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Got coffee? /

Beto Canales

Cruzei os braços - daquele jeito que os gênios das lâmpadas fazem, erguidos, bem acima da barriga, na altura do peito - e fechei a cara. As sobrancelhas caíram perpendicularmente em direção ao nariz, quase fechando meus olhos. Os lábios cresceram, principalmente o inferior, ficando quase do mesmo tamanho do que o da Angelina Jolie e, então, falei de maneira precisa, em alto e bom som:

- Grunfth!

Existe resposta melhor para injustiça? E não foi só isso. Disse e fiquei imóvel, com a mesmíssima expressão que nós, os injustiçados, fazemos quando atacados impiedosamente. Enquanto eu estava ali no meu solitário protesto contra as mazelas da vida, aproveitei para, além de recordar o que desencadeou minha heroica atitude, pensar no quanto é bom sorvete de creme, sem adição de açúcar, em uma cremeira de inox, com uma banana prata cortada em diagonal, sem as duas pontinhas, colocada abaixo das três bolas de sorvete, sem que fiquem aparecendo até a primeira colherada. É simplesmente fantástico. Mas, enfim, aos fatos: disseram que eu tenho muitas manias. Assim, na cara, sem rodeios. Eu, logo eu, que sou praticamente um resumo vivo da simplicidade humana, um estandarte da praticidade e do comum. Logo eu que vivo bem com tão pouco, sem detalhes, sem extras, sem mimos. Sou quase um ermitão vivendo na cidade grande.

Poderia agir de outra maneira? Claro que não. Na hora pensei em responder, lembrar a maneira despojada do meu dia a dia, da forma desprendida que enfrento meu cotidiano, mas engoli as palavras. Não comentei, por exemplo, que para dormir uso apenas cinco travesseiros, o Grandão, o Queridin... , enfim, não é preciso citar os nomes deles, ou que sento feliz da vida em uma poltrona que não seja a minha, desde que esteja fora de casa. Não. Nada disso. Fiquei estático em meu protesto.

A injustiça certamente é o maior mal que assola o homem civilizado. Fazerem uma acusação dessas para um homem como eu, equivale chamar um príncipe de sapo só porque ele tem uma verruga na bochecha.

Minha valente manifestação seguiu por mais tempo. Continuei parado por quase quarenta minutos, até que ouvi uma frase mágica:

- Quer café?

As sobrancelhas voltaram ao normal, os lábios ficaram como sempre foram, iguais ao de um jundiá, e os braços descruzaram-se em busca da minha xícara de porcelana com detalhes florais, a única correta para se tomar um bom café.

Não pensem, porém, que abandonei meus ideais. Longe disso. Vou combater a injustiça com todas as minhas forças e a qualquer custo, exceto, claro, na hora do lanche. Se ocorrerem outras agressões e calúnias, protestarei novamente. E vou erguer ainda mais os braços e vergar ainda mais as sobrancelhas. E aí, preparem-se, pois só um chá verde, na minha xícara de beber chá verde, para eu abandonar a manifestação.

E olhe lá.

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Beto Canales produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009.

 

25/04/2011