)Entrevistas(

Um dedo de prosa com Daniel Galera /

Renato Alessandro dos Santos

Daniel Galera publicou seus dois primeiros livros, Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), pela Livros do Mal, editora que ele e Daniel Pelizzari criaram em 2001. O terceiro livro, o romance Mãos de cavalo, saiu pela Companhia das Letras em 2006. Crítica e público miraram os olhos para o trabalho do autor e, desde então, ele vem escrevendo cada vez mais. A Companhia das Letras reeditou Até o dia em que o cão morreu em 2007. Em seguida, Daniel publicou Cordilheira (2008) e, recentemente, Cachalote (2010), graphic novel feita a quatro mãos — as outras duas são de Rafael Coutinho, filho do cartunista Laerte.

Em uma ensolarada manhã de quarta-feira, 16 de junho, o autor esteve em Batatais. Enquanto ele lia um de seus contos inéditos para um grupo de adolescentes reunido na pequena, charmosa e aconchegante biblioteca municipal de Batatais (SP), que antigamente era a estação de trem local, um trator passou calmamente pela rua, encobrindo sua voz por alguns instantes. Daniel Galera veio à cidade por iniciativa do projeto Viagem Literária, da Secretaria de Cultura de São Paulo. Terminado o descontraído bate-papo com os estudantes, o escritor conversou com Tertúlia.

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Oficinas Literárias

TERTÚLIA — O romance Até o dia em que o cão morreu surgiu como resultado da oficina literária do professor Luiz Antônio de Assis Brasil de que você participou?

DANIEL GALERA — Não. À época em que eu fiz a oficina, estava escrevendo contos. Alguns deles estão em Dentes guardados. Os textos que foram resultado direto da oficina estão numa antologia, porque toda oficina termina com uma antologia de contos, e eu tenho quatro contos lá. Dois deles até entraram em Dentes guardados. Até o dia em que o cão morreu eu escrevi em 2002; a oficina eu fiz em 99-2000.

TERTÚLIA — E você acha que oficinas literárias realmente contribuem com o trabalho do escritor, no uso da técnica, por exemplo?

DANIEL GALERA — Eu acho que uma boa oficina literária dá atalhos. São coisas que um autor poderia descobrir sozinho, lendo teoria literária etc.; só que talvez ele leve anos para se dar conta de algo que um professor possa mostrar. É uma base de técnicas que, depois, o autor vai poder seguir, ou negar, ou subverter, enfim. Mas é um aparato inicial que ajuda muito o autor iniciante. A boa oficina, no caso. A oficina do Assis Brasil eu achei boa nesse sentido. Porque também não é uma oficina que molda os textos dos alunos. Ele dá um conjunto de técnicas úteis, que o aluno vai usar ou não. Não é uma oficina que impõe um estilo e tal. Tanto é que vários autores gaúchos que estão publicando e que passaram pela oficina têm estilos muito diferentes. Eu e o Michel [Laub] até que não temos estilos tão diferentes. Mas há Carol Bensimon, Daniel Pelizari, que tem um estilo completamente diferente do meu, Cíntia Moscovich...

TERTÚLIA — Você utiliza essas técnicas até hoje em sua ficção?

DANIEL GALERA — Ah, eventualmente sim. São coisas que eu meio que introjetei ao longo desses anos.

Livros do Mal

TERTÚLIA — Quando você lançou a Livros do Mal?

DANIEL GALERA — Foi em 2001, quando lancei meu primeiro livro. Os dois primeiros livros foram o meu, Dentes guardados, e Ovelhas que voam se perdem no céu, do [Daniel] Pelizzari.

TERTÚLIA — Vocês optaram pelo fim da editora, quando você viu que, no seu caso, deveria dedicar-se mais à escrita?

DANIEL GALERA — Sim, a editora começou a dar certo demais, digamos. Foi um fim por um bom motivo. A gente fazia um trabalho meio fundo de quintal. Eu fazia os livros no meu computador; a gente os distribuía na mochila; mandava para as livrarias pelo correio. Não havia controle algum. Era um caos. E aí começou a ter muita demanda: as pessoas querendo comprar os livros e nós não o tínhamos mais em estoque. A gente não conseguia mais arcar com a distribuição, porque se tornou uma coisa muito grande. Então, nós percebemos: registramos uma empresa e nos tornamos editores, e vamos tentar fazer disso um negócio ou vamos parar por aqui? Porque temos de escrever; temos de traduzir. Percebemos que fazer as duas coisas ia ser muito difícil. Na época, para nós dois, a prioridade era o trabalho como autor e tradutor. Então, as atividades da editora foram encerradas.

Mailzine Cardosonline

TERTÚLIA — Como é a história do mailzine Cardosonline?

