)Cinema(

Filmes para crianças? / Bolt - supercão; Casa monstro; Para ler o Pato Donald; Branca de Neve e os sete anões; Rio

Renato Alessandro dos Santos

Acontece há algumas décadas: os filmes infantis que vemos com nossos filhos não são feitos apenas para eles. São para adultos também. Já não é de hoje que essa fórmula se perpetua — ou você acha que é possível dizer que O mágico de Oz ou Branca de Neve e os sete anões são filmes só para crianças? Não mesmo, não é? Desde Mickey e Pato Donald já não é mais assim (anotações para mim mesmo: ler Para ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Matterlat). O que nos leva a Bolt — supercão, filme de 2008, feito para crianças dos 5 aos 85, ou a qualquer outra animação feita com computação gráfica.

Bolt — supercão também não é um filme só para crianças; algo que os roteiristas fizeram questão de lembrar, quando, na história, uma executiva pergunta a um diretor se ele tem noção de que, com um enredo simples, o público dos 18 aos 35 não vai se interessar pela história. Não sei se as coisas deveriam ser assim, mas sempre é um prazer ir ao cinema com o filho assistir a filmes como Bolt — supercão, Monstros e alienígenas, Carros, Shrek, Procurando NemoIrmão urso, Casa monstro, Toy story, Rio e outro$. Para uma geração que tem a oferta de brinquedos que nenhuma geração anterior teve — dos brinquedos eletrônicos à internet, de carrinhos motorizados a celulares customizados com o desenho favorito — a indústria do cinema tem de se mexer e, desse caldeirão, pululam efeitos especiais, tecnologia de ponta, publicidade em redes de hambúrgueres e tudo mais que possa atrair esses pequenos consumidores em potencial às salas de cinema e, mais tarde, à sala da própria casa, onde, esparramados pelo chão, amontoam-se brinquedos licenciados do McDonald's, franquia que, veja você, nos leva de volta a esses mesmos filmes. Nenhum homem é uma ilha, e a humanidade, a propaganda & o marketing sabem disso.

Por mais que não nos importemos em cultivar produtos como esses, nada disso adiantaria se o principal elemento disso tudo não estivesse em jogo e não funcionasse: a história. E se há algo que os roteiristas dos desenhos infantis atuais sabem fazer é contar uma história. Adultos, ficamos bestas diante da TV com tantas peripécias; crianças, elas deixam-se levar pelo toque lúdico que movimenta cada ação e reviravolta no enredo. E o que há em comum no enredo da maior parte desses filmes? Simples: sempre que um herói se vê obrigado a mostrar com quantos paus se faz uma canoa ou, em outras palavras, sempre que ele tem de mostrar sua grandeza, provando a si mesmo do que é capaz, o herói vê-se embarcando em uma grande jornada, uma viagem que, no fundo, o remete ao interior, sim, dele mesmo. É a viagem, portanto, que está no centro gravitacional de cada nove entre 10 animações dos grandes estúdios.

Quando O hobbit, de Tolkien, vier a ser produzido para os cinemas nos próximos anos, como Shrek, uma franquia admirável por sinal, este texto encontrará enfim seu filme ideal, porque O hobbit, com sua narrativa repleta de anões e de outros seres da Terra Média é a mais pura afirmação de como a viagem pode dobrar um sujeito sobre si mesmo, a ponto de fazê-lo perceber o quanto uma jornada pode modificá-lo, tornando-o alguém mais nobre de espírito. A viagem sempre foi capaz de provar esse tipo de coisa.
 

  • 205_02_go_speed_racer_go_from_speed_racer.play

29/05/2011