)Cinema(

A abominável censura e suas razões / A serbian film - terror sem limites

Beto Canales

No tempo da ditadura militar em nosso país, censura era algo corriqueiro e eficaz, pois atendia com requintes a nefasta necessidade da milicada em não informar, em esconder. Colocavam um burocrata qualquer com um carimbo vermelho na mão, proibindo tudo aquilo que pudesse atingir o governo e principalmente os generais. Ela era feita com uma competência surpreendente, chegando a mandar para o lixo edições inteiras de jornais, músicas, peças de teatro, enfim, uma infinidade de manifestações não só políticas, mas artísticas também.

Claro que isso é algo abominável, mas compreensivo. Ela tinha uma razão em existir. Uma razão nada digna, é verdade, mas tinha. E os motivos vindos da caserna falavam em manter a ordem e o progresso, deixar os comunistas longe e proteger a população; enquanto na realidade era manter o poder a qualquer custo (e que custo), exterminando com tudo e todos que pensassem diferente.

E hoje em dia, em qual situação a censura seria aceitável? Existe alguma? Pois eu acho que existe. Qualquer estímulo feito ao fascismo, por exemplo, deve ser banido das escolas e universidades. A reprodução de notícias sobre suicídios, que comprovadamente estimulam outros e mais outros atentados contra a própria vida, também deve ser evitada, mantendo esse acordo de cavalheiros que incrivelmente a imprensa respeita, em uma espécie de censura branca. Algum ou outro caso que possa colocar a segurança pública em risco, pelo menos no momento do tal risco, também deve ser analisado com carinho. Mas que pare por aí. Que fique limitado a casos específicos e com razões que impliquem segurança pública e nada além, e, se realmente necessária, pelo menor tempo possível.

Pois a procuradoria geral da República de Minas Gerais pediu à justiça a proibição do filme A serbian film - terror sem limites, e, pasmem, levou: o filme está censurado até o julgamento do mérito da ação. O motivo são cenas fortes e cruéis, além, é claro, de conter cenas de sexo.

Certo. Entendo. Proibir o filme para menores de 18 anos não é o suficiente. Recomendar e principalmente avisar sobre o conteúdo de algum incauto antes dele entrar no cinema também não. Somente a proibição sumária é razoável. Até porque nós, brasileiros, não estamos acostumados com cenas de violência e crueldade. Em minhas décadas todas de vida acho que nunca vi um tiroteio na televisão em horário nobre, ou notícias de um pai que abusa, escraviza e tortura uma filha por anos e anos. Além disso, somos todos filhos de proveta. Ninguém aqui faz sexo. Somos puros.

Eu provavelmente não veria esse filme, mas, pela arrogância, autoritarismo e, porque não dizer, falta de inteligência dos novos senhores donos das canetas e carimbos vermelhos, eu vou dar um jeito e o verei.

Creio que esses especialistas em justiça prévia sabem que, se a ideia era "proteger" alguma camada da sociedade de ver "coisas horríveis", o tiro sairá pela culatra. A polêmica que o ato irresponsável destes, como diria Brizola, filhotes da ditadura provocaram dará muito mais bilheteria ao filme.

Fico aqui pensando, então, qual o real motivo disso tudo e chego a algumas conclusões. Mas, desculpem, censura nelas: são impublicáveis, pois não pretendo ofender ninguém e, principalmente, nenhuma mãe. Se bem que se elas são provetas...

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Ilustrações de Helton Souto.

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Beto Canales é assíduo colaborador deste sítio, Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.


 

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04/09/2011