembro de 2007, li 102 minutos: a história inédita da luta pela vida nas torres gêmeas, livro publicado em 2005 nos EUA e no Brasil. “Obra-prima de reportagem”, segundo The New York Times, como está na capa do livro de Jim Dwyer e Kevin Flynn. É uma pesquisa de fôlego e que, a julgar pelo tamanho da empreitada, exigiu boa dose de esforço dos dois autores. O texto flui, enquanto apresenta os angustiantes minutos finais das torres gêmeas. Desde 11 de setembro de 2001, o cinema, a música, as artes plásticas, a literatura, o jornalismo vêm dedicando obras sobre o assunto. O Google não deixa mentir. A reportagem de Dwyer & Flynn, entretanto, é a que mais longe leva o leitor dentro do inferno que se transformaram os dois prédios durante intervalo tão curto e ingrato de tempo.

A façanha é resultado da pesquisa em que mergulharam: centenas de entrevistas com sobreviventes, pessoas que ajudaram nos resgates, autoridades etc.; documentos oficiais até então inacessíveis; acesso a gravações de telefonemas e a e-mails de pedidos de socorro; essas foram as fontes que, ao lado da pesquisa bibliográfica, embasaram uma reportagem investigativa que arremessa o leitor em meio à teia de despreparo e de confusão que se armou entre o impacto do primeiro avião na torre norte, o WTC 1, às 8h46, e sua queda, às 10h28. O outro prédio, o WTC 2, foi atingido depois, às 9h02, e desabou primeiro, às 9h59. Essas imagens valem milhares de palavras e, desde então, a TV não deixa de exibi-las sempre que pode; imagens em câmera-lenta que já têm lugar em nossa memória coletiva, pois a queda de cada uma das torres não deixa de perseguir o leitor durante a incursão que se vê obrigado a fazer pelos andares, elevadores e escadas, para cima e para baixo, acompanhando a trajetória com final feliz ou trágico de algumas das pessoas enredadas no interior dos prédios.

A terra tremeu

A maneira de se contar uma história é um fator decisivo que pesa sobre cada narrativa. Eis um dos méritos do livro, pois os autores acertaram o alvo ao reunir por páginas e páginas informação, infortúnio, emoção e rigor jornalístico. São os minutos que antecedem à queda dos prédios, em contagem regressiva e a cada página virada, que angustiam o leitor. Mas não é apenas aos últimos momentos das torres que os autores dedicaram seu tempo. Há mais. A pesquisa aponta como bombeiros foram traídos por um sistema de rádio que não funcionou como deveria; como policiais e bombeiros se viram incapazes de somar esforços para, juntos, encontrar mais opções de resgate; elevadores que pararam entre os andares repletos de pessoas que não sabiam o que estava acontecendo; escadas que não foram utilizadas e que poderiam ter salvado a vida de muitas pessoas; há a descoberta de que testes eficazes contra incêndio nos últimos andares nunca foram feitos num arranha-céu como o WTC, informação que merece ser mais bem pesquisada por outros estudos, sem dúvida, especialmente pelo que, comprovada, tal negligência causou às vítimas; relata, também, o primeiro atentado ao World Trade Center, quando ocorreu a explosão de uma bomba no subsolo dos prédios em 1993. Mas são nos derradeiros momentos das torres que o livro se concentra:

O vôo 11 chocou-se contra o World Trade Center 1, a Torre Norte, a 720 quilômetros por hora, tendo atravessado todo o comprimento da ilha de Manhattan, 22,5 quilômetros de norte a sul, em menos de dois minutos. Ao se chocar violentamente contra a face norte do edifício, houve uma frenagem brusca, e o avião foi se estilhaçando. Pedaços foram ejetados pela parte sul da torre, do lado oposto àquele por onde o aparelho entrara. Uma parte do trem de pouso foi parar cinco quarteirões ao sul. O combustível pegou fogo e lançou-se rugindo pelo céu, como se o líquido tivesse continuado a voar, mesmo sem o avião. Muito da energia defletida do jato em alta velocidade desceu, em ondas, pelo esqueleto da Torre Norte. As ondas pulsaram sobre o leito de rocha, rolaram pelo oceano Atlântico e ao longo do rio Hudson. O impacto foi registrado por instrumentos no Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade de Colúmbia, em Palisades, Nova York, 35 quilômetros ao norte, gerando sinais durante 12 segundos. A terra tremeu.

