)Livros(

Amigos para sempre / síndrome de Down, O filho eterno, Cristovão Tezza

Renato Alessandro dos Santos

O romance brasileiro mais premiado de 2008 foi O filho eterno, de Cristovão Tezza. É a história de um homem que se envergonha de ser pai de uma criança com síndrome de Down e que, por isso, peleja para superar conflito de tamanha natureza.

No romance, o autor optou pela narrativa onisciente, isto é, por um narrador heterodiegético (narrador-observador) que, na terceira pessoa, conta tudo o que ocorre na vida do personagem pai. A favor de O filho eterno, essa escolha fez toda a diferença, pois, mais do que mesclar biografia e ficção, ele conseguiu encontrar a voz que precisava para o narrador-pai — e não é segredo para ninguém a importância que o narrador tem em literatura.

Pausa.

De O filho eterno para Dom Casmurro

Machado, por exemplo; ao limitar o que Bentinho pode ver com seus próprios olhos, o Bruxo do Cosme Velho optou por um narrador homodiegético (narrador em primeira pessoa ou narrador-personagem) que não tem como saber o que Capitu está “aprontando” fora do alcance de seus olhos. A favor de Dom Casmurro, essa escolha fez toda a diferença também, pois é ela que possibilita a ambiguidade sorrateira que há no romance. Imagine: se Machado tivesse optado pela narrativa onisciente, o leitor saberia tudo que Capitu estaria fazendo, revelando o adultério ou, de uma vez por todas, mostrando que a moça é realmente inocente. E o que isso teria de ruim? Oras, estragaria a festa, pois adeus ambiguidade — e ambiguidade, cabe lembrar, é moeda de alta cotação em literatura. É por isso que nunca será possível saber se Capitu traiu Bentinho. Nunca. Embora tudo esteja lá, em Dom Casmurro, ao menos, tudo o que ele, o narrador Bentinho, revela ao leitor e diz ser o que sabe da história. Sem contar também que a compreensão do que lemos muda como a vasta cabeleira da juventude, que, com o passar dos anos, escasseia ou torna-se grisalha, como o corpo. Por isso que, na adolescência, julgamos Capitu dissimulada e, mais tarde, adultos, nós a reencontramos vítima da sisudez psicótica de Bentinho.

De Dom Casmurro para O filho eterno

Já o narrador de O filho eterno deu mais liberdade para o escritor trabalhar: descoberta a voz do romance, foi preciso levantar a barra da calça para atravessar o inferno. De um lado a outro. Difícil, para o leitor, suportar certas passagens em que acompanha um pai envergonhado ou inconformado com a ideia de que tem um filho “com defeito”:

Tira fotografias da criança com sua Olympus OM-1, o seu orgulho. Procura bons ângulos, aqueles em que o filho não ficará com o rosto que tem, de trissômico, mas que pareça outra pessoa, normal como todas as crianças do mundo. Com todo mundo é assim, não? Ninguém quer sair na fotografia de boca aberta, com a língua de fora (exceto Einstein, ele lembra, e sorri da ironia), o olhar parado, a baba no queixo. O olhar. Principalmente o olhar. Por que com o meu filho seria diferente?

Não por acaso, o pai não tem nome, e não nomear é uma estratégia recorrente em literatura, especialmente quando um autor quer mostrar que o personagem é pouco merecedor de ser nomeado. Sabemos que há um abismo intransponível entre vida e literatura, e, no fundo, O filho eterno só vem acentuar essa diferença. Tezza, espreitando a alta literatura, também buscou na ambiguidade um recurso literário precioso ao seu romance: afinal, que pai é esse que não merece nem ter um nome? Uma vez que o autor também tem um filho portador de síndrome de Down, e como o personagem pai não tem nome na história, cabe a pergunta: esse pai poderia ser Cristovão? Antes de responder, porém, ninguém pode esquecer-se de que perguntas como essa não fazem sentido, além de ser um atentado à literatura. Por quê? Regra número um: narrador é narrador; autor é autor.

