)Livros(

Nice to meet you, JC Oates / Edgar Allan Poe; Emily Dickinson; Mark Twain; Henry James; Ernest Hemingway; Joyce Carol Oates;

Renato Alessandro dos Santos

Nunca havia lido nada de Joyce Carol Oates. É uma vergonha, eu sei, mas é preciso passar ao largo desse vexame e mencionar, com Ítalo Calvino sentado em cima de meu ombro esquerdo, e com um tapa-olho pirata, que nunca devemos nos envergonhar do que ainda não tivemos tempo de ler. É o que afirma meu papagaio pirata espiritual em "Por que ler os clássicos". Sim, sempre haverá tempo para ler o que na juventude ficou para trás. É um alento: não leu Dom Casmurro enquanto adolescia e já está com 30 anos? Não fique triste, não se zangue, como diz Roberto. Peça para Calvino dar o pé e repita com ele: “(...) por maiores que possam ser as leituras de formação de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que não leu”. E mais: “(...) ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude”. Puxa, com uma justificativa dessas, ninguém mais precisa sair pela esquerda como o Leão da Montanha, enquanto lamenta o livro que não leu.

Voltando a Carol Oates, meses atrás, pude finalmente ler Descanse em paz: histórias sobre os últimos dias de Poe, Dickinson, Twain, James e Hemingway. É um título que convida à leitura, você não acha? Havia descoberto esse livro numa livraria do aeroporto Viracopos em Campinas. Mas não o comprei na ocasião. Uma fortuna. Mais tarde, procuro-o nos sebos on-line e encontro-o pela metade do preço. É uma dádiva a época em que a gente vive, não é? O livro chegou, e eu em trânsito. Comecei a lê-lo no avião, numa viagem de Ribeirão Preto a Porto Alegre. Não pense que tenho dinheiro para ficar lendo livros em avião. O voo era a trabalho. Na mesma ocasião, mas na ida e na volta de ônibus entre Porto Alegre e Pelotas, pude terminar o livro. Show de livro. Desculpe: cada vez mais a palavra “show” tem se incorporado ao meu vocabulário, para desespero meu e das pessoas que, comigo, trocam palavras de afeto diariamente. Mas tenho conseguido evitar a palavra “bacana”, que já usei demais. Voltando ao livro, finalmente, saiba a leitora ou o leitor que no livro de Joyce Carol Oates estão linhas de uma ficção muito bem feita, criativa & bem amarrada. Em outras palavras, pouca gente irá se desapontar com o tempo gasto com a leitura de Descanse em paz, de J. C. Oates.

Trata-se de um livro de contos. A julgar pelo subtítulo, “histórias sobre os últimos dias de Poe, Dickinson, Twain, James e Hemingway”, os leitores poderiam considerar que o livro é de não ficção, com Oates garimpando o que houve no fim da vida dos autores. Mas não é nada disso — e daí vem a primeira boa notícia: ela, na verdade, apóia-se em dados biográficos para contar suas histórias, mas sem se esquecer do viés ficcional embutido em cada um dos autores. É um projeto tão bem feito que dá para imaginar aonde ela quis chegar: obedecendo à forma que cada um dos autores utilizavam para se expressar, obedecendo a dados biográficos nebulosamente atrelados a eles e, por último, obedecendo ao conteúdo ficcional de cada um, Oates quis unir tudo isso nos contos que escreveu e, ainda, em cima do bolo, como uma velinha a ser apagada, colocou cada um dos autores no centro dessas narrativas, mas de uma forma capaz de fazer vibrar de curiosidade os leitores.

