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Mohamed Bouazizi /

Beto Canales

Nossa história é fantástica. Somos o que há de mais imprevisível, mais surpreendente e menos ajuizado que existe.

Faça o seguinte: imagine uma pessoa lá do começo do século; sente-se ao seu lado, olhe para um campo verde sob um céu azul com alguns pássaros piolhentos voando de um lado para o outro e comece a contar:

— Pois tudo começou com um feirante que, cansado de pagar propina a policiais corruptos, ateou fogo no próprio corpo. Na Tunísia. Este foi o início de uma queda de ditadores, diga-se de passagem, os mais cruéis e sanguinários possíveis, no norte da África e no Oriente Médio, uma região que, infelizmente, política e religião mesclam-se numa só coisa. Ditaduras de 20, 30 e até mais de 40 anos caíram como peças de um dominó bêbado.

Um feirante? Pobre, feio e sub-empregado, causaria um "estrago" desses? Ainda mais no mundo muçulmano? É claro que nosso ouvinte tiraria a cartola, soltaria a bengala ao lado da cadeira de balanço e diria:

Never, nunca, jamais. Vai enrolar outro.

— Bem, não seria exatamente isso que ele falaria, mas, convenhamos, nosso incrédulo senhor ficaria ainda mais incrédulo. E sabem por quê? Porque isso é mais fantástico que a máquina de debulhar milho, mais irreal do que a lâmpada, mais surpreendente do que o celular, mais avançado do que a informática; isso é uma civilização inteira tomando seu rumo, mudando a história, fazendo seu destino com as próprias mãos, ou pedras.

É um marco tão forte como o fim dos dinossauros ou a descoberta do fogo. É o momento exato da história onde o ser humano começou a optar por dignidade, por liberdade, mostrando para essa cambada de desgraçados que o tempo do cabresto terminou.

Meu enorme pessimismo quanto ao nosso futuro levou - ainda bem - um balde de água fria. Se tudo der certo, essa revolta tornar-se-á mundial e não sobrará nenhum tirano sobre a terra. Pelo menos exercendo o poder. Acabará o tempo da exceção. Terão seu fim governos baseados na força e no medo. Continuaremos sendo, alguns de nós, a maioria talvez, governados por incompetentes e ladrões, mas, escolhidos por nós mesmos. Por nossos erros. Por nossas limitações e não por uma questão hereditária ou pela força. E com prazo de validade.

Depois desse começo - sim, apenas o começo - talvez essa mesma gente comece a mostrar que nenhuma empresa pode governar e comprar políticos como compram papel higiênico. Que bancos não devem ser simples exploradores do povo, que não podem ser protegidos de suas falcatruas com o dinheiro do próprio povo, que não podem usar seus lucros fabulosos - que não deveriam ser tão espetaculares - simplesmente para especular. Que professores são importantes. Que escritores também são. Que todos somos.

Claro, estou sonhando. Isso ainda está longe, muito distante mesmo. Mas, fiquem certos, existe algo diferente no ar. Existe uma mudança radical - para melhor - logo ali adiante, ao alcance dos nossos olhos.

Quem somos? Boa parte de nós somos o feirante. E uma minoria aqueles policiais corruptos.

Somos o que parece dar esperança. O que parece ainda ter jeito.

Enfim, obrigado, vendedor de frutas.

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Beto Canales produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A Vida Que Não Vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio / 2009.
 

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27/02/2011