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L.I.B.E.R.T.É. / 11° e o 12° arrondissement; Revolução Francesa; O conde de Monte Cristo; liberdade

André Carretoni

Um dos melhores livros que já li até hoje é O Conde de Monte Cristo, o qual li no trabalho, numa época em que não tinha muito que fazer. Tinha ido a Lisboa havia seis anos e tinha trabalhado muito. O BUG do ano 2000 e a conversão do Escudo para o Euro haviam ficado definitivamente para trás, enquanto alguém seguia desviando dinheiro por cada trabalhador autônomo estrangeiro.

Livros em PDF. Que ninguém me imagine com Alexandre Dumas em cima do meu teclado. Esses arquivos foram e têm sido um grande bálsamo para as tardes monótonas de alguns informáticos, e posso garantir que muitos dos meus chefes têm jurado que aquilo que eu tenho estado a ler faz parte de algum acervo de manuais.

Digno de dizer que fiz o mesmo com Os sertões, de Euclides da Cunha, e teço os mesmos elogios a essa obra, mas o assunto de hoje é a vida de Edmond Dantès.

O Conde de Monte Cristo

Imagine ficar meses e meses preso e sem conhecer o motivo de sua prisão. Pior: depois de ter vivido os últimos quatro anos enclausurado, receber a visita de outro prisioneiro, o abade Faria, que havia passado os últimos seis anos cavando um buraco. Seis anos. Seis anos cavando um buraco para chegar a lugar algum. Seis anos — importante incorporar tudo o que eu senti com esse livro em um parágrafo, daí a repetição. Seis anos e eu desesperado por ter de passar tardes de quatro horas diante de um computador.

A fronteira imaginária entre o 11° e o 12° arrondissement marca o lugar onde ficava a Bastilha antes de sua queda. Sei que libertaram assassinos e ladrões, para além dos presos políticos e inocentes, mas quero apenas chamar a atenção pelo sentimento que teríamos sentido se também estivéssemos encarcerados nessa prisão em 14 de julho de 1789.

Poucos dos milhares de turistas que passam diariamente pela Bastilha voltam no tempo e meditam sobre o que a Revolução Francesa realmente significou para a França e para o mundo, e ainda menos pessoas fotografam a Coluna Julho supondo o quanto essa tal Queda significou para cada um dos prisioneiros que se encontravam ali, naquele momento. Liberdade! Alguém chegou, abriu a porta e disse: "Você está livre! Passa batido antes que a gente bote esta joça pra baixo pra construir a Pont de la Concorde com suas pedras!" Liberdade: a necessidade mais básica de qualquer ser humano. Não podemos viver sem pão, sem dormir e sem nos reproduzir, mas nos tirar a liberdade é o mesmo que nos tirar a vida. Sem ela, o espírito pode continuar livre? Para alguns, sim: Dalai Lama, Gandhi, Mandela... Contudo, fazendo parte dos bilhões de pessoas que ainda precisam do corpo para passear por aí, uma prisão para mim seria pior do que o apocalipse.

Não há nada que liberte mais a minha mente do que escrever. Escrevendo posso voar e viajar através de galáxias; posso falar de tudo, limitado apenas pelas grades daquilo que eu considero como o certo, mas sei que não conseguiria escrever numa prisão e que precisaria estar em forma para poder escrever. A literatura liberta a mente, mas a ação liberta a alma. Uma ação que foi capaz de mudar a fisionomia do 12° arrondissement e do mundo e que é louca o suficiente para...

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Ilustrações de Helton Souto.

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook..


 

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21/08/2011