Por exemplo 

Quando ela escreve sobre Dickinson, em “EDickinsonRepliLuxe”, o segundo conto do livro, ela o faz de uma maneira que ninguém pode duvidar que ali há ficção e, não, biografia. A história se passa não no século 19 em que Emily Dickinson viveu, mas num futuro com tecnologia suficiente para que “replicantes” possam ser comprados por gente como eu e você, pessoas que gostariam de ter em casa uma réplica de um poeta, de um artista, de uma jogadora de tênis, enfim, uma réplica de alguém que admiramos. O casal de vida insossa que pretende adquirir uma versão de Dickinson sabe que há outras opções no mercado, mas Emily Dickinson não cairia tão mal, não é mesmo? Daí que, quando chega a tão esperada versão da poeta, os leitores que conhecem um pouco de sua história e da vida reclusa que ela levou, vão se deliciar com a personalidade tumular, discreta e tímida da poeta, que sempre que pode tranca-se em seu quarto para escrever. Poesia. A história caminha de uma tal forma, levando-se em conta a falta de vida que o casal que a compra tem, que tudo pode não acabar bem para Emily. Mas não vamos estragar tudo, não é? O mesmo acontece em outros contos, embora “EDickinsonRepliLuxe” seja a única narrativa cuja história desenrola-se numa época distinta da vivida pelos autores-personagens homenageados pela autora. O que Joyce faz muito bem, como vimos, é resgatar dados biográficos dos autores e características do trabalho de cada um e, com isso, criar histórias dignas de grandes contadores de histórias, daqueles que nos fazem, terminada cada uma delas, procurar nos informar um pouco mais sobre os autores eleitos em Descanse em paz

Bem como nos contos mais vertiginosos e mórbidos de Edgar Allan Poe, em “Poe póstumo; ou, O Farol” nos encontramos com o próprio autor de “O corvo” anexado a um farol em Viña del Mar, no Chile, lugar onde Poe — imagina Oates — poderia ter estado nos misteriosos momentos derradeiros de sua vida. É ao pé desse farol que Poe leva uma vida a princípio repleta de pequenas alegrias, até o momento em que, sozinho e sempre sozinho, à exceção de um cão, sua cabeça começa a se deixar levar por pensamentos sombrios que, cada vez mais, (des)encaminham-no ao cadafalso. Um lembrete, leitora ou leitor: enquanto sua vida vai passando e você, em meio à loucura do dia a dia, continua inventando desculpas para a falta de leitura, antes de descer para sempre a sete palmos, por favor, ache um tempinho para ler esse conto. Se você gosta de Edgar Allan Poe, então, esse pedido vem reforçado. Ao quadrado. É que o final é tão louco, surpreendente e desvairado, como nos melhores contos de Poe, que você não pode deixar de ler o desenlace dessa história. Soletrando: im.pres.si:o.nan.te.

Este texto já foi longe demais por hoje, qu4tro de julho de 2011, não é? No conto sobre Poe, Oates-Poe lamenta: "É estranho como sobra pouco tempo para tais tarefas, quando o tempo parece se estender à nossa frente, vasto como o grande mar no qual poderíamos nos afogar." Saibam os leitores do futuro que, nessa data citada, cada vez mais se encontram menos leitores dispostos a ir até o fim dos textos. Os jornais estão reclamando. É tempo de se deliciar com a internet e tudo mais. Então, paciência. Em tempo: em “Vovô Clemens & Peixe-anjo, 1906”, os leitores descobrem que Mark Twain tinha lá seu lado Lewis Caroll de ser. Garotas peixes-anjo eram suas prediletas. Em “O Mestre no Hospital São Bartolomeu, 1914-1916”, descobrimos que Henry James tinha suas manias e perversões, dentre elas, lamber feridas purulentas de feridos da 1ª Guerra Mundial. Argh. E por último, como já citamos Dickinson, há “Papa em Ketchum, 1961”: o Papa em questão é Ernest Hemingway e, sobre ele, lemos muito a respeito do que pode ter passado pela cabeça dele, antes dela desaparecer em pedacinhos após o tiro com que Papa encerrou a fatura & a própria vida. 

Enfim, nice to meet you, Joyce Carol Oates. Seja sempre bem-vinda por aqui.

OATES, Joyce Carol. Descanse em paz: histórias sobre os últimos dias de Poe, Dickinson, Twain, James e Hemingway. Tradução de Elisa Nazarian. São Paulo: Leya, 2010.

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Ilustrações de Helton Souto

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook (perfil: Helton Souto).

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10/07/2011