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Théo de bicicleta /

Renato Alessandro dos Santos

Quem não se lembra do dia em que andou de bicicleta pela primeira vez? Equilibrar-se em cima de duas rodas não é proeza das mais difíceis para uma criança, mas — como o primeiro sutiã — é inesquecível. Eu tinha quantos anos? Oito? Nove? Depois de escoriações aqui e ali, pedaços de pele esparramados pela calçada diante de minha casa e de casquinhas de ferida levantadas antes da hora, meu tio resolveu botar um fim naquilo. “Cadê a bicicleta, moleque?”, quis saber. “Pega ela lá. Vamos dar uma volta.” Sem dúvida. Havia o sol, claro. A rua. A infância querida. E a manhã chegava ao fim. Ele segurou no banco da bicicleta e começou a me acompanhar, ao meu lado. “Larga, não, hein tio!” — e lá ia eu pela rua. O asfalto era só uma conseqüência e, cá entre nós, do chão a gente não passa, não é mesmo? Olhei para meu tio, a língua de fora, resfolegando; pedalei, levado pelo impulso e pela segurança do tio ao meu lado. Olhei para ele de novo e para frente. A língua de fora. Dos dois. Olhei de novo. Sua testa porejando, e ele correndo pela rua com um moleque e uma bicicleta. Olhei de novo e... cadê meu tio? Só ouvi os gritos de alegria dele, exaltado com as manobras primícias de um garoto sobre duas rodas. Nem havia percebido que, pela primeira vez, estava me equilibrando sozinho sobre uma bicicleta. Só faltou chover. Recorda a sensação? Finalmente, estava andando de bicicleta. Sozinho. As duas mãos no guidão. Os dentes no lugar. Lembra da piadinha infame? De bicicleta, o garoto passa diante do pai. Sábio de si: “Olha, pai, sem as mãos.” “Bonito, meu filho. Esse é o meu garoto.” O menino continua. De repente, ploft! “Olha, pai, sem os dentes.”

(...)

Falei que era infame. Nunca me esqueço desse dia e de meu tio também. Nilton. Tio Nilton. Espírito arredio, ele perambulava Brasil adentro com o carro cheio de balas de revólver. Eram os anos 90. Nunca foi descoberto. Faz tempo. Tempo. O tio já morreu.

Théo aprendeu a andar de bicicleta só agora. A experiência foi frustrante, anos atrás. Ele devia ter uns cinco anos. Ganhou sua primeira bicicleta. Uma noite, eu e Sementinha de Mostarda o levamos para andar na praça perto de casa. A bicicleta tinha aquelas rodinhas-bônus, que fazem uma criança procurar o equilíbrio antes da hora. Aos cinco, ou aos seis, Théo foi andando para lá é para cá. Eu e Silvia, sentados no banco da praça, acompanhando tudo aquilo. Intrépido, uma hora foi virar o guidão e, ploft, as rodinhas no ar, enquanto o menino se ralava no chão. Foi a última vez que o vimos sobre a bicicleta. Nunca mais quis saber dela. Por mais incentivo que tenha tido para retomar a labuta sobre rodinhas, nada do rapaz se envolver com a magrela, que foi ficando no jardim da casa. O céu — que estava azul — escureceu, rapidamente, várias noites, enquanto os dias correram adiante, e a bicicleta lá, tomando sol, tomando chuva, deixando-se enferrujar como um prego adormecido. Ela poderia ter ficado ali por anos, mas acabou nas mãos de um garoto, por quem ela se apaixonou perdidamente. E eis que, neste último natal, Silvia e eu resolvemos dar uma bicicleta nova para Théo. E cá estamos.

Há alguns dias, pegamos a bicicleta nova. O sol levaria ainda algumas horas para se deitar. Havia um problema: coberto de razão, Théo estava até as canelas de vergonha; como ainda não sabia andar sobre duas rodas, tinha medo de que alguns dos meninos da vizinhança o vissem cair da bicicleta, ou qualquer outro desses infortúnios que, aos 10 anos, é irremediável. Vai ser pior daqui a alguns anos. Deixa disso, disse. E claro, ele confiou em mim e começamos a subir a rua de casa. Cai daqui, cai dali; sobe a rua, desce a rua. Enquanto isso, diante da batcaverna, a mãe acompanhava tudo, máquina fotográfica a tiracolo. Tropecei na minha língua duas vezes. Vez ou outra, tirava a mão do banco, deixando Théo andar alguns metros, sem que ele soubesse que já estava em cima de uma bicicleta, sozinho, por conta própria. Não falava nada porque não era hora. Era preciso ainda um pouco mais de confiança. Lembrei de meu tio; lá de cima — espero —, ele devia estar se divertindo com aquilo. Foi então que tirei a mão de vez do banco, mas permaneci correndo ao lado da bicicleta — atrás de mim, litros de suor deixavam uma trilha no asfalto, como se eu fosse uma lesma. E Théo percebeu que estava se equilibrando sozinho. Ao seu lado, registrei em minha filmadora mnemônica a alegria de um garoto andando de bicicleta. Sozinho, foi subindo pela rua, e andou um bocado, até chegar à outra esquina, quando desceu exultante de seu cavalo de sete marchas. Voltamos para casa. Para comemorar o primeiro passo rumo ao equilíbrio total sobre duas rodas, pedimos uma pizza. Tudo acaba em pizza. Um cachorro brincava com um besouro na rua. Escurecia. Quem não se lembra do dia em que andou de bicicleta pela primeira vez?

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06/02/2011