)Literatura(

A Feira de livros, os diretores de cinema & a verdadeira história da bolinha de gude / 11a. Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto; Reinaldo Moraes; Chacal; Carlos Reichenbach; Guilher

Renato Alessandro dos Santos

A vida é uma peleja. Há dois anos, quando Tertúlia entrou no ar, fui à Feira do Livro de Ribeirão Preto praticamente todo dia. De Rafael Cortez a Milton Hatoum, Tertúlia pôde contar a seus leitores o que aconteceu durante o evento, mesmo que algumas semanas depois da Feira ter terminado. Nossa preguiça pessoal sempre vive a nos circular o pescoço, como um cachecol de lã, não é mesmo?

Ano passado, lá estava Tertúlia na Feira do Livro de Ribeirão novamente. Mais uma vez, mais autores passaram por aqui e foram entrevistados para o site: Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola Brandão e Carlos Heitor Cony, cujas palavras sobre Brito Broca, motivo da conversa, ainda repousam inéditas na HD do computador. Minutinhos, por favor.

Neste ano, sim, na 11ª edição da Feira do Livro, Tertúlia não poderia deixar de prestigiar o evento, afinal, a Feira estava lá. Mas a vida é uma peleja e, durante dez dias, só pude ir ao evento uma única vez. Desta vez, nada de preguiça ou Copa do Mundo de Futebol, o problema é a velha desculpa minha, sua, deles, nossa, enfim: falta de tempo. Como professor, com o semestre a morder pelos calcanhares, não é fácil conciliar docência e jornalismo decentemente. Então, o jeito é enfeixar a Feira do Livro na rotina do dia a dia e, como o sol, levantar cedo, pelejar, dormir exausto e, na manhã seguinte, com um sorriso de girassol, começar tudo de novo. Bom dia, flor do dia! Vai dizer que você não gosta da vida que tem? Tudo bem, eu concordo: segunda-feira, ninguém merece, mas é melhor estar por aqui, no primeiro dia útil da semana, do que ignorar esta manhã tão linda (e a luz dos olhos teus, Sementinha de Mostarda), enquanto a escuridão da eternidade vai se repetindo sem brilho, debaixo de sete palmos. Sim, estou conjugando o verbo tergiversar com você, quando o que realmente importa é saber sobre a Feira, mais precisamente sobre o nono dia, quando Tertúlia foi saber o que Reinaldo Moraes, Chacal, Carlos Reichenbach, Guilherme de Almeida Prado e Zé do Caixão tinham a dizer.

Sexta-feira, 10 de junho de 2011

Como era o primeiro dia de Tertúlia na Feira, receosos, Mauro & eu fomos buscar as credenciais para cobrir o evento. Achei que algo poderia dar errado, porque nenhum dos e-mails enviados à assessoria de imprensa da Feira retornou com qualquer sinal de que nossas credenciais estariam ali, afoitas para nos receber. Chegamos à praça XV de novembro e fomos verificar se nosso green card estava à disposição, e não deu outra; ali mesmo, Mauro, fotógrafo free lancer de Tertúlia, e professor também, aprendeu a usar a câmera fotográfica de última geração, caso estivéssemos em 1997, e fez suas primeiras fotos, de resultado promissor. Já eram 10 e ½ da manhã. Reinaldo Moraes começava seu bate-papo com o público.

Reinaldo Moraes

O autor de Pornopopéia, romance dos mais comemorados nos últimos anos por crítica e público, enquanto tentava acomodar uma Coca Cola zero em seu estômago, falou de boa parte de seus romances, especialmente de Tanto faz, hino junkie tapuia dos anos 80, A órbita dos caracóis, romance com um dos títulos mais bonitos da literatura brasileira, e de Pornopopéia, esse catatau de 400 e tantas páginas que caiu como um garoto de programa na vida dessa senhora balzaquiana que é a literatura brasileira. “Culto e grosso”, declarou Eliana Fonseca, numa das melhores definições do que representa hoje Pornopopéia. Quem pensa que por baixo do coloquialismo dinâmico da narrativa não há um grande romance brasileiro pulsando com vigor e inteligência não sabe o quanto está enganado. Alcir Pécora — que apenas por fazer seu trabalho com o rigor e a honestidade que a crítica literária merece e, por isso, vive com seu nome costurado na boca do sapo por alguns autores brasileiros com a espada de Dâmocles em punho — gostou de Pornopopéia e muito. A narrativa “possui duas virtudes decisivas para livro que adota persona de escritor junk para seu narrador”, escreveu Pécora na Folha de S. Paulo, “domínio perfeito do idioma, o que lhe franqueia a consistência de ‘estilo’ que o separa dos aspirantes fajutos a escritor, segundo o grão-guru desse tipo de literatura, Charles Bukowski” e “veia cômica, pois Pornopopéia, antes de tudo, é de matar de rir”.

