)Blog(

4, 8, 15, 16, 23, 42 / Lost

Renato Alessandro dos Santos

Meses e meses atrás, em um fim de semana prolongado, dei de presente a mim mesmo horas de ócio — criativo — e prazer: vi os 17 episódios da 6ª e última temporada de Lost em DVD. Foi um dos melhores presentes que já dei a alguém, mesmo que esse alguém tivesse sido eu mesmo, porque esperei muito tempo para fechar a história toda de Lost na minha cabeça. Explicação? Durante cinco anos, toda segunda-feira (entre março e outubro) foi noite de Lost aqui em casa. Saía para dar aula, enquanto o vídeo K7 gravava cada episódio. A esposa não aguentou a peleja e abandonou Lost lá pela segunda temporada. Eu, não; vi cada episódio durante cinco anos, mas no ano retrasado perdi um episódio (raios) e outro (raios múltiplos) e, lostmaníaco, tomei a difícil decisão de não ver mais nenhum outro episódio da última temporada pelo canal AXN para vê-la na íntegra, um episódio após o outro. Já havia feito o mesmo com a primeira temporada de Heroes, certa vez, e havia dado certo.

No fim de semana memorável, portanto, como a TV bojuda da sala não poderia ficar 24 horas à disposição, tive de ver Lost no notebook, lá no fundo da casa. As lágrimas não comoveram a patroa e, por isso, tive de trocar as 42 polegadas da TV pelas 15 polegadas do laptop. O que é uma perda significativa. Além disso, havia um agravante: uma jiboia-filhote que, para meu desespero, passou o fim de semana comigo vendo Lost. Tive a impressão de que ela adorou. A serpente estava de passagem — lost in translation — e ficou por aqui só alguns dias. Uma pergunta: não tem tudo a ver, ver Lost com uma jiboia ao seu lado? Agora, se a patroa quisesse ficar com a cobra em casa, coisa que eu não queria nem a pau, ela teria de escolher entre mim e Jiba, a jiboia. Disse a ela que, claro, a decisão era difícil, mas teria de optar entre meu hálito de orvalho (por anos a fio preservado em barris de carvalho) ou pelo bafo da jiboia. E então minha mulher pensou mais de duas vezes: hora ou outra eu a pegava conversando com as paredes, com o chão, consigo mesma; falando sozinha, de cenhos franzidos, pesando prós e contras. Um solilóquio sem fim. Até que finalmente escolheu este rapaz em forma. De quibe. Não se arrependeu. Até agora.

Enquanto isso, na batcaverna, Lost fica na minha imaginação como uma das melhores séries que já vi. Não foram muitas. Mas, como Twin Peaks, Lost chegou para sempre.
A história é conhecida: passageiros de um voo caem numa ilha. Veja: um avião cai numa ilha e o pessoal sobrevive. Sobrevive! Incrível, não? Pois é, a ilha não tem nenhum Tatu (“Patrão, patrão, o avião!”, lembra?) como na Ilha da Fantasia, mas coisas estranhas acontecem por lá: há uma fumaça preta maligna que é o próprio cão chupando manga; há um urso polar que apareceu sorrateiramente por lá; há gente morta andando pela floresta; há Os Outros, que até certo ponto são do mal também; há a ilha e não há a ilha, uma vez que ela não pode ser localizada no espaço em que um GPS a encontraria tranquilamente. Sim, sim, Lost é isso e muito mais.

Quando surgiu, ninguém conseguia entender o que estava se passando e, talvez, os roteiristas devem ter tido muitas noites de insônia, tentando dar um sentido racional para algo que não obedecia à racionalidade alguma. Além disso, assistindo a todas as temporadas, o espectador pode perceber a história de sempre: a velha trajetória do herói. “Em vez de dizer ‘esta é a jornada de Luke Skywalker’, talvez, fazê-la com 16 heróis”, diz um dos roteiristas nos extras da 6ª temporada. E, se você nunca pensou nisso, essa afirmação tem tudo a ver com Lost. Assista a Guerra nas estrelas e, depois, faça o dever de casa lendo O poder do mito, do fundamental, do acachapante, do iluminado Joseph Campbell; então, você verá que a jornada de um herói, ou de vários heróis, faz muito sentido em Lost.

Cabe a todo espectador de carteirinha da série ver o filme Alucinações do passado (Jacob’s ladder, EUA, 1990), de Adrian Lyne, e, também, ler dois livros que têm tudo a ver com Lost. O primeiro é Cavalo-marinho no céu (Hemus, tradução de Agatha Maria Auersperg), de Edmund Cooper, romance de ficção científica que conta a história de um grupo de passageiros que num voo entre Estocolmo e Londres acabam abduzidos por alienígenas. Eles vão parar em outro mundo. Lá, embora cada um fale uma língua diferente, as pessoas entendem-se simultaneamente: mesmo que os lábios mexam pronunciando palavras diferentes de um sujeito a outro, entre eles, a mensagem é a mesma. Sim, o meio é a massagem. Há cenas e mais cenas que levam a Lost, como as sequências com linhas de tempo que se justapõem, o que faz pessoas de épocas diferentes conviverem no mesmo presente narrativo. Uma loucura. Que merece ser lida. Claro. Já O terceiro tira (L&PM, tradução de Luis Fernando Brandão), de Flann O’Brien, é outra referência muito ligada à Lost, mas o romance ainda repousa não lido na estante de livros aqui de casa. Então, me dê sua mão e, juntos, vamos perguntar ao Google sobre o livro:

— Google, o que você recomenda?

Aqui ou aqui? Aqui? Obrigado.

Esses hiperlinks são a cara de nossa época, não são? Bem, não pense que Lost ficará no esquecimento. Não ficará. Até hoje, 14 meses depois da exibição do episódio final, fóruns na Internet discutem as soluções — algumas boas, outras impagáveis — para o desfecho do roteiro. A inovação imediata de Lost tem a ver com a maneira como a história é contada. Exempli gratia: o “flash do futuro”: antecipação de eventos posteriores ao presente da ação (prolepses), ou seja, cenas que, no futuro, ainda irão acontecer. Ninguém havia feito algo parecido antes na TV. E para tornar tudo mais original, a última temporada trouxe outra inovação, o flash paralelo, que poderia ter tido alguns ajustes, embora tenha se enfeixado bem à narrativa. Os roteiristas devem ter pensado: se antes havia o flash do futuro, por que não incluir o flash paralelo, com a narrativa voltando-se para histórias paralelas? Confuso? Só vendo Lost para entender...

Enfim, nenhum homem é uma ilha, como afirmou John Donne, e nenhuma ilha é a ilha de Lost, essa ilha aonde ser humano algum iria espontaneamente para ler e ouvir seus livros e discos prediletos (porque a ilha não deixaria).

<>_<>

Ilustrações de Helton Souto e Rodrigo SaluMau.

<>_<>

Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 39 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the Road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube.  E-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

Rodrigo SaluMau é ilustrador e comanda o Estúdio D, "ateliê de arte de rua / urbana / underground / alternativa ou seja lá qual for a definição da vez, que fica em São Paulo e conta com uma área expositiva onde outros artistas têm a oportunidade de mostrar seus trabalhos".
 

  • 221_drive_shaft_-_you_all_everybody.play

  • 221_01_-_main_title.play

  • 221_02_-_the_eyeland.play

28/08/2011