)Literatura(

A literatura perde um grande escritor / a morte de Moacyr Scliar

Renato Alessandro dos Santos

A primeira vez que vi Moacyr Scliar foi no 8º Congresso Internacional da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), em Belo Horizonte, em 2002. O escritor falou sobre o pai, sobre o passado e sobre a literatura que, com a medicina, tomou conta de sua vida.

A segunda vez foi em Ribeirão Preto. Ele viera para a feira de livros da cidade. Após o bate-papo com o público, foi autografar seus livros e conversar com o público. Era de uma simpatia acolhedora. Quando chegou minha vez, entreguei-lhe dois livros seus voltados para o leitor infanto-juvenil e pedi que, em vez de autografá-los para mim, os autografasse para meu filho. A conversa: “Quantos anos tem seu filho? Oito. Oito? E ele já lê esses livros? Não, mas irá lê-los já, já, quando chegar a hora.” Riu e escreveu em Ataque do comando P. Q.: “Para Théo, abraços do Moacyr” e, em O sertão vai virar mar, “Para Théo, leitor... Abraços do Moacyr”; nessa última dedicatória, entre "leitor" e "abraços" há uma palavra que, até hoje, nunca descobri qual é. Uma vez médico sempre médico. Um dia, mostrarei essa dedicatória a alguém que conviveu com Moacyr, e que conheça sua caligrafia, e tentarei descobrir o que está escrito ali.

A terceira e última vez que vi Moacyr Scliar foi na 10ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, no ano passado, e, acidentalmente, acabei entrevistando-o por alguns minutos. Ele e Carlos Heitor Cony chegaram ao camarim meia hora antes do bate-papo que teriam com o público. Eu queria falar com Cony porque queria entrevistá-lo a respeito do grande sujeito que foi Brito Broca, que Cony conheceu e com quem trabalhou na redação do Correio da manhã. No meio da conversa, perguntei ao autor de Pilatos sobre o dia em que Otto Maria Carpeaux, amigo de Cony, tomou o mesmo ônibus que Kafka. Ao final da entrevista, Scliar aproximou-se de mim e perguntou se eu conhecia uma outra história envolvendo Carpeaux e Kafka. Disse que não e, então, ele me contou a malfadada história de quando Carpeaux recusou exemplares das primeiras edições de um escritor tcheco ainda desconhecido, um tal de Franz Kafka... Dias antes, o escritor Daniel Galera estivera em Batatais e havia falado sobre a rapidez com que Scliar escrevia seus livros. Falei com ele sobre isso, e nunca me esqueci do que Scliar disse, e que você pode ler (ou ouvir, clicando no ícone à esquerda) na entrevista a seguir, realizada nesse dia em que vi Moacyr Scliar e Carlos Heitor Cony, dois grandes escritores em ação, falando de literatura e política para uma plateia que, por maior que fosse, permaneceu todo momento nas mãos dos dois.

Moacyr Scliar faleceu nesta madrugada, 27 de fevereiro de 2011, aos 73 anos. Segundo o HC de Porto Alegre, o escritor teve falência múltipla dos órgãos. A seguir, leia e ouça entrevista com o autor em Ribeirão Preto, no ano passado. Hoje, infelizmente, a literatura perde um grande escritor.

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MOACYR SCLIAR — Kafka e o Carpeaux eram editados pelo mesmo editor. Um dia, o Carpeaux foi lá para receber os direitos autorais, e o editor confessou que não tinha como pagá-lo. E disse: “Mas, se você quiser, tem aí um monte de livros de um tal de Franz Kafka e se você quiser levar...” e o Carpeaux não quis e, anos depois, ele se deu conta de que, se tivesse levado aqueles livros, que eram primeiras edições do Franz Kafka, teria ficado milionário.

TERTÚLIA — Parece até Rimbaud, que, reza a lenda, queimou todos os exemplares da primeira edição de Uma temporada no inferno, que ele bancou... Scliar, Daniel Galera esteve lá na cidade onde moro, Batatais, no Viagens Literárias, e especulou como é que o senhor dá conta de escrever tanto, viajar tanto, produzir tanto... Qual o segredo?

MOACYR SCLIAR — Olha, o segredo é, em primeiro lugar, acreditar no que a gente faz e, em segundo lugar, organizar-se. Então, por exemplo, nada impede que, na viagem, a gente escreva. Eu trago o meu laptop e, no avião, eu estou escrevendo, no aeroporto eu estou escrevendo, no hotel eu estou escrevendo. Agora mesmo, eu estava no hotel e estava escrevendo. Eu me acostumei com isso, porque eu fui médico de saúde pública durante muito tempo e viajava muito e aprendi a fazer isso naquela profissão e continuo fazendo.

TERTÚLIA — Bacana. Parabéns, Moacyr.
 

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27/02/2011