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Filosofia e literatura para o dia a dia / Seu rosto amanhã: febre e lança

Luiz Guilherme H. Fernandes

A cada dia, acredito que há um montão de coisas boas querendo acontecer, só esperando a oportunidade. Vejam vocês! Bastou uma aula da recém-iniciada faculdade de filosofia, a indicação de leitura feita por um professor fora de série e... pronto: já sou apaixonado por literatura e encantado por Seu rosto amanhã, do espanhol Javier Marías.

Interpretando pessoas

A obra é dividida em três volumes, que têm subtítulos próprios: “Febre e lança”, “Dança e sonho”, “Veneno, sombra e adeus”. Seu rosto amanhã foi muito bem recebido na Europa, onde Marías é aclamado como um dos melhores escritores da atualidade. Escrevo aqui sobre o primeiro volume, que recentemente li, grifei, fiz anotações e que, mais importante, venho ruminando quietinho desde então. O protagonista da história é Jacques Deza, espanhol que, por um tempo, foi professor em Oxford, Inglaterra. Tentando assimilar o término de seu casamento e recomeçar de algum modo a vida, ele retorna para Londres e, lá, inicia uma nova e nada convencional atividade profissional: interpretar pessoas. Indicado por seu amigo Peter Wheeler, e chefiado pelo misterioso Bertam Tupra, Deza descobre um trabalho em que ganha para “ouvir, prestar atenção, interpretar e contar”. O que ele praticou durante toda a vida, agora, coloca a serviço de uma misteriosa agência de inteligência.

Javier Marías produziu uma narrativa que, sem muito suspense, corria grande risco de ser entediante. O que serviria para amenizar esse quadro preocupante poderia ser uma sequência alucinada de acontecimentos extraordinários, mas que não acontecem aqui. Misture esses ingredientes todos com o fato de que o romance tem três volumes, e quase mil páginas no total, e teremos um leitor de nariz torcido, não é mesmo?

Não, porque, ao contrário, Seu rosto amanhã é denso, repleto de altas divagações e de idas e vindas, fisgando o leitor logo que ele começa a mergulhar cada vez mais nas páginas profundas do romance.

É que aí entra o brilhantismo de Javier Marías, que trabalha suas ideias de maneira única, conseguindo retomar oportunamente o que foi mencionado antes e, com isso, construindo um romance em que o leitor é envolvido em reflexões já discutidas anteriormente na trama, mas que adquirem novos sentidos conforme a narrativa avança.

Sangue, filosofia & esquecimento

O enredo não é muito complexo e por isso funciona como pano de fundo perfeito para as digressões de Deza. Por exemplo, o simples esforço para limpar uma gota de sangue encontrada no chão transforma-se em páginas e páginas de reflexões sobre o esquecimento, para que cheguemos — com o protagonista — a refletir: “vai ver que não suportamos as certezas, nem mesmo as que nos convêm e nos reconfortam, nem falemos nas que nos desagradam ou nos questionam ou machucam, ninguém quer se transformar nisso, em sua própria dor e sua lança e sua febre”. Depois dessa ‘pancada’, precisei fazer uma pausa, tomar um café, recobrar o fôlego e, claro, mergulhar novamente na leitura!

Acima de tudo, o romance Seu rosto amanhã fala de contar, calar e dissimular. Somos imersos em uma reflexão intensa a respeito dos enganos que optamos por aceitar em nossa vida, ao lado de verdades que nos recusamos a enxergar. Tem muito de metafísica no que é discutido, mas o que brota mesmo de suas páginas é uma filosofia do cotidiano, que pensa o relacionamento amoroso, o caráter, a rotina. Em outras palavras, é um romance que se propõe teorizar com base em experiências triviais e, nisso, reside seu grande mérito.

Se você costuma pensar até que ponto nossas intenções são puras ou como nossos olhares nos deixam expostos, Seu rosto amanhã será mais que uma boa leitura; será como um espelho.

E se no início deste texto eu escrevi que estava ruminando, bem ao estilo de Rolando Boldrin com sua música “Vide, Vida Marvada” [ouça, clicando no ícone abaixo], não exagero nada se mencionar agora que Seu rosto amanhã tem sido um remédio para meus desenganos. Só que um remédio especial porque, ao invés de disfarçar a dor das lanças e febres da existência humana, mostra que a cura está dentro de nós mesmos.

A propósito, como daqui em diante quero mesmo é dar chance para que coisas boas aconteçam, já estou lendo o segundo volume. Quando vier a ler este romance, leitora ou leitora, pode ter certeza de que fará o mesmo.

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Luiz Guilherme H. Fernandes é formado em direito, época em que navegava por águas tranquilas, vislumbrando um futuro brilhante. Mas largou tudo e, hoje, batalha por um futuro que seja dele mesmo. Cursa filosofia e é cada vez mais apaixonado por literatura e fotografia. Sua meta, agora, é descobrir de vez a terceira margem do rio. 

  • 201_rolando_boldrin_-_vide_vida_marvada.play

01/05/2011