Priapopéia

Pergunto a Reinaldo se Priapopéia seria um bom nome para seu romance; ele ri, satisfeito com a sugestão. Em seguida, comento que o artigo “Orgia picaresca”, de Alvaro Costa e Silva, na Folha de S. Paulo, deve ter ajudado e muito a aquecer a recepção de Pornopopéia e, novamente, Reinaldo concorda. Naquela altura do campeonato, dezembro de 2010, Costa e Silva argumentava que, um ano depois do lançamento do livro, os leitores já haviam tido tempo suficiente para lê-lo e, com isso, ter percebido a importância do romance para a literatura brasileira contemporânea. Segue a entrevista e, então, presenciamos um autor seguro de sua profissão, disposto a falar a respeito de seus livros, de sua amizade com Ana Cristina César, de seu encontro com Julio Cortázar na Paris dos anos 70, dos projetos que tem pela frente — como finalizar o livro para a coleção Amores expressos — e por último pergunto sobre a célebre foto que fez para a capa do LP de Tom Zé.

A Verdadeira História da Bolinha de Gude

Sorrateiramente, a imagem com uma bolinha de gude num ânus lembra o título do álbum de Tom Zé, Todos os olhos, um marco na carreira do músico, e a foto da capa foi Reinaldo quem fez, após sugestão de Décio Pignatari. Ele conta que foi com uma namorada a um motel e, lá, tentou fazer a foto, mas a bolinha de gude não queria saber de ficar imóvel; então, Reinaldo teve uma ideia. Olhou bem para a boca de sua garota e, como ela tinha “uma boca linda” e “lábios grossos”, acabou encontrando o olho que tanto procurava. Não deu outra. Todos os olhos, o disco, traz na capa a boca da ex-namorada de Reinaldo e, não, seu derrière. Eu, Mauro e Tinoco, que ciceroneava Reinaldo na Feira, ficamos estupefatos! Como assim?! Afinal, a história da capa do disco não é a de que aquela bolinha de gude estava em outro lugar? Reinaldo já havia confirmado essa mesma história a uma jornalista anos atrás, sem trocadilhos, mas imagino que muita gente talvez esteja franzindo o sobrolho exatamente agora, enquanto lê este texto. “Muitos ainda acreditam nessa história”, disse Reinaldo. “Até mesmo o pessoal do CQC, certa vez, mostrou a capa do disco na TV e disse que aquela bolinha de gude estava no orifício da moça”.


Horas após a conversa com Reinaldo, Mauro & eu, ainda estávamos surpresos com a Verdadeira História da Bolinha de Gude. E ainda estamos. Não é um furo de reportagem, porque chega em segunda mão, mas talvez seja novidade na sua vida. É?

Chacal

Ricardo de Carvalho Duarte, mais conhecido como Chacal, nunca fez “lixeratura”. Ele foi um dos poetas que, no início dos anos 70, fez circular seus versos em papel mimeografado, anexando seu nome à poesia marginal que seria saudada com admiração, revelando nomes como Cacaso, Torquato Neto e Waly Salomão. Chacal foi um dos poetas destacados, em 1975, por Heloísa Buarque de Helena em 26 poetas hoje, antológica antologia (desculpe) da poesia marginal brasileira, além de letrista com canções gravadas pela Blitz e autor de Aquela coisa toda, peça encenada por Asdrúbal trouxe o trombone, em 1980.

Leminski dizia que “lúdico” é a “chave” para a poesia de Chacal e, durante seu bate-papo com o público, pergunto se concorda com a definição do Cachorro Louco; no meio de sua resposta, o professor Arquilau M. Romão, 55, vem mostrar que todo poeta tem um pouco de loucura mesmo, quando interrompe Chacal para, repentinamente, declamar ao poeta e ao público poemas de Ricardo de Carvalho Duarte. O poeta marginal ficou lisonjeado. “Eu me perco na prosa; na poesia, eu me acho mais”, disse, retomando ludicamente sua resposta a respeito da chave para sua poesia.

