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O dia em que a Terra parou /

Renato Alessandro dos Santos

Na manhã de 11 de setembro de 2001, o céu era de uma imensidão azul rotineira. Minha mulher cuidava do jardim, enquanto nosso filho Théo, à época com um ano, dormia em seu berço. O rádio estava ligado. Tocava uma música qualquer. Entre uma canção e outra, nada quebrava a tranqüilidade da casa e da manhã que estava apenas começando. De repente, o tom do locutor mudou: saía sua alegria dissimulada e entrava uma voz grave, preocupada, prenunciando uma tragédia. A notícia: um avião havia batido no World Trade Center, em Nova York, a milhares de quilômetros de onde me encontrava, envolvido que estava com a redação de um trabalho para a faculdade. Eu, como muitos iguais a mim, conhecia o WTC apenas pela imagem de cartão-postal de Nova York. Duas torres que, acima dos outros edifícios, riscavam verticalmente o céu de Manhattan.

Mas até aquele momento tudo não passava de apenas outra notícia qualquer que não trazia boas novas e que em nada alterava a manhã de céu azul. Nada demais, se por “nada demais” a morte de algumas pessoas nada signifique a distância. Não é bem assim, e se você leu O mandarim, de Eça de Queirós, sabe que nenhum ser humano é uma ilhota qualquer, como declarou John Donne quase três séculos antes de o autor de O primo Basílio ter nascido. Foi assim que a história começou para mim, e na minha cabeça ficava apenas a imagem de um aviãozinho se espatifando no alto de um edifício. Naquele momento, pensava que um Cessna, ou qualquer outra pequena aeronave, imprudentemente causara o estrago. Chegara a hora para aquele piloto e, triste destino, para quem mais estivesse tanto no pequeno avião como no andar atingido. Voltei a trabalhar. Passados alguns minutos, interrompendo a música, o rádio alertou que o negócio era feio mesmo na terra do tio Sam. Não se tratava de um avião pequeno, mas sim de um avião comercial, um avião de passageiros. E as pessoas começaram a pular lá de cima. De mãos dadas ou sozinhas, elas pulavam! Muitas. Para elas, nunca a certeza de quão pequenos somos nós foi tão grande. Pulavam. Se elas preferiam o chão, ou se, antes, não tinham outra opção, era porque a coisa estava feia lá em cima.

A morte televisionada

Como milhares de pessoas ao redor do mundo, desligamos o rádio e corremos para a TV. Um minuto depois, as imagens substituíram o que minha imaginação já pintava com horror. Você lembra onde estava na manhã de 11 de setembro? Fumaça espessa, branca e negra, preenchia o céu ao redor daqueles andares atingidos pelo avião e, enquanto bolas de fogo se alastravam, consumindo tudo o que viam pela frente, começava um dos eventos mais impressionantes já transmitidos ao vivo e ao redor do mundo pela TV. Era o início de um dia que não seria esquecido por mim ou por qualquer pessoa que, naquela manhã, aos poucos, ficava por dentro do que acontecia em Nova York. Durante meses, não se falaria em outra coisa. Imagens não faltariam, e a TV não se cansaria de repeti-las ad infinitum. Parecia coisa de cinema, mas não era. Havia apreensão e o sentimento inconseqüente de que não era brincadeira tudo aquilo. Boquiabertos, assistíamos àquelas cenas e sabíamos que pessoas estavam morrendo de verdade naquele exato momento. Parecia mesmo um filme porque era o que mostrava a pirotecnia das imagens. Mas... silêncio: como um míssil, outro avião entra em cena. Foi quando o segundo avião bateu na outra torre, cinematograficamente. O que era impressionante tornou-se ainda mais. Os EUA eram atacados e recebiam uma afronta direta, e sem saber muito bem de quem.

Mas o império contra-ataca, como é de praxe, e se houve uma palavra repetida à exaustão na TV, nas semanas que se seguiram àquele dia, foi retaliação. Mais do que um tapa na cara, aquele atentado significava tirar a vida, quando sabemos que deliberadamente assim o faz o assassino, esse autorizado representante da morte. Hoje, o 11 de setembro é lembrado como um dia já grifado nos livros de História. Dez anos atrás, o terrorismo chegou à casa de milhares de pessoas e deu seu recado. Ao vivo. Não se tratava de um ato gratuito; por trás de tudo, o nome de Osama bin Laden surgiria, para delírio da cultura pop, e a vingança mais uma vez dera o ar da graça. O prato estava frio, como tem de ser.

Nunca talvez tanta gente no mundo tenha assistido ao mesmo tempo à tamanha tragédia. Rumores de que os prédios poderiam cair começavam a chegar aos telespectadores e, de repente, a primeira torre veio abaixo. Até hoje, é uma das imagens mais impressionantes já vistas. Mas como?! Como ficava a vida daqueles bombeiros, policiais, paramédicos e toda a sorte (?) de gente que estava lá dentro? Eu, minha mulher e o mundo, ninguém, ninguém tinha palavra. O Mal existia e resolvera concentrar seus chifres e açoites naqueles quarteirões endinheirados de Manhattan.

Foi então que a outra torre do World Trade Center também caiu, no 102º minuto após o impacto do primeiro avião na torre norte, em uma imagem a ficar guardada para sempre na memória. Inacreditável: em menos de duas horas, dois dos prédios mais altos do mundo estavam reduzidos a ferros retorcidos, escombros, poeira. Devastador. O dia virara noite para quem estava ali, acompanhando tudo in loco, como mostra o documentário 11/09 feito pelos irmãos Jules e Gedeon Naudet. Escombros voaram por toda parte, enquanto o sol era encoberto pela nuvem de poeira levantada pela queda dos edifícios. Um sentimento de insegurança, então, tomou conta de tudo e de todo mundo...

Hoje, tiro os olhos da tela do computador. O pequeno calendário sobre a mesa me lembra que exatos dez anos se passaram: estamos em 11 de setembro de 2011 e Osama Bin Laden is dead. Em 11 de setembro de 2001, havia um tremendo céu azul em Nova York e do lado de fora da minha casa também. Mas, nesse dia, a Terra parou e, ao mirar os olhos para o umbigo, viu que algo estava errado. Muito errado.

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Ilustração de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the Road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook..


 

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11/09/2011