Sem dúvida, é importante saber a diferença que há entre narrador e autor, e no caso de O filho eterno mais ainda, pois o leitor, motivado pela relação biográfica, pode fazer as contas e, equivocadamente, julgar Cristovão um monstro. Mas, em vez disso, o escritor foi ousado e corajoso, alçando voo maior, especialmente, ao revelar a fraqueza e a dificuldade desse pai para aceitar a condição de seu filho eterno. Mais do que exorcizar demônios, portanto, a escrita de O filho eterno é um exercício de alta carpintaria literária. Está tudo ali: os becos sem saída entre biografia e ficção; o escritor que tudo maneja com sobriedade; o narrador-pai sem nome, dilacerado pelas circunstâncias que o fazem sucumbir.

Entrevista

Em 2009, numa tarde em que muita gente deixou de ir à 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto para ficar em casa e ver o Brasil jogar bola, Cristovão Tezza falou ao Tertúlia, minutos antes de se apresentar à plateia que deixou a seleção de futebol de lado, justamente, para ouvir o que o escritor tinha a dizer.

<>_<>

TERTÚLIA - Como no romance O filho eterno, o senhor também tem um filho com síndrome de Down. Pensando na distinção entre narrador e autor, certamente, já imaginou que muitos leitores podem tê-lo confundido com o pai do garoto do romance. Se for assim, decerto, muitas pessoas já se aproximaram do senhor, querendo saber exatamente até que ponto aquilo ali tudo é realidade ou literatura. Eu queria saber como o senhor lida com essa questão. Porque imagino que a intenção do senhor foi retratar esse personagem, da forma como o fez, para que ele causasse desconforto no leitor. Muita gente o vê como o pai do garoto do romance, ignorando essa regra número um da literatura?

CRISTOVÃO TEZZA — É. Tem o fato brutal de que eu tenho um filho com síndrome de Down. Então, obviamente, se há um livro com uma história de um pai com um filho com síndrome de Down, uma pergunta que não quer calar é: é biografia ou é ficção? E é um livro biográfico, baseado em biografia, mas a linguagem dele, da primeira a última linha, é ficcional. É um livro em que uso material biográfico para fins romanescos. Não é uma biografia. Eu não tenho ali aquele pressuposto de verdade, que é o elemento fundamental da biografia.

TERTÚLIA — Muitos leitores conhecem-no apenas por causa de O filho eterno. E seus primeiros romances são diferentes, como Ensaio da paixão, com aquele espírito comunitário e hippie dos anos 70 e início dos 80, que foi quando o livro foi publicado. Como o senhor avalia este salto: sair de romances de temática mais marginal e alcançar o reconhecimento literário de crítica e público, com O filho eterno?

CRISTOVÃO TEZZA — Eu fui vivendo cada fase da minha vida, e minha literatura foi me acompanhando. Ensaio da paixão é um romance da minha juventude. É um livro que já é, digamos, da minha idade adulta quando o escrevi; mas ele trata de uma fase dos anos 70 no Brasil, da experiência comunitária de teatro e tal. Foi um momento da minha vida; O filho eterno é outro.

TERTÚLIA — Há uma passagem que, se não me engano, é de O filho eterno, em que o narrador diz que a gente deveria conversar por escrito. É uma ideia absurda e, ao mesmo tempo, para muita gente, fantástica. É difícil para o senhor lidar com o assédio dos leitores como, por exemplo, em lugares como esta feira literária de Ribeirão Preto?

CRISTOVÃO TEZZA — Olha, é o preço que estou pagando pelo fato de escrever. Quando você escreve, você se expõe ao mundo, está conversando, dialogando. Então, eu não posso reclamar e, por temperamento, eu gosto de conversar com as pessoas. Tá bom?
 

16/04/2011