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Eu já tive um sonho nível 4 / 16º arrondissement, A origem, sonhos

André Carretoni

Eu já tive um sonho nível 4. Foi depois de ver o filme A origem, mas o tive, influenciado ou não por Leonardo DiCaprio. Sonhei que estava falando com minha prima e que tinha consciência de que estava dormindo. Acordei e sabia que ainda estava dormindo. Mais uma vez acordei e, ainda uma vez, acordei, consciente, naquele momento, de que estava apenas a um nível de distância do meu corpo. A diferença entre o último sonho e os outros sonhos foi a consciência que tive de que o nosso mundo real estava próximo, pelo menos o mundo o qual chamamos de real.

Em 2004 e 2005, tinha viajado tanto que acordei um dia sem saber em que país estava. Já havia tido uma experiência semelhante sem saber em que casa estava, mas sem saber em que país estava era a primeira vez. Fora algo especial, algo que me deixara durante alguns segundos num estado de onipresença. Itália, Espanha ou Portugal? Então, me dei conta de que estava em Lisboa, prestes a partir para a Suíça.

Às vezes estou dormindo e tenho certeza de que estou dormindo, o que me dá, nos meus sonhos, super poderes. Várias vezes fui capaz, por saber que tudo não passava de um sonho, de voar, de fazer aparecer objetos na minha mão, ou de vencer inimigos mais fortes do que eu. Contudo, o reverso da medalha é que às vezes estou acordado e não sei se estou dormindo. Dou-me dois tapas na cara, arregalo os olhos e estalo a língua, para ter certeza de que não posso sair pela janela ou que posso fazer xixi sem correr o risco de sujar a cama - o que ainda não me aconteceu.

Onde foi que tudo começou? Onde e quando aquilo que somos hoje foi definido? Como eu vim, afinal, parar aqui? Estava procurando emprego em Portugal e, graças a uma crise econômica ainda presente, acabei encontrando trabalho na França. E que outro ponto turístico para melhor simbolizar Paris do que a Torre Eiffel, que fica no 16º arrondissement? Algumas cenas do filme A origem (Inception) foram feitas lá.

A Torre Eiffel foi construída em 1889, e sua construção teve como origem a Exposição Universal. A ideia era, depois da exposição, desmontá-la, mas os parisienses gostaram tanto daquele emaranhado de ferro que ela acabou ficando onde está até hoje.

Lembrei-me de uma história.

Em 1999, quando ainda trabalhava em Lisboa, vim conhecer Paris com minha mãe, e, como bons turistas que éramos, fomos subir a tal torre. Pegamos o primeiro elevador, cheio, e subimos até o segundo andar. Fomos os primeiros a sair do cubículo e, aproveitando essa oportunidade, segurei minha mãe pela mão e corri em busca do segundo elevador, aquele que vai até a ponta. Aliás, todo o grupo que havia subido conosco nos seguiu. Encontrei o segundo elevador, e, para nossa sorte, havia espaço apenas para mais nós dois. Que glória senti naquele momento, olhando os turistas que teriam de esperar o próximo trem, todavia, desta vez, para nossa surpresa, o elevador começou... a descer. Pegamos o cubículo errado.

- Mira! Mira! Mira! - mostrei os bilhetes para a ascensorista, que nos mandou aguardar um novo giro.

Eis, então, que subimos de novo e encontramos o elevador correto no segundo andar, com uma enorme fila feita pelas pessoas que havíamos deixado para trás. Envergonhados, rimos.

Na altura, nem sonhava que um dia fosse viver em Paris.

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.
 

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27/02/2011