)Literatura(

Walt Whitman 4ever / Fourth International Walt Whitman Week

Renato Alessandro dos Santos

Eu queria ter uma versão miniatura do carismático Ed Folsom. Em carne & osso. O professor da University of Iowa teria o tamanho de um bonequinho dos Pneus Michelin, igualzinho àqueles que ficam sobre as cabines dos caminhões. Então, eu o colocaria em cima do painel do carro e, quando fosse sair por aí, levaria Folsom comigo. Juntos, ficaríamos conversando sobre poesia moderna, Walt Whitman e poetas rebeldes. Foi com o professor Ed Folsom que Tertúlia fez sua primeira entrevista em língua inglesa, durante os dias 11 e 16 de julho de 2011, quando foi realizado o Fourth International Walt Whitman Week. A primeira Semana Internacional Whitman aconteceu em 2008, em Dortmund, na Alemanha; em 2009, foi a vez de Tours, na França; em 2010, o evento ocorreu em Macerata, na Itália, e neste ano ocorreu pela primeira vez no Brasil, onde os whitmaníacos puderam encontrar-se na Unesp, de Araraquara. Havia estudantes da Sérvia (Ana Rockov), dos Estados Unidos (Laura Passin, Aaron Nilson, Christopher Ellison), da Itália (Caterina Bernardini), da França (Elise Godeau), da Alemanha (Frederik Schreiber e Jennifer Bühsing) e do Brasil (Carlos, Alex, Marcus, Juliana, Cissa e muitos outros). 

Whitman não necessita de apresentações, mas se você não sabe quem foi Walt, vale a pena ler a introdução que Paulo Leminski escreveu sobre ele em Folhas das folhas de relva, em 1983: “homossexual, enfermeiro, na Guerra da Secessão, como Hemingway, na Guerra Civil Espanhola, recebendo, quakermente, o Espírito Santo da poesia, livre como um pele-vermelha, como Thoreau, como um garimpador de ouro, nas Montanhas Rochosas, barbudo como um arbusto da beira do rio, Whitman, o primeiro ‘beatnik’, vive de longa vida que só uma grande poesia (ou uma grande revolução) irradia.” Whitman é quem mudou toda a poesia norte-americana moderna, quando publicou Leaves of Grass (Folhas de relva), em 1855, no mesmo ano em que, na França, Baudelaire esparramava suas flores do mal por lá.

Neste ano, o Fourth International Walt Whitman Week contou, além de Folsom (University of Iowa), com Betsy Erkkila (Northwestern University), Marina Camboni (Universitá di Macerata), Kenneth M. Price (University of Nebraska), Mario Corona (primeiro tradutor italiano de Folhas de relva e um dos fundadores da Transatlantic Walt Whitman Association), Éric Athenot (Université François-Rabelais e também um dos fundadores da TWWA), Maria Clara Bonetti Paro (Uiversidade Estadual Paulista e também uma das fundadoras da TWWA), Luciano Alves Meira (primeiro tradutor brasileiro da edição integral de Leaves of Grass) e Rodrigo Garcia Lopes (poeta, romancista, tradutor, editor e trovador que já andou pelo mundo todo e que, nesses dias, esteve em Araraquara, falando sobre a tradução que fez para a edição original de Leaves of Grass. Não foi a primeira vez que Rodrigo esteve na Morada do Sol). Em 1997, ele participou da Semana Paulo Leminski e da Semana Beat e, naqueles dias, foi chamado de Rodrigo Garcia Lorca por ninguém menos que Roberto Piva (1937-2010), nosso eterno poeta maldito, autor de Paranóia (1963), Piazzas (1964), 20 poemas com brócoli (1981) e outros comemorados livros de poemas. Como uma coisa leva a outra, cabe lembrar que Piva recebeu influência também de Whitman e que essa história merece ser pesquisada e contada por alguém. Quem sabe Tertúlia...

Sim, uma coisa leva a outra e, por isso, vale lembrar que em 1997 a Semana Beat foi organizada por Tertúlia, pelo eterno camarada Igor, pela pós-graduação da Unesp e por Maria Clara Bonetti Paro, que, 14 anos depois, num tour de force inacredincrível, fez acontecer esta Fourth International Walt Whitman Week. É importante ressaltar que o bardo norte-americano é levado por Maria Clara aonde quer que ela vá. Certamente, ninguém no Brasil é mais versado no assunto do que ela. Cabe contar uma história. Na primeira pessoa do singular.

Emma Bovary c'est moi

Em 1994, quando fazia Letras na Unesp de Araraquara, o fanzine Tertúlia número dois foi parar nas mãos de Maria Clara. Havia um texto sobre Whitman, escrito por Flora Carvalho. Minha professora, então, veio me perguntar quem era aquela garota que ninguém no campus sabia responder quem era. Hê, hê. Flora Carvalho era eu, pseudônimo que, com Henri Navarro, utilizei naquela edição. Desde então, Maria Clara tornou-se minha orientadora. Ela iluminou com um archote minha dissertação de mestrado (A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac) e, agora, no doutorado, cá estamos juntos novamente, dispostos a estudar os poetas e escritores rebeldes da literatura norte-americana, de Thoreau à geração beat, passando por Whitman, Poe, Dickinson, London e os poetas da geração perdida.

A vida é mesmo uma festa, não é? Afinal, como escreveu Whitman: “Come, said my soul”. No próximo ano, a Fifth International Walt Whitman Week acontece na Polônia. Let us go. Ponto de interrogação.

 

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19/07/2011