)Música(

Quem tem medo de Garotas suecas? /

Renato Alessandro dos Santos

Se você pensa que cachaça é água, já sabe: não é não; se pensa que estas Garotas suecas são suecas e garotas, também não são não. Elas, na verdade, são: ela (Irina, a única garota, teclados) & eles (Sessa, guitarra; Nico, bateria; Guilherme, voz; Tommy, guitarra; Perdido, baixo). Juntos, formam Garotas Suecas, banda que diretamente do bairro Pompéia, de São Paulo, terra de Mutantes, saiu mundo afora, levando o Brasil na mochila. Brasil de Tim Maia, de Roberto & Erasmo, de Ben Jor. Brasil de tropicália, de Mutantes. Brasil, enfim, de Garotas Suecas, essa banda cujo nome é muito bem sacado – e sacana –, como o nome de outro grupo que, lá fora, deu o que falar também: Cansei de ser sexy. Fique na sua, portanto, pois as Swedish girls estão tocando o interfone. Você não vai atender?

Se você achou que encontraria essas “garotas” em revistas para maiores de 18 anos, enganou-se, pois estas “suecas” vivem o momento exato de provar se são mesmo uma das bandas mais promissoras do rock brasileiro atual – como apontaram Spin, Rolling Stone, The New York Times e outras publicações de inquestionável reputação –, ou se são apenas palha pegando fogo. Nada de pensar também que Garotas suecas vivem em um mundo onde somente a atmosfera indie é importante. “Essa idéia de limitar nossa música a um reduto de 'entendidos' passa muito longe das nossas ambições”, diz Sessa, em entrevista ao Tertúlia, a seguir. Mas, de certa forma, o mundo deve a eles alguma coisa, e eles estão aí para cobrar.

Piercing

Se comparada à biografia de outras bandas, a história de Garotas suecas é um pouco diferente, justamente, por causa do período que passaram nos Estados Unidos. Foi algo que trouxe mais brasilidade ao grupo. Longe, fora, perceberam o quanto a música brasileira é revigorante e, com isso, sem poder fazer nada, descobriram que ela corria nas veias e cordas da banda. Veio então a partida decisiva: o show num festival importante, como o SXSW (South by Southwest), em 2009, onde foram apontados pela revista Spin como uma das 20 bandas a não se perder de vista, e dos ouvidos, claro. E as coisas foram acontecendo. Curioso é que devem ser mais conhecidos nos EUA do que no Brasil, o que é bom e ruim ao mesmo tempo: bom porque os americanos sabem fazer música (Strokes, Metallica, James Brown etc.) e ruim porque deixamos de olhar para nosso próprio umbigo, sem perceber esse piercing flamejante que está ali. Com isso, muita gente no Brasil ainda não descobriu a banda Garotas suecas. Uma pena: depois de anos pelejando, o grupo está cada vez melhor.

Garotas suecas, codinome Dinamite

Primeiro, surgiu Difícil de domar, em 2008, com músicas como “Corina”, “Não espere por mim” e outras, como a faixa-título e “Acho que estou me tornando um zumbi”, canção brejeira que alinha filmes B, zumbis e picardia juvenil: “Outra dia numa festa uma garota me mordeu/ Depois de algum tempo, minha pele apodreceu/ Depois de algum tempo, o meu coração parou/ Mas o que é mais estranho... Nada disso me matou/ [...] Acho que estou me tornando um zumbi”.

Em seguida, também em 2008, chegou o EP Dinossauros, com cinco canções bem produzidas, das quais duas são muito, muito inspiradas: “Bugalô”, beldade de música e canção mais sorridente da banda, e “Codinome dinamite”, cuja letra revela o charme e a senha de Garotas suecas: “Meu codinome é Dinamite/ Meu apelido é Explosão/ (...) Quem acompanha o Homem-Brasa é a Garota Explosão”. Flamejante, não?

Por último, em 2010, o terceiro e mais maduro trabalho chegou: Escaldante Banda. “O disco tem essa coisa de não ter nenhuma faixa que se imponha. Acho que é um trabalho que funciona bem como um todo. Tínhamos uma expectativa bem grande para ele (...). Queríamos fazer um trabalho que fosse um outro nível na nossa história, que já tem seis anos. Superou, até as nossas expectativas", disse o vocalista Guilherme à Rolling Stone brasileira. Mas, a despeito do que afirmou, há uma faixa que se impõe no álbum, e essa canção é “Tudo bem”. E o “todo” faz sentido: faixas como “Banho de bucha”, “Ela”, Mercado roque santeiro” e outras, como a última canção, “Sunday night blues”, cantada por Irina, mostram que a peleja continua. Sem contar que o álbum inteiro está disponível para download no site da banda.

Resumo da ópera-rock       

É uma banda que merece ser descoberta por quem ainda não a conhece. Embora o nome seja um achado, se há um grupo cujo nome não tem nada a ver com o tipo de música que faz, tenha certeza de que Garotas Suecas é essa banda. Não é uma constatação difícil, basta ouvi-los; a menos que você conheça alguma outra banda que faça uma mistura de Tim Maia, Mutantes, Jorge Ben Jor, jovem-guarda, tropicália, samba-rock, soul, et cetera. Essas Garotas Suecas, sem ser garotas nem suecas, têm swing transpirando nas cordas, nos metais, nos pandeiros, nos parafusos que caem saltitantes da cabeça desses seis.