DANIEL GALERA — O Cardosonline foi uma invenção minha e de um colega da faculdade em 1998. Ele ficava mandando e-mails para os amigos, com comentários sobre filmes, com uns poemas que ele escrevia, umas piadas, umas coisas assim. E, na época, eu estava lendo alguns sites que tinham uns cronistas dos EUA que escreviam sobre música, cinema, mas inserindo um componente muito grande de vida pessoal nos textos, que a gente chamava naquela época de egotrip. E eu percebi: pô, por que a gente não faz uma revista nesses moldes, só que, em vez de ser uma página na internet, seria só por e-mail? Era só assinar e pedir o e-mail que a gente mandava. E foi assim [que surgiu o Cardosonline], sem muita pretensão, dentro de um contexto de faculdade. Mas em poucos meses a gente estava com centenas e, depois, milhares de assinantes fixos, e virou um pequeno fenômeno na internet brasileira. Tinha leitores do país inteiro. A gente viajou por causa do fanzine. Fazia festas mensais em Porto Alegre, que foram algumas das melhores daquela época e eram super concorridas. As filas davam volta no quarteirão. Foi uma época bem-divertida e foi, acima de tudo, o primeiro espaço que eu e outros autores tivemos para divulgar nossos contos no início. Porque tinha um público ali, na melhor época, de cinco mil assinantes. Quer dizer, cinco mil pessoas recebendo aquilo em casa e lendo. Porque tinham pedido para receber. Então, eram cinco mil pessoas só ali no Cardosonline por semana. Assim, consegui formar um pequeno público leitor antes de meu primeiro livro, principalmente, por causa do Cardosonline.

Obra do autor

TERTÚLIA — Falando um pouco de cada um de seus livros, você julga que os contos de Dentes guardados estão todos no mesmo nível? Se fosse hoje você tiraria algum conto dali?

DANIEL GALERA — Ah, tem alguns péssimos, outros mais ou menos. Hoje em dia, com outra perspectiva, eu já tenho outra opinião. Agora, na média, eu gosto sim. Tem pelo menos meia dúzia de que gosto muito. O conto que abre o livro, que se chama “Amor Perfeito”, tem uma página só e eu o acho uma das melhores coisas que eu escrevi até hoje. Enquanto há outros ali que eu optaria por esconder se eu pudesse. Mas também não tenho nenhuma posição, assim, “Ah, não gosto mais” e me constranjo e vou tirar de circulação. Não vejo por que fazer isso. Eu acho que o leitor também entende que aquele livro tem o contexto de um momento inicial. E os contos bons que estão ali ainda justificam a leitura do livro. Por isso eu o deixo no meu site [ranchocarne.org] para download gratuito.

TERTÚLIA — Como professor de literatura, fico imaginando como seria curioso encontrar um romance como Até o dia em que o cão morreu numa lista de vestibular ou mesmo que ele fosse lido em sala de aula com frequência. Mas devido à naturalidade da linguagem, principalmente nas descrições ligadas ao sexo, fico pensando que alguns professores de literatura se sentiriam incomodados, caso quisessem indicar o livro a seus alunos. Talvez por pressão dos pais ou da própria escola. Um romance como O primo Basílio já incomodava o leitor com ousadias picantes em pleno século 19. Eu pergunto isso a você porque eu acho que Até o dia em que o cão morreu é um romance para estar na mão da molecada, mas o professor pode se sentir intimidado por esses motivos. O que você acha disso?

DANIEL GALERA — Até o dia em que o cão morreu já foi adotado em sala de aula por dois ou três professores, mas já ouvi relatos de professores que sugeriram o livro, mas tiveram resistência do diretor, de pais, enfim. Porque, sim, há algumas cenas que podem ser fortes nesse contexto. Mas depende muito do professor e do colégio. Mãos de cavalo, que está na lista de vestibular da Universidade Federal de Goiás neste ano [2010], é um romance com componentes sexuais bem menos fortes. Acho que Mãos de Cavalo tem mais chances de ser indicado por professores. Até o dia em que o cão morreu é mais difícil, mas já aconteceu; falei com turmas de Porto Alegre que tinham lido o livro. Eu acho ótimo. Lembro da minha época de formação de leitor, quando eu tinha essa idade escolar. O que eu queria era ler coisas desse tipo, esses livros que a gente julga serem para adultos e que, às vezes, podem vir a formar um leitor. A mão esquerda, do Fausto Wolff, tinha que ser leitura obrigatória para o Ensino Médio, porque um adolescente que pega aquele livro enlouquece. Ele vai querer ler trinta iguais àquele, em vez de A moreninha ou algo assim. Claro, é preciso ter uma certa dose do clássico, mas acho que colocar livros que, aparentemente, trazem temas inadequados, pode ser um gancho para formar um leitor. Indica um livro de qualidade tal e o aluno vai ver que há um mundo que interessa a ele ali. Um pequeno componente transgressor pode ser importante nesse momento. Meu pai me deu os livros do [João Gilberto] Noll para eu ler quando eu tinha quatorze anos. Ele tinha todos os livros dele e, em pouco tempo, li tudo do Noll. Foi por isso que eu comecei a ler cedo, e meu pai não estava pensando em algo inadequado. Ele sabia que se tratava de boa literatura. Isso tem que ser levado em conta. Se fossem os meus filhos, eu teria isso em mente.