Minutos depois, quando peço a Chacal para autografar as edições de Os cem melhores poemas brasileiros do século, seleção de Italo Moriconi (Objetiva), e de Os cem melhores poetas brasileiros do século, seleção de José Nêumanne Pinto (Geração Editorial), nas páginas em que seus poemas aparecem, ele mostra-se surpreso. “Saí da poesia marginal para a poesia magistral”, diz, sorrindo, enquanto leitores ao seu redor esperam sua vez para um autógrafo de um legítimo e eterno poeta marginal.

Os diretores de cinema

Eram quatro horas da tarde; hora de assistir à mesa de debates sobre o cinema nacional. A sessão prometia: José Mojica Marins, Carlos Reichenbach, Guilherme de Almeida Prado, Ricardo Rihan e Glauber Filho. Mojica é Zé do Caixão, e criador e criatura dispensam apresentações; Reichenbach é diretor do clássico Anjos do arrabalde (1986), além de filmes muito vistos, como Alma corsária (1993), Dois córregos (1999) e Falsa loura (2007), estrelado por Rosanne Mulholland, Cauã Reymond, Maurício Mattar e outros. Guilherme de Almeida Prado é diretor de A dama do Cine Shangai (1987), Perfume de gardênia (1992), A hora mágica (1998), Onde andará Dulce Veiga? (2007) e outros filmes que fazem a festa do cinéfilo brasileiro. Glauber Filho, além de filho do “homem” e diretor, é jornalista também, enquanto Ricardo Rihan é produtor de cinema.

Rihan e Reichenbach protagonizaram uma boa discussão a respeito do cinema brasileiro atual não ter na TV estatal seu mecenas. “Para mim, a questão mais incômoda, hoje, passa pelo crivo neoliberal de tirar do Estado a função de mecenas da cultura”, afirma Reichenbach, por e-mail. “Ora, o cinema francês, o alemão e vários outros da Europa só estão sobrevivendo graças às TV’s estatais”. É um prejuízo intelectual que causa ojeriza em Carlos, pois a TV comercial leva aos cinemas filmes que, na verdade, são uma extensão dela, como A mulher invisível (2009), por exemplo, e similares. “A TV Cultura foi o melhor sócio (e parceiro) que tive até hoje (ao co-produzir Dois córregos e Garotas do ABC)”, finaliza.

De uma forma ou de outra, pouca gente conseguiu fazer perguntar aos cineastas, o que causou um pouco de decepção no público e nos diretores. “Gostei do debate”, diz por e-mail Guilherme de Almeida Prado, “mas achei um pouco curto e senti que deixamos o público um pouco chateado por não terem oportunidade de fazer perguntas”.

E em 2012?

Era o fim da 11ª edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto para Tertúlia. Para 2012, Tertúlia gostaria de sugerir alguns nomes de autores, músicos, jornalistas e artistas: Carlos de Brito e Mello, Ariano Suassuna, Carol Bensimon, Ivan Cardoso, Rodrigo Garcia Lopes, Alcir Pécora, Nelson Pereira dos Santos, Cláudio Willer, Ferreira Gullar, Sérgio Rodrigues, Pipol, Luiz Alfredo Garcia Roza, Ruy Espinheira Filho, Luiz Carlos Merten, André Barcinski, Luiz Zanin Oricchio, Sérgio Augusto, Bernardo Carvalho, Paulo Henriques Britto, Lygia Fagundes Telles, Joca Reiners Terron, Vanessa Barbara, Ivana Arruda Leite, Angélica Freitas, Sérgio Sant’anna, Ronaldo Correia de Brito, Mutantes, Tom Zé, Garotas Suecas e, por último, a cereja em cima do bolo, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) apresentando La bohème a todos que perderam as poucas apresentações da ópera de Puccini neste ano. Seria a Feira do Livro dos sonhos para Tertúlia.

E a você, leitora ou leitor de Tertúlia, quem deve vir à Feira de Ribeirão em 2012?

 

  • 206_todos_os_olhos.play

  • 206_12_quando_men_vo.play

07/06/2011