)Cinema(

Cinema, aspirinas e abutres / filme Abutres

Beto Canales

Quando termina um filme e começam a subir letrinhas que ninguém lê, eu procuro olhar para as pessoas. Procuro interpretar as reações de cada um. Vejo de tudo: expressões de choro, pessoas aliviadas, descansadas, felizes, enfim, naquele instante é revelado o efeito do que foi recém exibido. É um ótimo termômetro. Costumo, também, logo depois de terminada a sessão, pensar no que - ou se - escreveria algo a respeito. E aí acontece um fato interessante: alguns filmes não me inspiram a falar sobre cinema. E, contraditoriamente, na imensa maioria das vezes, são obras excelentes e muito bem feitas.

Foi exatamente isso que aconteceu depois de Abutres (Carancho, Argentina, Chile, França, Coreia do Sul, 2010) um show cinematográfico de Pablo Trapero, com o excepcional Ricardo Darin e Martina Gusman, candidatíssimo ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e uma verdadeira aula de como fazer cinema de qualidade com baixo orçamento. Se ganhar o bi em Hollywood, não será nenhuma surpresa, apesar do tipo de filme, destes que mostram a violência como ela realmente é, não ser exatamente o estilo preferido da Academia, que, felizmente, tem sido mais eclética nos últimos anos.

Nossos vizinhos argentinos estão milhares de anos-luz à nossa frente em se tratando da Sétima Arte. Já havia falado isso? Sim, toda vez que vejo um filme dos nossos "hermanos". Eles não somente chegaram à maturidade técnica como também profissionalizaram o cinema. Não tratam essas questões como aventura financeira ou artística, diferentemente de como fazemos aqui.

Além disso, os argumentos escolhidos, na maioria das vezes, são muito pertinentes. Em Abutres,  é tratado, de uma forma dura e real, o nosso submundo. Não fala do submundo da máfia russa ou italiana, nem dos traficantes colombianos e muito menos daqueles dos morros cariocas. Não conta nada sobre delinquentes das entranhas do terrorismo e sequer lembra os porões de governos corruptos. Ele fala de algo próximo, de alguém próximo a nós, consumidores de cinema, leitores de resenhas e críticas. Conta o que há de mais baixo em companhias inescrupulosas, em advogados mal intencionados, médicos frágeis e pessoas infelizes que cruzam nossas ruas como zumbis.

O resultado disso é que ao final do filme não olhei para ninguém que estava no cinema. Não observei nenhuma expressão que devia ser de pânico, nojo, medo, ou, melhor ainda, tudo junto. E também não olhei para as letrinhas que ninguém lê. Olhei, sabe-se lá a consequência disso, para dentro.

É natural pensarmos que a classe que representamos, a tribo à qual fazemos parte, seja a melhor. Ou, no mínimo, a menos pior. E defendemos isso, mesmo que inconsciente, em todos os momentos de nossa vida. A conclusão de tudo (eis a consequência) é que somos ruins. Maus. Pobres em caráter.

Vá ao cinema. E, mesmo se incomodado, fique até o final. Não somente pela última cena que é memorável, uma das melhores que vi nos últimos anos, mas também por todos nós.

Enfim, preferiria falar sobre cinema.

  <>_<>

Beto Canales produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A Vida Que Não Vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio / 2009.

30/01/2011