TERTÚLIA — Em Cordilheira, Anita discute um romance do qual ela não gosta, porque ela acha os personagens infantis. Por trás do jogo literário, poderia estar ali, nas entrelinhas, a ideia de que você, que é o autor de Mãos de cavalo, poderia não gostar dos personagens e, talvez, estivesse sugerindo tal coisa?

DANIEL GALERA — Eu acho que já houve uma ou duas vezes, em debates, que alguém perguntou se já tinha acontecido comigo de não gostar mais de um livro meu, como a Anita não gosta do dela. Mas a verdade é que nunca me aconteceu. Isso é totalmente inventado.

TERTÚLIA — Mas, quando escreveu essa passagem de Cordilheira, você pensava nisso?

DANIEL GALERA — Não, comigo nunca aconteceu. Isso foi uma coisa que eu inventei para a personagem. Não há isso. O que existe é uma relação dela com um certo tipo de literatura, que se diz literatura feminina, que ela despreza um pouco. Há um trecho do livro de Anita dentro do meu romance, e esse trecho foi pensado para parodiar, ou decalcar, um certo tipo de literatura dita feminina que fica muito em cima de Clarice Lispector, além daquele discurso metafísico, sentimental, que eu acho um vício da literatura brasileira. Quer dizer, o de identificar a literatura feminina com aquilo. É um rótulo meio gozado. A Anita não só é uma narradora que contesta esse rótulo, como o livro dela, que ela odeia, é escrito dessa forma. Então, há uma brincadeira aí: essa opinião dela é uma opinião minha. É engraçado porque muitas pessoas me dizem que o trecho do qual mais gostaram é justamente o trecho do livro dela. Então eu fico quieto, porque Cordilheira é um romance que faz as pessoas terem as opiniões mais variadas possíveis, o que é algo legal. Não fico dando minha opinião porque o interessante é o livro render essa discussão. Enfim, o que tem a ver comigo é isso. Mas a questão dela não gostar do livro dela, comigo, isso nunca aconteceu. Me dou bem com todos os meus livros.

TERTÚLIA — Em Cordilheira foi difícil para você escrever em uma primeira pessoa feminina?

DANIEL GALERA — Foi difícil até o momento em que eu achava que era difícil. Eu me convenci tanto de que seria difícil que fui achando difícil até perceber que não era. Porque, no fundo, o que eu me dei conta é que uma voz feminina em primeira pessoa na literatura não tem nada de essencialmente diferente de uma voz masculina na primeira pessoa. É a mesma coisa. Você só tem que se colocar no lugar do personagem, que é o que se tem de fazer com qualquer personagem, seja mulher, homem, criança, velho. Você faz o esforço de colocar o personagem numa situação e tenta ver as coisas do ponto de vista dele. Quando me dei conta de que era só isso, ficou bem mais fácil. Também me dei conta de que não é mistério para ninguém que esse livro é escrito por um homem. Então, relaxei e o texto foi ficando pronto.

TERTÚLIA — Lendo Cordilheira lembrei-me de Os detetives selvagens do Roberto Bolaño...

DANIEL GALERA — É por causa daquela turma de argentinos que se aproxima da Anita. O componente de ridículo que há na visão idealizada da literatura que eles têm é bastante inspirado no primeiro capítulo de Os detetives selvagens, que eu tinha lido pouco antes.

TERTÚLIA — Foi muito diferente para você escrever um romance sob encomenda, como é o caso de Cordilheira, para o projeto Amores expressos, da Companhia das Letras?

DANIEL GALERA — Para mim foi tranquilo, porque o convite deles não me limitava. Pelo contrário, acho que inseriu elementos que foram estimulantes, como situar a história em Buenos Aires e narrar um caso de amor. Fora coisas que, para mim, vieram para acrescentar. Então não me senti tolhido, coagido ou com pressa. Algo com que tive de lidar foi a ansiedade, porque havia um prazo e eu respeito muito os prazos. Eles me disseram: não, não se incomode muito com o prazo, mas eu, na minha cabeça, não consigo. Então, tentei escrever o livro o mais rápido possível. Levei uns seis meses para fazer a primeira versão, com total liberdade criativa. Mas eu tive de fazer uma segunda versão. Após passar pelos editores, algumas mudanças foram sugeridas, pois o livro tinha problemas. Então tive que reescrever boa parte dele, e foram mais seis meses para chegar ao livro como ele é hoje.

TERTÚLIA — Como surgiu a ideia de Cachalote?

DANIEL GALERA — Apesar de eu ter sido o roteirista e o Rafael Coutinho o desenhista, trabalhamos em conjunto na criação dos personagens. Foi realmente um trabalho criativo a quatro mãos. Eu dei a forma final ao roteiro e ele desenhou, obviamente, mas as histórias ali são nossas. É impossível dizer quem criou qual. A gente se conheceu em São Paulo e teve uma afinidade criativa muito grande. Dissemos: vamos trabalhar juntos! Em seguida: no quê? Vamos descobrir! Então começamos a pensar em histórias e o que ficou é o que está em Cachalote.

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"Um dedo de prosa com Daniel Galera" foi publicado originalmente na revista Conhecimento prático literatura, número 34, de janeiro de 2011.

 

19/03/2011