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O império da morte / Catacumbas de Paris; 14º Arrondissement

André Carretoni

“Há algo de podre no reino da Dinamarca.” (Hamlet – William Shakespeare)

Não estou na Dinamarca, mas algo de podre levou o Conselho de Estado francês, em 1785, a trasladar os restos mortais de todas as pessoas que haviam sido enterradas em Paris para os túneis abandonados das pedreiras parisienses, que ficavam no décimo quarto arrondissement. Foram criadas, assim, as Catacumbas de Paris. Não é um passeio que agrade a todos, mas não nos esqueçamos de que é para junto deles que todos iremos.

Dizem os anais que, na altura, cada igreja possuía seu próprio cemitério e que a população de Paris estava adoecendo devido à contaminação provocada por um contato excessivo com matéria orgânica em decomposição.

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Com mais de seis milhões de criaturas desencarnadas, mais de cinco quilômetros de extensão, essa necrópole de Paris é um dos lugares mais visitados da França. Passou a ser ponto turístico em 1867 e um dos destinos mais procurados por jovens que gostam de beber em lugares estranhos.

Por sinal, conheço outras duas catacumbas: a de Évora (Portugal) e a de Messina (Sicília, na Itália); essa última é a mais curiosa entre as três, pois seus habitantes repousam vestidos como se tivessem sido depositados prontos para acordar.

NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS

Fêmur, tíbia, crânio... Faz frio, estamos a vinte metros de profundidade e não há muita luz. Olhos vazios nos encaram, dedos magros apontam. Pense em uma cor viva e você não a verá. Tudo é escuro, silencioso, úmido. Minha mulher toca-me o ombro. Trocamos um beijo e rimos de um grafite que fora feito na testa de um crânio: um coração e duas iniciais. Um casal apaixonado do século passado.

No final do passeio, vários pensamentos retornam à mente: estou com fome, qual condução devo pegar, o trabalho que tenho de terminar segunda-feira.

Como pode um peixe vivo viver fora da água fria?

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.

 

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22/05/2011