)Futebol(

Em branco e preto, no século 21, quem dá bola é o Santos / Santos Futebol Clube é campeão paulista de 2011

Renato Alessandro dos Santos

"A minha musa é o prazo", já disse Luis Fernando Verissimo. Muitos textos de Tertúlia nascem aos domingos, dia em que geralmente o sítio recebe novo texto. As mal traçadas linhas poderiam nascer antes? Eu sei, eu sei, mas minha preguiça não deixa não. Então, hoje, domingo, ao ½ dia, quando abandonei o que escrevia sobre Joyce Carol Oates — e os contos de Descanse em paz: histórias sobre os últimos dias de Poe, Dickinson, Twain, James e Hemingway — foi porque, ao abrir o portão, lá fora, estavam meu pai e minha mãe chegando de Araraquara, de surpresa. Celebramos o momento. Abracei meu pai, em mais um de nossos típicos abraços de quebrar os ossos, e minha mãe, da mesma forma — Théo tem horror a meu abraço de urso, porque faço questão de espremê-lo como se fosse uma espinha. Meus pais vieram nos fazer companhia por causa da final do campeonato paulista entre Santos e Corinthians.

Em 2007, eu & meu pai trouxemos sorte ao Santos, e a final com o São Caetano foi comemorada aos pulos; em 2009, não vimos o jogo juntos, e deu no que deu: o Santos perdeu para o Corinthians, com aquele gol de placa de mestre Ronaldo que, por cobertura, deixou Fábio Costa a ver todos os navios que, do porto, partiam para nunca mais voltar. Em 2010, novamente, cá estava meu pai em Batatais torcendo comigo e, ao final da partida, estávamos pulando de euforia e alegria, comemorando a “derrota” para o Santo André e mais um título paulista; é que, em 2010, o Santos jogou tanta bola no primeiro semestre (lembra?) que, na final do campeonato, podia perder o jogo e, mesmo assim, ser campeão. Por isso que, hoje, ao abrir o portão e — surpresa — ver meu pai & mãe ali, vindo ver Silvia, Théo, Marley e eu, bem, nessa hora, sabia que as chances de o Santos Futebol Clube ser campeão, ou melhor, bicampeão, eram enormes.

Macumba

Há uma certa justiça no futebol. Há duas semanas, o Palmeiras não merecia ter perdido para o Corinthians. Perdeu. Hoje, o Santos não merecia perder para o Corinthians e, depois de conferir algumas encruzilhadas, deixando por lá umas velinhas acesas e umas garrafas de aguardente, deu no que deu, ou seja, não perdeu. Ainda bem. Mas, cá comigo, sei que a vitória chegou não por causa da macumba, mas porque, ao abrir o portão, meu pai estava ali.

Terceira estrela

Juca Kfouri, nessas últimas semanas, em sua coluna na Folha de S. Paulo, reclamava que o Santos deveria abrir mão do Campeonato Paulista e concentrar-se somente na Libertadores. E qual é o time de Juca Kfouri? Hê, hê. Ainda bem que os jogadores do Santos não deram atenção ao jornalista corintiano, porque, como o presidente santista Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro declarou, é preciso ganhar até disputa de par ou ímpar. Fico pensando se, caso o time do Juca estivesse na mesma situação, ele recomendaria “esquecer” o Paulista, uma vez que a Libertadores é mais importante. Sem dúvida, ela é mesmo, mas por que não comer a maçã se ela está ali? Sim, tudo pode mudar, claro — menos aquele cretino do Bolsonaro, que acha que vai para o céu falando as besteiras que apregoa em sua cartilha homofóbica —, e, caso o Santos perca para o Once Caldas, da Colômbia, quarta-feira, Juca poderá comemorar sua bola de cristal pessoal, afirmando "Meninos, eu vi!", e, então, o time deixará de ser tão confiante como hoje, quando derrotou o Corinthians na Vila Belmiro sobrando em campo. Tomara que Juca esteja errado e, em campo, o Santos vença e avance na Libertadores, rumo a uma terceira estrela que, desejada, até agora fica sempre como o título do livro de Antonio Bivar (Longe daqui aqui mesmo) ou do filme de Wim Wenders (Tão longe tão perto).  

Hoje, com a vitória do Santos por 2 a 1, o torcedor santista está feliz da vida, ao mesmo tempo em que está ciente da efemeridade dos times de futebol brasileiro, quando perdem jogadores fundamentais, como poderá acontecer com o Santos. Mas a hora agora é de comemorar, como a frase de Milton Leite, em sua narração no Sportv, que dá título a este texto e ao Santos: “Em branco e preto, no século 21, quem dá bola é o Santos.” Prefiro a bola de cristal de Milton a de Juca. Santos sempre Santos.


 

  • 203_hino_do_santos_futebol_clube_sp.play

15/05/2011