)Literatura(

Um sempre é melhor que zero / Formação de leitores

Renato Alessandro dos Santos

Quem gosta de estudar, tem tudo para ser professor. Uma frase de Borges explica: “Gosto de ensinar, sobretudo porque, enquanto ensino, estou aprendendo”. É verdade. Sou professor de literatura há 12 anos. No início, sem experiência, tudo foi difícil. Nunca me esqueço de uma aula para alunos de 5ª série. Eu, o professor, vinte e poucos anos, sozinho diante dos alunos, tentando capturar a atenção deles, enquanto a sala de aula parecia um mini-parque de diversões ou um cantinho de festas para crianças endiabradas. Lembra de uma cena do filme Gremlins, em que um dos diabinhos está num ventilador de teto que começa a girar e, de repente, lá vai o diabrete voando pela sala? Pois é. Só faltou algum daqueles alunos fazer isso. Triste. Foi a pior aula de minha vida. Pior: a mãe de um dos alunos estava na sala, cumprindo horas de estágio. Imagino o que ela achou da aula. Mas, se num dia perdemos, em outro, podemos ganhar. Acabei conquistando essa molecada quando, como sugestão de leitura, ofereci não livros da geração deles, mas da minha. Foi aí que descobriram O mistério do cinco estrelas, O caso da borboleta Atíria, O escaravelho do diabo, A ilha perdida e outros desses fantásticos livrinhos da Série Vagalume. A saída foi democratizar a leitura. Na lousa, escrevi os títulos de cinco livros; embaixo de cada um, o enredo resumido de cada história. Eles votaram, e um livro foi escolhido. Não me lembro qual. Importante era deixá-los escolher o livro que quisessem ler. Escolheram. Leram o livro. Adoraram. Discutiram a história e fizeram uma prova em que todos tiraram notas boas. Pronto. Eu e eles dávamos um passo adiante.

Importante o momento na vida de um professor em que ele vê que algo deu certo e, dessa forma, pode seguir adiante. Não me lembro das leituras obrigatórias do Ensino Médio. Mas me recordo de ter lido muitos dos livros da Série Vagalume da 5ª a 8ª série. Por quê? Bem, ler Dom Casmurro com 14 anos pode não funcionar para todo mundo. Nunca me esqueci disso. Como nunca me esqueci de como era estar do outro lado da sala, sentado passivamente, como aluno. Moleque, a simples menção de meu nome pela professora já fazia as cordas do meu coração dar um nó por dentro. Horrível, não é? Daí o porquê de nunca adotar retaliação com meus alunos. Nada de deixá-los exasperados e envergonhados, jogando-os na fogueira. E se algum deles estivesse apaixonado e sua garota o visse ser envergonhado por um professor com a faca entre os dentes? 

O tempo correu. Cresci. Nada de primeiro sutiã, mas os primeiros fios brancos na barba impuseram um certo respeito. A ideia de nunca esquecer como é estar no lugar do aluno me fez bem. Professor é um aluno eterno, porque está aprendendo sempre, como lembra Borges lá no início deste depoimento de um professor de literatura feliz com o que escolheu ser quando cresceu. Vieram novas e novas turmas, que passavam por mim como uma estação que era deixada para trás, porque o trem para e continua. Sempre. Todo professor sabe que não deve entrar em sala de aula sem ter preparado aula. Essa é a regra número um. Não adianta; é preciso imaginá-la e supor como ela será — o que faz bem e mantém os pés no chão. Para incentivar a leitura, optei pelo prazer em vez da obrigação. Foi outro passo adiante. Ninguém gosta de ler o que não quer. É um fato. Ninguém. Se a saída então não era dar O alienista ou Triste fim de Policarpo Quaresma, ou outras dessas obras—primas tapuias, resolvi partir por outro caminho. “Garotas, hoje, vamos escolher os livros que iremos ler”, anunciava aos alunos. O que esperava? Gritos ensandecidos de alegria? Ou o contrário: alunos rolando no chão, desesperados, arrancando os cabelos, os olhos girando nas órbitas? Exagero. Nada disso. Simplesmente, encontrava indiferença. Lamentar é preciso, mas não dá para ficar torcendo o nariz para os alunos, deixando-os sem ler só porque ninguém está a fim. Partia para alternativas. Tudo bem. Se comigo não deu muito certo, por que eu os faria encontrar-se com Machado ou Lima Barreto em uma hora em que ainda não estavam preparados para isso?

À beira do abismo

Fiz as contas. Então, em vez de O alienista, eles foram ler O mistério da casa verde; em vez de Triste fim de Policarpo Quaresma, Ataque do comando P. Q. Esses são dois livros de Moacyr Scliar que fazem parte de uma coleção chamada “Descobrindo os clássicos”. Estava errado? Deveria deixá-los ler as obras originais? Talvez ainda não fosse a hora. Talvez. A sala de aula é sempre esse lugar onde se está à beira do abismo. Qual o próximo passo? Posso dar um passo em falso? Se quiser aprender com o erro, nada melhor do que um passo em falso, não é? Tudo é aprendizado. E experiência. Do alto do segundo ciclo do Ensino Fundamental, eles liam obras que abriam caminho para os clássicos. Quando chegavam ao Ensino Médio, a semente já estava embaixo da terra e a colheita vingava. Uma vez que Machado de Assis e Lima Barreto já haviam aguçado a imaginação deles, finalmente, descobriam os clássicos e tinham um pouco mais de maturidade para entender o que havia ali, escondido atrás de palavras obtusas e seculares de dois de nossos grandes autores.

Ler com prazer um livro é uma experiência que só faz o leitor crescer por dentro. Então, por que fazê-lo fugir da literatura quando deveria fazer o contrário? Professora, professor, o que você queria ler quando tinha 12, 13, 14 anos? Livros de terror, aventura, histórias em quadrinhos? Tudo isso e muito mais, certo? A molecada de hoje tem acesso a tudo isso e mais um pouco. Já experimentou colocar nas mãos de um menino de 10 anos um livro como O gênio do crime? Pode ter certeza de que você teria gostado desse livro aos 10 anos. Imagine seu aluno...

Lembre-se: um sempre é melhor que zero.

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"Um sempre é melhor que zero" foi publicado originalmente na revista Conhecimento prático literatura, número 34, de janeiro de 2011.
 

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13/02/2011