A terra até pode ter tremido, mas na distância em que me encontrava eu não a senti tremendo. Em vez disso, eu me vi fazendo parte de um acontecimento único. Estranho o que senti durante aquilo tudo. Conversando com minha mãe dias mais tarde, ela ficou chocada quando lhe disse que eu gostaria de ter estado ali naquele dia; não ali, no WTC, mas em Nova York, precisamente, a alguns quarteirões dali. “Ficou doido?!”, ela perguntou. As mães não entendem que os filhos sempre têm uma insignificante insanidade juvenil a lhes ouriçar o cocuruto. Sejamos sinceros: uma ilha deserta ou ficar a alguns quarteirões de distância do WTC naquele dia? Mesmo que a ilha fosse a Ilha de Lost, certamente, as pessoas com um pouco de espírito aventureiro optariam pela ilha de Manhattan.

Stanley

O segundo avião, o vôo 175 da United Airlines, chocou-se com o WTC 2 a uma velocidade de 877 quilômetros por hora. No último segundo, contam os autores, o avião inclinou e cortou nove andares em diagonal. Uma explosão, estilhaços e outras bolas de fogo iriam se repetir, como a TV registrou.

No tempo de uma respiração, o teto desabou. Eram 9h02:59, e o vôo 175 da United Airlines mergulhava pela Torre Sul do World Trade Center, inclusive pela sala na qual Stanley Priamnath saltara para debaixo da mesa. O avião se inclinara um pouco no último segundo, e a envergadura das asas cortou diagonalmente nove andares, do 77º ao 85º. O escritório da Fuji/Mizuho estava bem no meio. A sala de Stanley foi reduzida a pedaços. Fios, baias e paredes de gessos desabaram, num emaranhado ao mesmo tempo sinistro e silencioso. A asa do avião ficou imprensada numa porta a seis metros de distância de onde Stanley, ainda vivo, encolhia-se sob a mesa.

A história de Stanley traz em si tudo o que há de sorte, coragem, humanismo e heroísmo numa só pessoa: após o impacto do avião, ouviu um pedido de socorro que vinha da sala ao lado e lá foi ele salvar um sujeito que não conhecia, para ganhar um amigo pelo resto da vida; feitas as contas, não fosse ele, haveria uma pessoa a mais na lista de desaparecidos. A história de Stanley é conhecida: o filme dos irmãos Naudet já a havia relatado.

Muito além do olho por olho

Não fosse a queda iminente dos prédios, difícil seria imaginá-los movendo-se nas alturas, mas aconteceu: com o impacto da batida, o prédio balançou e lentamente voltou ao seu ponto de apoio. Consideradas indestrutíveis desde sua inauguração na década de 1970, as torres norte e sul do World Trade Center levantavam-se 110 andares acima da calçada. Como sabemos, eram duas das mais altas estruturas já feitas pelo ser humano. Do terraço, uma visão panorâmica de 60 quilômetros era o prêmio para quem se arriscava a ficar a 400 metros de altura do chão. Uma das fotos que correu o mundo, e que mais tarde mostrou-se um embuste, trazia um rapaz no alto de uma das torres, enquanto o avião aparecia ameaçador logo abaixo. Mas era uma brincadeira de mau gosto, obra de um brasileiro que, por conta da façanha, tornou-se conhecido no mundo todo.

No texto de Dwyer & Flynn nada, ou muito pouco, há de informação sobre o vôo 93, que caiu num descampado, e nada também a respeito do avião que despencou sobre o Pentágono. Evidentemente, os 102 minutos do livro tratam do World Trade Center. Entretanto, não seria de todo ruim se os autores tivessem se dedicado a relatar, resumidamente, os acontecimentos e as consequências desses outros atentados. Nada disso desmerece o impacto que a leitura causa no leitor. Na imprensa mundial, à medida que mais e mais trabalhos como esse aparecerem, o terrorismo já terá feito outras vítimas, enquanto estaremos levando a rotina diária de nossas vidas adiante. O que aconteceu em 11 de setembro repercutiu mundo afora porque os EUA são personagens principais neste início de milênio. Acontecimentos terríveis ocorrem todo dia em países subnutridos do terceiro mundo, mas o mundo prefere ignorar Moçambique, Haiti, Zaire. De qualquer forma, não será a última vez na história da humanidade. Assim, entender o que se passou durante a queda das duas torres é mostrar interesse pelo que se passa no mundo. É, talvez, compreender que, muito além do olho por olho, tragédias continuarão a acontecer sem que o ser humano tenha aprendido alguma coisa com isso.

<>_<>

Ilustração de Helton Souto.

<>_<>

Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the Road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

<>_<>

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

  • 224_frank_sinatra_-_new_york_new_york.play

11/09/2011