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Sofridíssimo! /

Ricardo Dalla Vecchia

"[...] jetzt gleich will ich dir’s erzählen. Tu ich’s jetzt nicht, so geschäh es niemals. Denn, unter uns, seit ich angefangen habe zu schreiben, war ich schon dreimal im Begriffe, die Feder niderzulegen, mein Pferd satteln zu lassen und hinauszureiten". [...] é agora que eu quero contar a você tudo quanto acaba de acontecer. Se não contar agora, não contarei nunca mais. Porque, aqui entre nós, três vezes depois que comecei a escrever, estive a pique de descansar a pena, mandar arrear o cavalo e ir vê-la.

Goethe ensinou-nos a sofrer. Mais do que isso. Transformou o substantivo abstrato “sofrimento” num advérbio concreto de grau superlativo. Sofridíssimo! Assim quedam os leitores já nas primeiras páginas do seu Die Leiden des jungen Werther (Os sofrimentos do jovem Werther), que desencadeou o Werther-Effekt (efeito Werther), onda de suicídios ocorrida na Alemanha e em outros países europeus, cuja imagem cênica típica combinava nuances literalmente mortas de algum jovem desiludido à cor azul e amarela do traje de Werther. Interessante notar que não só o verbo alemão Leiden, como toda a sua família léxica guardam um quê desse pesar e má sorte de Werther, de modo que no português se oferecem ainda como possibilidades de tradução os verbos “suportar”, “resistir”, “aguentar”, “tolerar”, como se isso fosse, em sua forma flexionada, possível. Werther sofre – não suporta! Não podemos nos esquecer, entretanto, de que da mesma raiz de leiden provém um magnífico adjetivo, Leidenschaft, cuja língua de Camões e Manoel de Barros traduz, simples e arrebatadoramente, por paixão. É certamente por paixão que, no caminho retilíneo do trem que vai para Weimar, escrevo minha primeira contribuição ao Tertúlia. Trago comigo uma garrafa de vinho importada do supermercado, algumas roupas limpas, uma reserva em algum albergue da vida e, para tornar tudo isso difícil, um pequeno exemplar de capa dura vermelha da tal sofridíssima obra, cujas citações ilustram este texto. “Ich könnte das beste glücklichste Leben, wenn ich nicht ein Tor wäre.“ (Eu poderia levar a vida mais feliz se não fosse um insensato.)

Weimar é uma cidade do estado da Turingia, região central da Alemanha e, embora atualmente conte com cerca de 65 mil habitantes, foi uma das mais importantes cidades alemãs no período entreguerras, com sua república federal e parlamentar. Não é esse, entretanto, o acontecimento que a faz conhecida no mundo inteiro. Weimar é a cidade dos grandes poetas Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e Friedrich Schiller (1759-1805) e o berço de um dos principais movimentos artísticos, filosóficos e políticos dos últimos séculos – o romantismo. Sturm und Drang: mais do que ilegíveis palavras alemãs nos nossos velhos livros de história da literatura, são nas décadas de 60 a 80 do século 18 as palavras de ordem de uma civilização que reagia tempestuosa e impetuosamente à marcha iluminista da razão.

Até hoje as ruas de Weimar guardam um pouco daquele Zeitgeist (espírito do tempo). Ao centro um incorrigível teatro, com o qual concorrem as magníficas estátuas de Goethe e Schiller. Espalhados pela cidade descansam toda a sorte de cafés e Kneipe (bares) ansiosos por bom papo e alguns tragos. Nas esquinas resistem as livrarias e antiquários repletos de traças entretidas com os anos de aprendizado de Wilhelm Meister e com o desafortunado destino de Guilherme Tell. Doutor Fausto vendera a alma para o diabo. Será que ele ainda possui alguma reserva? O Diabo, não Fausto. Será que eu venderia a minha alma? Por quanto? E se o Diabo não pagar, reclamo com quem? Me pego a pensar esses e outros desvarios enquanto degusto uma tradicional cerveja Franken Bräu, combinada à promoção do dia “Bratwurst mit Kartoffelbrei und Kohlkopf” (linguiça com purê de batatas e repolho) por 4,90 €, minha indicação aos etílicos leitores de Tertúlia.

Miro ao redor. Por um acaso do destino deparo-me com três curiosos elementos. À frente vejo a casa de Goethe, cuja porta traz uma inscrição em latim cuja tradução não se encaixa neste texto; à direita, do outro lado da rua, uma frase do francês Jules Renard (1864-1910) transcrita em alemão em letras garrafais no alto de um antigo prédio: “Wenn Sie das Leben kennen, geben Sie mir doch bitte seine Anschrift” (Se o senhor conhece a vida, dê-me, por favor, seu endereço). Por fim, eis que surge a bailar entre as mesas um cachorro de médio porte, cujo pelo negro se faz notar até na mais escura solidão. Ele me fita, cessa o movimento do rabo e atravessa a rua deixando um mal-estar ao qual respondo com um alegre assovio: até breve, velho Mephisto!

Para que não passe em branco – muito menos em colorido – manifesto o mais meu profundo respeito às famílias que do campo de concentração de Buchenwald (15 km de Weimar), absurdamente mais do que eu nunca se esquecerão.

Naquele campo não havia flores. Foram-se. Todas. Persiste, entre-tanto(s), a memória de um povo enforcado pelo ódio.
“Es ist doch gewiss, dass in der Welt den Menschen nicht notwendig, macht als die Liebe.” [A coisa mais certa deste mundo é que somente o amor torna o homem necessário].

Ricardo Dalla Vecchia para o Tertúlia,
Weimar, primavera de 2011.

Ilustrações de Helton Souto

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Ricardo Dalla Vecchia é torcedor fiel do time do Parque São Jorge e doutorando em filosofia pelo IFCH-UNICAMP. Atualmente desenvolve estágio de pesquisa na Ernst-Moritz-Arndt Universität, Alemanha.

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduado em Ciências Sociais. Pesquisa em artes plásticas e assentamento rural. Estudou Bispo do Rosário. Participou de mostras coletivas e salões de arte. Foi arte-educador e ministrou curso de HQ, desenho e roteiro. Foi professor de História. Desde 2003, trabalha no Instituto Ayrton Senna na área de projetos de educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedraFlickrFacebook

 

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03/07/2011