Leia, a seguir, entrevista com o guitarrista Sessa.

*
TERTÚLIA – A primeira vez que ouvi falar de vocês, em 2008, o que mais me chamou atenção foi justamente o nome que escolheram para a banda. Além de Garotas Suecas, quais outros nomes vocês cogitaram para o grupo?

Não me lembro de vários. Um que eu lembro bem era Ignácio Popular & os Patetas, mas realmente é uma piada interna meio fraca. Garotas Suecas é bem melhor.

Vocês são muito bem avaliados pela crítica e pelo público que conhece o trabalho de vocês. Mas ainda são uma banda indie. Vocês têm pretensão de tocar mais em rádios Brasil adentro, ou em programas dominicais de auditório, como um Domingão do Faustão, por exemplo, ou preferem trocar tudo isso, preservando o espírito independente e o reconhecimento artístico (aqui e no exterior) da crítica e, também, do público que admira o trabalho de vocês?

Esse balanço entre o comercial e popular e o artisticamente relevante é sempre interessante. Eu acho que o som do Garotas Suecas transita bem entre esses parâmetros. Não teríamos problema algum em tocar no Faustão, desde que isso não atrapalhasse nossas liberdades artísticas. Essa idéia de limitar nossa música a um reduto de "entendidos" passa muito longe das nossas ambições.

No primeiro trabalho, Difícil de domar, ganhando o jogo, vocês não mexeram no time e acabaram produzindo um disco prazeroso de se ouvir e que, hoje, não fica a dever nada aos outros trabalhos de vocês: há rockabilly (“Acho que estou me tornando um zumbi”, “Corina”), anos 60 (“Bacana, bacana”, “Difícil de domar”), jovem-guarda (“Não espere por mim”), balada ao estilo rock anos 50 (“Ninguém te ama como eu”). Já o segundo registro, o EP Dinossauros, traz a influência de tropicália, jovem guarda, rock & roll, samba-rock, enfim, a receita redonda que tão bem faz à banda. Em 2010, vocês lançaram Escaldante banda, preservando essa mistura toda, mas com uma demão extra de samba-rock. Para mim, a impressão que fica é que vocês abraçaram uma brasilidade bem maior do que nos registros anteriores. Ou não, porque ouvindo a faixa seis, “Mercado rock santeiro”, há ali maracatu, samba, mas também James Brown... É música solar, das boas, como tantas outras do disco. Duas perguntas: (1) musicalmente, vocês ficaram contentes com o resultado final que conseguiram com o álbum? (2) Pode-se dizer que se trata de uma evolução que aponta mais para Jorge Ben Jor do que para Roberto Carlos em ritmo de aventura?

Legal a pergunta. Ficamos muito contentes com o resultado sonoro do "Escaldante Banda". Foi um momento muito bom na banda, de bastante liberdade criativa, mas também de bastante foco pro disco ter uma linha estética só. É engraçado que o disco é uma novidade pra todo mundo, mas pra gente é um processo que vem rolando faz tempo, desde quando começamos a nos reunir pra compor e arranjar as músicas, em sei lá, abril (acho) de 2009. Mas sim, o disco é uma evolução. Nos primeiros EPs nosso interesse era outro, pirávamos em garageira 60's, éramos meio radicais. Mas com as turnês nos Estados Unidos nossas experiências mudaram e nosso interesse musical mudou um pouco de foco: ficou mais abrangente. Começamos a pesquisar muita música brasileira, psicodélica, funk, soul, free jazz, sei lá, música como esse mundo infinito, e não um nome de gênero. Tanto o Jorge Ben quanto o Roberto são figuras muito importantes pra todo mundo da banda, mas sim, o Jorge Ben é com certeza um artista que explorou muito mais sonoridades em estúdio do que o Rei, e o Escaldante Banda tem um pouco essa intenção de explorar sons, além de ser mais funkeiro, sei lá.

Como está a agenda de vocês para 2011? Pretendem passar uma temporada no exterior ou vão ficar mais no Brasil? Caso fiquem mais por aqui, quais as chances de tocarem em um evento da região – onde já tocaram Mutantes, Jorge Ben Jor, Soulzé, e que, pelo lugar em si, uma fazenda, tem a cara de vocês – que é o Forró da Lua Cheia, em Altinópolis, cidade que fica quase na divisa entre São Paulo e Minas Gerais?

Nossa agenda está se desenhando. Temos algumas coisas já bem encaminhadas e outras aparecendo. Pretendemos voltar pro exterior em algum ponto deste ano. Sobre o evento, adoraríamos fazer, é só questão de planejarmos os custos, a infra, pra podermos fazer um show bacana. Seria um festival? Enfim, vamos nos falando. Valeu bicho. Abraço.


 

  • 182_01_bugalu.play

  • 182_01_tudo_bem.play

16/01/2011