)Sarau(

A chuva de alvejamento /

Carlos Elísio

E contam que um dia no futuro aconteceu algo estranho. Não souberam dizer exatamente como isso se iniciou, mas a partir de um dado momento as pessoas perceberam que a dengue havia se extinguido. Com o aumento da temperatura e as mudanças na regularidade das chuvas, até então essa doença era tida como calamidade pública. Poucos eram os que suportavam manter a vida após contraí-la, conforme suas variantes passaram várias vezes de forma a forma, atingindo níveis em que não havia sistema imunológico que seria capaz de suportar sem fraquejar, cair e padecer.

Então, com os eventos que vinham ocorrendo, seja lá o que provocara aquilo tudo, era de se dar boas-vindas e deixar tomar parte da casa para si, e viver bem junto aos agraciados com tal presente.

E assim as pessoas prosperaram, conta esse conto do futuro. Casaram, tiveram filhos, deixaram o mundo voltar a tomar suas rédeas. Tudo ia bem. Porém, com o passar dos anos, notou-se que as chuvas cada vez caíam com um odor característico e gradualmente mais forte. Cheiro de cloro. De início ninguém se preocupou, ou os poucos que o fizeram atitude alguma tomaram.

Feita a celebração da inação humana, congregada pela alegria do sofrimento, o problema foi mostrando sua verdadeira face, como sempre haverá de ser. E não tardou a se saber, a chuva contestadamente era feita de cloro.

Caía e aqueles que dela não eram capazes de fugir tinham as roupas manchadas, como que lavadas por um alvejante forte e mal utilizado. Daí deu-se de chamarem essas chuvas de alvejantes. Mas ainda não eram capazes de compreender o significado disso tudo.

Houve aqueles que dela tiraram proveito. Nunca se viu tamanha explosão de lavanderias e limpadores de calçada. O mundo pelo menos caminhava para uma nova roupagem, alva e bem higienizada. As pessoas então ficaram felizes, e viram que além de não mais se preocuparem com a dengue, agora tinham roupas sempre limpas.

E assim tudo prosseguiu placidamente. Mas houve o dia em que dessa chuva algo mudou. Talvez perceberam que o odor havia se intensificado, talvez foi mesmo pela coceira. Aos poucos, o cloro que caía afetava mais do que as roupas, e mesmo que o dano à pele fosse mínimo, algo mais ocorria. As pessoas não se preocuparam e deixaram que assim fosse. Que importava uma coceira vez por outra? Já haviam sobrevivido a coisas piores.

E, conforme foi, essa nova chuva afetava mesmo as mentes dos que se banhavam incautamente. E delas removia memórias. De início eram poucas e esparsas, mas com o tempo iam lavando, da mesma forma que as calçadas, e deixavam indivíduo após indivíduo sem saber fatos elementares de suas vidas.

E assim foi que os empregos já não podiam mais ser atendidos regularmente, pois dado um chuvisco, todos esqueciam onde trabalhavam. As escolas já não mais podiam contar com a matéria em dia, nem mesmo os professores a lembravam. Pais esqueciam quem eram seus filhos, e os filhos, como voltar para casa.

Como o vapor avançara muito rapidamente, incubando essa falta de memória e fazendo com que tudo viesse ao limbo sorrateiramente, nem mesmo políticos e cientistas souberam se precaver. Governos desfizeram-se, por ninguém mais saber em qual país vivia ou contra qual deveria defender-se.

E assim foi que um dia as pessoas já não se lembravam mais que haviam perdido a memória e se conformaram. Tudo parecia caminhar bem, numa nova sociedade em que tudo era uma surpresa, inclusive saber o próprio nome. Caminhavam dia a dia para um mundo onde a língua não cabia mais para comunicação e as pessoas se utilizavam de gestos. Logo, até os gestos foram esquecidos e elas passaram a viver sós, nas ruínas de um mundo ido.

Já não sabendo mais tratar da saúde, praticar uma boa alimentação ou sequer saber qual água era boa para se beber, pouco a pouco as pessoas foram se envenenando com o cloro. Um a um todos caíam mortos, intoxicados.

E assim seus corpos eram lavados pelo próprio cloro, assim como as calçadas e os vestígios de roupas. Tudo acabou limpo e extremamente higiênico. E com certeza, sem mais dengue.

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Conto de Carlos Elísio e Ilustração de Helton Souto.

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Carlos Elísio não estuda na UNESP. Não é professor de inglês. Não gosta de escrever e também não fez a biografia toda na terceira pessoa negando tudo que faz. A foto não é dele e nem o conto.

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

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07/08/2011